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dez.12: A ltima noite de Natal

Publicado em 28 d novembro d 2012

Linhas Tortas (1962) Capa da ltima edioOs grandes olhos claros e aguados boiavam na sombra nevoenta, cheios de espanto. Esfregou-os, arrastou-se pesado e entanguido, mal seguro bengala, sentou-se num banco do jardim, fatigado, suspirando, examinou a custo os arredores. Gastou uns minutos passeando as mos desajeitadas na gola do casaco. 0 exerccio penoso enfureceu-o. Resmungou palavras enrgicas e incompreensveis, esforou-se por dominar a tremura. Com certeza era por causa do frio que os dedos caprichosos divagavam no pano esgarado e os queixos banguelos se moviam continuamente. Era por causa do frio, sem dvida. Se conseguisse abotoar o casaco e levantar a gola, os movimentos incmodos cessariam.

Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradveis. Ou seriam desagradveis? Pedaos de recordaes incoerentes danavam-lhe no esprito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam tambm quase invisveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a ateno nas mais prximas, brilhantes, enormes.

A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, atravs dela, os altares refugiam como sis, a luz das velas numerosas chispava nas aurolas dos santos.

Que doidice! No que estava imaginando ver ali, nas transitrias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabea, afastou a lembrana importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?

O que devia fazer… Ps-se a mexer os beios, procurando nas trevas midas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer… Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossvel distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; os prdios se diluam nas ramagens das rvores, manchas negras; os letreiros vacilantes no tinham sentido.

O que devia fazer… De repente a idia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botes nas casas e agasalhar o pescoo. Depois cruzaria os braos, aqueceria as mos debaixo dos sovacos, ficaria imvel e tranqilo. Mas os dedos finos e engelhados avanavam, recuavam, no havia meio de govern-los. Se pudesse riscar um fsforo, cheg-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.

Agora no estava no banco do jardim, perto das esttuas, das rvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distncia, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vo respeito e silncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes quela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingnuos, de versos curtos, fceis. Tudo parecera de chofre muito srio, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adorao. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam prespios, listas de foguetes cortavam o cu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multido no diminua.

Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma fasca; os alfinetes pregados na carne trmula embotaram-se; o espinhao curvo endireitou-se; um dbil sorriso franziu os beios murchos; os braos ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.

Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom corao. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os prespios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanas, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa mida um jasmineiro recendia.

Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente s. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora… Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do cu! J nem se lembrava dos lugares percorridos.

Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola. Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, no perceber as letras que se acendiam e apagavam.

Certamente quela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a fumaa luminosa dos repuxos.

Graciliano Ramos
20 de dezembro de 1941

Texto extrado do livro Linhas Tortas, Editora Record Rio de Janeiro, 2005, pg. 317

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“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937