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 Graciliano Ramos
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Artigos

A rasteira de Graciliano Ramos no futebol

Publicado em 12 d Janeiro d 2013

O Globo, Blogs
Por PLNIO FRAGA
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Em texto no jornal alagoano O ndio, escritor satirizou a adequao do esporte ao povo sertanejo

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GR e a rasteira, por Cruz

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A edio de janeiro da WorldSoccer, revista inglesa especializada em futebol, traz bela reportagem de seu correspondente no Brasil, Tim Vickery, que cita uma frase do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), que afirmou, na dcada de 1920, que o futebol era fogo de palha, moda passageira, importada, sem futuro. Os ingleses, inventores do futebol, citam o suposto malogro no Brasil da profecia de Graciliano com indisfarvel prazer.

Futebol e literatura sero tema de vrias mesas de debates que o jornalista Joo Mximo est organizando para a prxima Bienal do Livro, que ocorrer a partir de 29 de agosto no Riocentro. Companheiro de O GLOBO e vizinho de mesa na redao, Joo Mximo, antes mesmo de a WorldSoccer chegar s bancas, j havia antecipado que uma das mesas da Bienal discutir a polmica frase de Graciliano. Foi isso mesmo que ele quis dizer?

Em 1921, Palmeira dos ndios, cidade no agreste alagoano, a 200 quilmetros de Macei, sofria com a pobreza de sua gente. Um dos editoriais daquele perodo do jornal O ndio, intitulado Nosso povo, comeava assim: O estado em que se encontram as nossas populaes sertanejas no nos iludamos a mais profunda barbaria. (…) Parece incrvel que possvel viver como vivem, pobre diabos, meio selvagens, quase bichos, sem nenhum conforto. As casas em que moram so as habitaes do homem primitivo, no mais cmodas talvez que as cavernas dos trogloditas.

Graciliano seria prefeito de Palmeira dos ndios dez anos mais tarde, com os famosos e irnicos relatrios de sua administrao, nos quais dizia, por exemplo, que se a cidade podia ser chamada de princesa do serto, era uma princesa muito nua, muito madraa, muito suja e muito escavada. Estava ainda longe da carreira que o consagraria como escritor, era um crtico mordaz da sociedade em que vivia e usava o jornalismo como arma de combate.

Graas Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, no difcil ter acesso ao texto original do jornal O ndio, que circulava em Palmeira dos ndios (AL). Fazia cerca de 30 anos que o futebol acabara de ser importado para o Brasil. Era um esporte da elite. Com o pseudnimo J. Calisto, Graciliano assinava uma coluna intitulada Traos a esmo, em que fazia comentrios cidos em geral.

No domingo de 10 de abril de 1921, comeou assim: Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. uma lembrana que, certamente, ser bem recebida pelo pblico, que, de ordinrio, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de muita gente. Com exceo talvez de um ou outro tsico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontap a uma bola de borracha, vai haver por a uma excitao, um furor dos demnios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um ms.

Argumentava que a cultura fsica estava inteiramente descurada entre ns.

Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em lngua de preto, de cunho regional, mas por desgraa abandonados pela dbil mocidade de hoje. Alm da incua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanes sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianas, no temos nenhum exerccio. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de msculos lastimvel.

Afirmava claramente no ser contra o futebol s por ter sido importado.

No que me repugne a introduo de coisas exticas entre ns. Mas gosto de indagar se elas sero assimilveis ou no. No caso afirmativo, seja muito bem-vinda a instituio alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho hbrido que possa viver c em casa. De outro modo, resignemo-nos s broncas tradies dos sertanejos e dos matutos.

A grande dvida que Graciliano ora parece claro que se dirigia especificamente sua gente do serto, aos leitores do jornal de sua pequena Palmeira dos ndios, ora parece falar para o Brasil como um todo, sendo que neste caso o jornal O ndio decerto no era o melhor palanque, e talvez fosse audcia demais para um talento de ento apenas 29 anos.

A contraposio serto/grandes cidades aparece no texto com frequncia reforando a ideia de que fala mais para sua gente do que para todo o pas: As grandes cidades esto no litoral; isto aqui diferente, serto. As cidades regurgitam de gente de outras raas ou que pretende ser de outras raas; ns somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego. Nas cidades os viciados elegantes absorvem o pio, a cocana, a morfina; por aqui h pessoas que ainda fumam liamba. Nas cidades assiste-se, cochilando, representao de peas que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre ns h criaturas que nunca viram um gringo, comentava.

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Rasteira, esporte nacional por excelncia

Sugeria para a mocidade exercitar-se em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, como o murro, o cacete, a faca de ponta.

Estrangeirices no entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega. Desenvolvam os msculos, rapazes, ganhem fora, desempenem a coluna vertebral. Mas no necessrio ir longe, em procura de esquisitices que tm nomes que vocs nem sabem pronunciar. Reabilitem os esportes regionais que a esto abandonados: o porrete, o cachao, a queda de brao, a corrida a p, to til a um cidado que se dedica ao arriscado ofcio de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o cambap, a rasteira.

A concluso de Graciliano, irnica e poltica, to brilhante que deveria ser suficiente para sepultar a polmica sobre suas intenes a respeito da profecia futebolstica.

A rasteira! Este, sim, o esporte nacional por excelncia! Todos ns vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primria habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiana no crebro e a rasteira nos salva. Na vida prtica, claro que aumenta a natural tendncia que possumos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comrcio, na indstria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavaes, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocs tiver vocao para a poltica, ento sim, a certeza plena de vencer com auxlio dela. a que ela culmina. No h poltico que a no pratique.”

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“Aparea o filho da puta que disse que eu no sabia montar em burro bravo!”

Em bilhete enviado a Chico Cavalcanti, aceitando a candidatura a prefeito de Palmeira dos ndios – AL, 1927 (O Velho Graa, Dnis de Moraes, Boitempo, pg. 61)