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Graciliano em Viçosa

Publicado em 01 d abril d 2014

por Sidney Wanderley

Nascido em Quebrangulo (AL) a 27 de outubro de 1892 e tendo vivido até os sete anos na vila de Buíque, no vizinho Estado de Pernambuco, em 1899 Graciliano Ramos aportaria em Viçosa – “cidadezinha do país das Alagoas / terra de tanta coisa ruim / terra de tanta coisa boa”, no exato dizer do falecido folclorista Theo Brandão.

Sebastião Ramos, pai do romancista, instalou-se no comércio local com uma loja de miudezas, tecidos, ferragens e perfumaria, situada na parte térrea do principal sobrado da praça Apolinário Rebelo, àquela época praça do Quadro, onde posteriormente funcionaria o Banco de Viçosa. Aí permaneceria até 1910, quando os Ramos migrariam para Palmeira dos Índios.

De início, a família fixou residência numa casa na rua do Juazeiro (atual Frederico Maia), mudando-se posteriormente para a rua da Matriz (hoje Epaminondas Gracindo), quando então Graciliano Ramos se fez amigo dos filhos do farmacêutico Mota Lima – um dos quais, Pedro da Mota Lima, viria a se tornar um renomado jornalista e faria brilhante carreira nos jornais cariocas.

Em Infância, Graciliano relembra sem muitas saudades esses tempos: “Aos nove anos, eu era quase analfabeto. E achava-me inferior aos Mota Lima, nossos vizinhos, muito inferior, construído de maneira diversa. Esses garotos felizes, para mim eram perfeitos: andavam limpos, riam alto, frequentavam escola decente e possuíam máquinas que rodavam na calçada como trens. Eu vestia roupas ordinárias, usava tamancos, enlameava-me no quintal, engenhando bonecos de barro…”.

Por esse tempo, o futuro romancista comovia-se com os peditórios do mendigo Venta-Romba e estudava, contra a vontade, na escola de Dona Maria do O. Pôde então perceber com rapidez a diferença de tratamento que as professoras primárias dispensavam aos filhos de coronéis e aos filhos dos destituídos de poder e prestígio na comunidade. Não poucas vezes suas mãos receberam o áspero e indesejado afago da palmatória, método didático muito apreciado no começo do século passado. Como anota em Infância: “O lugar de estudo era isso. Os alunos se imobilizavam nos bancos: cinco horas de suplício, uma crucificação… Não há prisão pior que uma escola primária do interior”.

Aos domingos, o futuro ateu e militante comunista lia sofregamente romances de terceira e quarta qualidade, emprestados de bom grado pelo tabelião Jerônimo Barreto, e ajudava desajeitadamente o padre Loureiro, durante a celebração da missa. Já com o padre Pimentel incursionou pelas aventuras do Velho Testamento, embora as explicações do religioso não o hajam convencido sobre a razoabilidade do quase sacrifício de Isaac por Abraão, suspenso no derradeiro instante, e da libidinagem incestuosa de Lot e suas duas filhas, após a transformação de sua mulher numa coluna de sal e a destruição de Sodoma. Deixou-nos, em Viventes das Alagoas, um valioso registro da vida religiosa viçosense: “A cidade tem uns cinco mil habitantes. Contando bem, talvez achássemos seis mil, número que os naturais, bairristas em excesso, duplicam… Faz trinta anos que S. Revma. profere no púlpito, com ligeiras variantes, o mesmo sermão, ataque feroz ao mundo, à carne e ao diabo, férteis em tentações não especificadas… Idoso e de óculos, enxerga sem dificuldade os colos expostos. E julga que alguns centímetros de pele nua ocasionam prejuízo sério à cristã”.

Em 1904, sob a influência de seu professor de Geografia e chefe da agência dos Correios local – a exótica figura de Mário Venâncio, o morador mais erudito da rua do Pão Sem Miolo −, Graciliano, em companhia do seu primo Cícero Ramos, fundaria um periódico intitulado O Dilúculo, com circulação quinzenal e divulgação restrita à província viçosense.

No número de estreia do jornaleco, o pseudônimo Ramos de Oliveira (R. O.) assinava as primeiras linhas que mestre Graça fez publicar. Artigo “fraco, miúdo, chinfrim”, como o próprio autor mais tarde o definiria. Mas perdoável para uma criança de 11 anos, criada entre “dois currais, o chiqueiro das cabras, meninos e cachorros numerosos soltos no pátio, cobras em quantidade”, tabefes paternos, cascudos maternos, indiferença e desprezo dos familiares. E, sobretudo, artigo já revelador de uma simpatia compreensiva e de uma sensibilidade aguçada para com o sofrimento e a miséria dos oprimidos terrenos, sensibilidade esta que se converteria na viga mestra e sustentadora de uma de suas obras-primas, Vidas secas.

O escrito intitulava-se “O Pequeno Pedinte”, e posteriormente, no autobiográfico Infância, Graciliano se eximiria de parte dos pecados acaso cometidos em sua iniciação literária, atribuindo-os ao já citado Mário Venâncio: “O Pequeno Mendigo (sic) e várias artes minhas lançadas em O Dilúculo saíram com tantos arrebiques e interpolações, que do original pouco se salvou. Envergonhava-me lendo esses excessos do nosso professor: toda a gente compreenderia o embuste”.

Transcrevo o artigo, datado de 24 de junho de 1904, e que nem de longe nos permite imaginar o escritor substantivo em que R. O. se transformaria.

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O Pequeno Pedinte

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“Tinha oito anos!
“A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmolas aos transeuntes caridosos, tinha oito anos.
“Oh! Não ter um seio de mãe para afagar o pranto que existe no seu coração!
“Pobre pequeno mendigo!
“Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas, exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto.
“Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequena mão, só recebia a indiferença e o motejo!
“Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis!
“É domingo.
“O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe deem uma esmola pelo amor de Deus.
“Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que lhes está estendida.
“Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome.
“Depois vêm os dias, os meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida.”

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Em toda a sua futura obra, creio que Graciliano não chegou a lançar mão de tantos adjetivos e de tantas interjeições como nesse escrito inaugural.

Pouco tempo depois, inconsolável com um amor impossível e uma amada inatingível, o poeta Mário Venâncio cometeria o suicídio e um solene soneto de despedida (“Voemos, amor, cantando, para o azul do Empíreo”). Ingeriu uma farta e eficiente dose de ácido fênico poucos dias antes de 16 de fevereiro de 1906, data em que o segundo e último número do segundo e último jornal que Graciliano fundou na província – o Echo Viçosense – viria a público.

Tiveram vida efêmera as tentativas jornalísticas do quebrangulense na terra natal de Teotônio Vilela e Zé do Cavaquinho. Mas a previsão do suicida Mário Venâncio se confirmaria: Graciliano Ramos seria romancista, e dos bons. Porém – acrescente-se −, de um estilo oposto ao do ídolo de Venâncio, o escritor Coelho Neto. À verborragia pomposa e soporífera de Coelho Neto, Graciliano responderia com sua linguagem esquelética e precisa, falando sempre “com as mesmas vinte palavras”, como reza o verso certeiro do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto.

E a cidadezinha de Viçosa, na Zona da Mata alagoana, ficaria retida ainda por um bom tempo na memória graciliânica. Tanto que lhe forneceria o anti-herói Paulo Honório, a doce Madalena e algumas outras figuras humanas que viriam a povoar as páginas de São Bernardo, três décadas mais tarde.

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Wanderley, Sidney. Cidade. Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2014.

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Memórias do Cárcere, cap. 5