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Ramos Literários

Publicado em 25 de março de 2017

Da Gazeta de Alagoas
por Larissa Bastos
foto Felipe Brasil
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DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO. O neto de Graciliano Ramos esteve em Alagoas para participar de um evento em celebração ao Mestre Graça

Escritor, como o avô e o pai, Ricardo Ramos Filho recebeu o Caderno B para uma conversa sobre família e escrita

 

“Nunca vi DNA carregando livro”, diz Ricardo Ramos Filho. Neto de Graciliano e rebento do também escritor Ricardo Ramos, o hoje autor de mais de 20 livros de literatura infantil e juvenil não credita a um fator genético a predileção da família para a literatura. Para o carioca – hoje ele mora na capital paulista –, vem mesmo da convivência com livros e imensas bibliotecas, o gosto pela escrita.

Mas tal afinidade chegou com certo peso. Tanto que, antes de adentrar pelo caminho das letras, ele pegou um dos desvios da vida: foi cursar Matemática na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC. Tudo numa tentativa de escapar à força de ter o avô que teve, uma tentativa de fugir à robustez literária da própria família. Não demoraria muito para que a estrada mostrasse o desengano.

“Naquela época, fiz isso muito com medo da literatura, com medo de escrever e com aquela coisa do jovem, de encontrar um caminho que fosse só meu e ninguém mais tivesse escolhido”, diz. “Estudei, me formei e só mais tarde fui perceber que um pouco do caminho da felicidade estaria em me expressar escrevendo”, completa o neto do sempre eterno Mestre Graça, em entrevista ao Caderno B.

Ricardo esteve em Alagoas para participar da Semana Graciliano, evento dedicado a discutir a vida e a obra de um dos mais importantes escritores brasileiros. Por aqui, ficou dois dos nove dias nos quais a iniciativa se realizou e foi até a cidade de Palmeira dos Índios, terra onde o alagoano foi prefeito, para uma palestra sobre a contribuição do antepassado para a literatura brasileira – a exposição aconteceu também na capital.

Feliz em reapertar os laços, ele comemorou a oportunidade. Lembrou a importância de celebrar o autor. “É muito bom poder colaborar para que mais gente queira ler Graciliano, queira entrar em contato com a obra dele, que é muito rica, poderosa”, aponta ele, ao lado do diretor, roteirista e ator Ney Sant’Anna, filho do cineasta Ney Pereira, famoso por levar títulos como Vidas Secas e Memórias do Cárcere às telonas.

À Gazeta Ricardo Ramos falou sobre relações familiares, sua trajetória como escritor, a influência da família Ramos e, sobretudo, do patriarca dessa árvore ramificada. Dividiu também as conclusões de suas pesquisas – ele cursou mestrado e agora faz doutorado estudando os trabalhos do avô – e deu impressões sobre a arte literária no Brasil de hoje em dia. A entrevista completa você confere a seguir:

Caderno B. Você veio a Alagoas para uma curta participação na Semana Graciliano… Para começar, queria saber como foi vir até aqui e relembrar a vida do seu avô, um dos maiores escritores do País?

Ricardo Ramos Filho. Mais importante até do que falar de Graciliano Ramos, e é sempre muito importante falar sobre Graciliano Ramos, é celebrar os 200 anos de Emancipação Política. É bom que façamos movimentos que melhorem a autoestima. Passamos por momentos no País em que a autoestima está muito lá embaixo com essas crises todas. Nem sempre estamos conseguindo nos orgulhar de ser brasileiro, alagoano, de ter nascido em Palmeira dos Índios. Acho que é preciso ações para recuperar essa autoestima. Sobre Graciliano ser festejado, aproveitarmos ele para fazer uma semana de celebração em Alagoas é muito importante, até porque ele é, com certeza, o escritor mais famoso do Estado, embora Alagoas tenha muitos escritores importantes. Para mim, que sou neto dele, mas também alguém que estuda a obra dele, pois fiz mestrado e estou fazendo doutorado estudando isso, é sempre uma alegria. É muito bom poder colaborar para que mais gente queira ler Graciliano, queira entrar em contato com a obra dele, que é muito rica, poderosa e também capaz de fazer com que algumas pessoas se interessem por literatura, se tornem leitores mais costumeiros.

Você mantém alguma espécie de contato, de laço com o Estado?

Os laços que tenho com Alagoas são de família. Graciliano era alagoano de Quebrangulo, e meu pai [Ricardo Ramos, também escritor] era alagoano de Palmeira dos Índios. A família é muito grande, e Graciliano era o mais velho de uma irmandade de 18 irmãos, então tenho muitos primos alagoanos, sejam de segundo, de terceiro grau. São muitos “ramos”, nos dois sentidos, tanto de ramificação quanto da família Ramos em Alagoas, Palmeira, Maceió. A gente se fala frequentemente, mas não com o contato tão próximo, pois moro em São Paulo e eles aqui. Mas é sempre uma alegria grande quando os encontro.

Você esteve por aqui esses dias e foi apresentada uma peça sobre os momentos importantes da trajetória de Mestre Graça. Conseguiu assistir? Se sim, como foi ver algo que é público, mas também tão pessoal sendo apresentado no palco?

Ainda não consegui assistir. Conheço muito o trabalho do Chico de Assis e do Paulo Poeta e já vi os dois trabalhando os textos de Graciliano, o que fazem com muita competência. São duas pessoas por quem tenho imenso carinho, artistas fabulosos. Essa peça, especificamente, não consegui assistir devido à viagem para São Paulo [ele retornou à capital paulista na madrugada da quarta-feira]. Não tive a oportunidade, mas Paulo Poeta me contou que em breve vai passar essa peça em São Paulo e estou louco para ver, até porque traz a visão de Heloísa Ramos, minha avó. Embora não tenha conhecido Graciliano, já que ele morreu pouco antes de eu nascer, fui um neto com contato muito próximo de Heloísa, a viúva dele. Era uma avó por quem sempre fui apaixonado, uma avó muito querida.

 

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“Apareça o filho da puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo!”

Em bilhete enviado a Chico Cavalcanti, aceitando a candidatura a prefeito de Palmeira dos Índios – AL, 1927 (O Velho Graça, Dênis de Moraes, Boitempo, pg. 61)