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Carta de Graciliano Ramos a Portinari – 18.fev.1946

Publicado em 18 d fevereiro d 1946

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Transcrio:

Rio 18 Fevereiro 1946

Carssimo Portinari:

A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta j no o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roa. No h trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformaes; contudo as deformaes e misria existem fora da arte e so cultivadas pelos que nos censuram.
O que s vezes pergunto a mim mesmo, com angstia, Portinari, isto: se elas desaparecessem, poderamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapaream ou seremos tambm uns exploradores, to perversos como os outros, quando expomos desgraas? Dos quadros que voc mostrou quando almocei no Cosme Velho pela ltima vez, o que mais me comoveu foi aquela me com a criana morta. Sa de sua casa com um pensamento horrvel: numa sociedade sem classes e sem misria seria possvel fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espcie de arte surgiria? Chego a pensar que faramos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza.
Felizmente a dor existir sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimir. E seramos ingratos se desejssemos a supresso dela, no lhe parece? Veja como os nossos ricaos em geral so burros.
Julgo naturalmente que seria bom enforc-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque no nascemos para tal sensaboria. O meu desejo que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto no temos arte.
E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraos para voc e para Maria.
Graciliano

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Queria endurecer o corao, eliminar o passado, fazer com ele o que fao quando emendo um perodo riscar, engrossar os riscos e transform-los em borres, suprimir todas as letras, no deixar vestgio de idias obliteradas.

Memrias do Crcere, cap. 5