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 Graciliano Ramos
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Artigos

Temposfuturos Vidas secas, de Graciliano Ramos

Publicado em 01 d setembro d 2012

Da revista Revista Estudos Avanados – Scielo
Por ZENIR CAMPOS REIS
Link original.


RESUMO

Vidas secas (1938) o ltimo romance de Graciliano Ramos, escrito depois da experincia do autor nos crceres do Estado Novo, experincia por ele mesmo julgada essencial para a elaborao do livro. O artigo comea pela discusso acerca do sentido das exigncias ticas e estticas do romancista. Procura descrever a organizao do romance a partir da combinao de contos, originalmente autnomos. Examina em seguida o episdio “Baleia”, onde se discute o problema da domesticao e da educao. Termina com a anlise da tenso entre a fala da utopia e o realismo crtico.

Palavras-chave: Literatura e experincia, tica e esttica, Conto e romance, Domesticao e educao, Utopia e realismo crtico.


ABSTRACT

Vidas secas (1938) is Graciliano Ramos`s last novel which was written after the author`s experiences in the prisions of the Estado Novo. This experience was judged essential to the organization of the book by the author himself. The article begins with a discussion of the sense of ethical and aesthetic exigencies of the novelist. It endeavours to describe the organization of the novel, beginning with the combination of short stories which were originally autonomous works. Then it examines the episode “Baleia”, where the problems of domestication and rearing are discussed. It finishes with the analysis of the tension between the talk of Utopia and critical realism.

Keywords: Literature and experience, Ethica and aesthetic, Novel, Domestication and rearing, Utopia and critical realism.


La ralit sans possibilit relle n’est pas complte“.
(Ernest Bloch, Le principe esprance)

Preliminares

Certo crtico, anos atrs, me insinuara utilizar num romance os camponeses do Nordeste. Apesar de sertanejo, achava-me incapaz de fazer isso, e antes de viver com esses homens na cadeia, dormindo nas esteiras podres e dividindo fraternalmente os percevejos, no me arriscara a aceitar o conselho. (Ramos, 1955, p.128)

Esta breve referncia gnese de Vidas secas adverte o leitor a respeito das exigncias a um tempo ticas e estticas da escrita de Graciliano Ramos. Quando ele diz campons ou sertanejo devemos entender os termos no em sentido genrico, mas no sentido preciso de campons ou sertanejo pobre.

Sertanejos e camponeses no faltam em S. Bernardo ou em Angstia: Casimiro, Marciano, Jos Baa, entre outros, figuram nesses livros, no entanto, isolados e em posio lateral. Vidas secas, de fato, ser seu nico romance em que toda uma famlia de sertanejos, sertanejos pobres, ocupar o centro da narrativa.1

Vistos pelo ngulo puramente tico, seus escrpulos so semelhantes aos de muitos intelectuais, especialmente os de esquerda: geralmente de origem burguesa ou pequeno-burguesa, a adeso causa proletria precede a experincia histrica. Mesmo os de origem “popular” manifestam muitas vezes o receio de falsear a experincia de origem, de trair involuntariamente a prpria memria, individual ou de grupo.

Apanho, entre tantos possveis, dois exemplos. O primeiro, contemporneo, de Vasco Pratolini, escritor florentino de origem proletria que, num de seus contos, coloca na boca do narrador, espcie de porta-voz de suas prprias ideias:

Se eu atraioasse a vossa recordao no jogo de espelhos da memria, amigos, seria como se, esta noite, deitasse veneno no prato do meu pai. preciso que transcreva as vossas palavras antes que dentro dos meus ouvidos as vozes se calem no sono. A caneta o meu instrumento de trabalho, como o martelo pneumtico para o homenzinho, que era mineiro, como a colher de trabalho para o parmense, que era pedreiro. A literatura o meu po, como o passeio para a rapariga prostituta, o contrabando para os seus trs amigos do mercado negro. (Pratolini, s. d., p.101)

Jules Michelet (1798-1874), historiador de origem humilde seu pai era trabalhador grfico , dirige a Edgard Quinet uma carta-dedicatria que serve de prefcio a Le peuple (1846).

Narrando a prpria infncia, revela como escapou ao destino mais comum das crianas de sua origem o trabalho precoce e como os privilgios de que desfrutava lhe eram penosos. Durante o inverno, a 12 de fevereiro de 1845, reflete: “Sentes calor; os outros, frio… isso no justo… Oh! quem me consolar da dura desigualdade?”. Conclui, dizendo consigo mesmo: “Se trabalhasses com o povo, no trabalharias para ele… Vai, pois, se ds ptria a sua histria, eu te absolverei de seres feliz” (Michelet, 1965, p.68).2 Mais adiante: “As provaes da infncia esto sempre presentes no meu esprito: conservei a impresso do trabalho, da vida spera e laboriosa, continuei povo” (p.70).

“Quase sempre, os que sobem, perdem com isso, porque se transformam: tornam-se mistos, bastardos: perdem a originalidade de sua classe, sem ganhar a de uma outra. O difcil no subir, mas, subindo, continuar o mesmo” (p.70). tambm do mesmo prefcio a observao: “O homem constri sua alma sobre a prpria situao material: coisa estranha! h alma de pobre, alma de rico, alma de mercador… Parece que o homem no passa de acessrio da fortuna” (p.183). Os autores de A ideologia alem poderiam subscrever a frase.

Finalmente, esse questionamento da condio adquirida e do direito de exercer a atividade de professor e de escritor resolve-se na observao justa, assim formulada: “Falo, porque ningum falaria em meu lugar” (p.72).3

Alm de, a seu modo, manifestar preocupao semelhante, Graciliano Ramos tem exigncias bem claras quanto sua atividade especfica, isto , quanto esttica do romance. Em fevereiro de 1935, comenta a declarao de Jorge Amado, segundo a qual “o romance vai suprimir o personagem, matar o indivduo. O que interessa o grupo uma cidade inteira, um colgio, uma fbrica, um engenho de acar”. A essa concepo, contrape: “Se isso fosse verdade, os romancistas ficariam em grande atrapalhao. Toda a anlise introspectiva desapareceria. A obra ganharia em superfcie, perderia em profundidade” (Ramos, 1967, p.96).

Habilmente, mostra que, apesar da teoria proclamada, crtica ingnua a uma concepo de histria como fruto da ao do heri individual, os melhores momentos de Suor so justamente aqueles em que o escritor desmente na prtica o prprio programa.

Dois anos e meio depois, julho de 1937, comentando Poro, de Newton Freitas, reportagem a respeito da experincia carcerria na Colnia Correcional de Dois Rios, observa: “O autor s nos mostra a parte externa dos indivduos. As suas personagens andam bem, falam, mexem-se. Notamos os seus movimentos e vemos onde elas pisam, mas no percebemos o interior delas. Esto atordoadas, evidentemente, no podem pensar direito, mas teria sido bom que os acontecimentos se apresentassem refletidos naqueles espritos torturados”. Depois de assinalar que a narrao se limita a uma “viso puramente objetiva”, pondera: “Talvez isto se explique por ele ter querido ser honesto demais. Como as suas personagens so reais, possvel que tenha receado enganar-se olhando-as por dentro” (Ramos, 1967, p.100-1).

Numa entrevista de 1944, declara:

Acho que no o tema que tem a maior importncia. A misria, por exemplo, pode no dar a quem a trata a mesma impresso que naquele que a sofre […]. Objetivamente ela pode ter sido [tratada]. O objeto, a coisa, no est ali dentro do livro? Justamente o que desafinou foi a parte subjetiva. E sem ela no pode haver obra nenhuma, porque qualquer um s pode escrever o que sente e no o que os outros esto sentindo ou poderiam sentir.4

Finalmente, numa carta de l set. 1946, a Haroldo Bruno, explicita o vnculo entre tcnica literria e inteno poltica:

no comeo apenas desejei mostrar uma cidadezinha do interior fuxicos, preguia, conversas porta da farmcia. At [que] por volta de 1930 surgiram ataques novela de costumes, ao estudo social, ao documento e elogios imoderados ao romance introspectivo. Sem dvida pretendiam anular o fator econmico e em conseqncia apresentaram-nos fantasmas. Ora, essas divagaes arbitrrias no me despertavam interesse. Achei que s realizaramos introspeco direita examinando a coisa externa, pois o mundo subjetivo no elimina o objetivo: baseia-se nele. Quem fugia observao tinha evidentemente um fim poltico, mas as mofinas contra as reportagens eram de fato razoveis. Conseguiramos, evitando a parolagem chinfrim dos comcios, ferir os nossos inimigos com as suas prprias armas. Usaramos at a linguagem correta, instrumento que eles de ordinrio no utilizam. A sintaxe tambm uma arma, no lhe parece? meio de opresso. Assim pensando, fiz os meus ltimos livros. (apud Bruno, 1957, p.97-9, nota)

Viver com

A priso foi uma experincia fundamental na vida adulta de Graciliano Ramos. Ao lado de Infncia, pode-se dizer que Memrias do crcere, narrativa de dez meses de cadeia, fornece, mais que uma autobiografia, mais que um documento histrico, uma chave de compreenso da produo literria daquele escritor.5

Escrito lentamente as primeiras notas abandonadas so de 1937 at o final da vida, em 1953, o livro mistura a narrativa do quotidiano imediato da priso com reflexes retrospectivas sobre sua atividade literria. So particularmente ricas as observaes a propsito das fontes biogrficas de Angstia.

preciso tentar esclarecer por meio de que mediaes atuou aquela vivncia, que ele afirma decisiva para a empresa de falar do sertanejo pobre, em Vidas secas.6

Numa crnica de 1937, recorda a “lio de coisas” que a polcia poltica involuntariamente ofereceu aos intelectuais, em 1936:

Mostraram sem nenhuma cerimnia: o tratamento que dispensam aos malandros e aos vagabundos foi apresentado sem disfarce aos intelectuais, que durante um ano se confundiram com vagabundos e malandros, numa promiscuidade nunca vista por essas bandas.

Foi excelente, e todos devem estar satisfeitos. Sem essa aproximao, no conheceramos nunca a verdadeira desgraa.

Andamos muito tempo fora da realidade, copiando coisas de outras terras. Felizmente nestes ltimos anos comeamos a abrir os olhos, mas certos aspectos da vida ficariam ignorados se a polcia no nos oferecesse inesperadamente o material mais precioso que poderamos ambicionar. (Ramos, 1967, p.100)

Mas no foi s matria-prima o que a experincia do crcere forneceu a nosso romancista: ajudou a retificar, confirmando e tornando concretas, isto , experimentadas na pele, concepes at ento abstratas.

Alm dos “vagabundos e malandros”, os intelectuais puderam conhecer tambm trabalhadores que eram militantes polticos e conviver com eles. O estivador Desidrio, “mulato rspido, estrbico, bilioso” incomoda por seus modos sumrios: “exibiu sem disfarce dio seguro aos burgueses, grados e midos. Todos ns que usvamos gravata, fssemos embora uns pobres diabos, ramos para ele inimigos”. Mais chocante, no entanto, ser a franqueza rude com que ele aprecia uma proposta infeliz apresentada por Graciliano numa reunio do Coletivo que se organizara no Pavilho dos Primrios: “Besteira”. A clera e o espanto do escritor cedem reflexo, a teoria encontrava pela primeira vez um apoio na realidade palpvel, audvel, visvel, na realidade prtica: a ideia, diz ele, se materializava. A citao, embora longa, justifica-se pela riqueza de matizes, que se perderia em resumo:

As duas proposies finais obtiveram recusa unnime. Essa deplorvel estria varreu-me certas nuvens importunas: sempre me excedera em afirmaes categricas, mais ou menos vs; achava agora uma base para elas. Evidentemente as pessoas no diferiam por se arrumarem numa ou noutra classe; a posio que lhes dava aparncia de inferioridade ou superioridade. Evidentemente. Mas evidentemente por que? A observao me dizia o contrrio. Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos, famintos, humildes, quase bichos, era arrastado involuntariamente a supor uma diversidade essencial entre eles e os patres. O fato material se opunha idia e isto me descontentava. Uma exceo rara, aqui, ali, quebrava a monotonia desgraada: o enxadeiro largava o eito, arranjava emprstimo, economizava indecente, curtia fome, embrenhava-se em furtos legais, chegava a proprietrio e adquiria o pensamento e os modos do explorador; a miservel trouxa humana, batida a faco e a vergalho de boi, resistente ao governo, seca, ao vilipndio, resolvia tomar vergonha, amarrar a cartucheira cinta, sair roubando, incendiando, matando como besta-fera. Essas discrepncias facilmente se diluam no marasmo: era como se os dois ladres, o aceito e o rprobo, houvessem trazido ao mundo a condio inelutvel: pequenas salincias no povo imvel, taciturno, resignado. Naquele instante a aspereza do estivador me confirmava o juzo. L fora sem dificuldade me reconheceria num degrau acima dele; sentado na cama estreita, rabiscando a lpis um pedao de papel, cochichando normas, reduzia-me, despojava-me das vantagens, acidentais e externas. De nada me serviam molambos de conhecimentos apanhados nos livros, talvez at isso me impossibilitasse reparar na coisa prxima, visvel e palpvel. A voz acre me ofendera os ouvidos, arrancara-me exclamaes de espanto, abafadas nas preocupaes do Coletivo: ningum ali estava disposto a lisonjear-me. Aceitei o revs como quem bebe um remdio amargo. Afinal a minha opinio se confirmava. (Ramos, 1953-1954, v.II, cap.8, p. 62, 66-7)

uma lio de humildade, inesquecvel, que impe uma exigncia ao escritor e, por ricochete, aos seus leitores de ento e de hoje: preciso abrir os olhos, desconfiar das aparncias; mas preciso tambm perceber o que as aparncias podem revelar, contra as ideias recebidas e contra os “molambos de conhecimentos apanhados nos livros”. Saber distinguir, em suma, o que essencial e interno, daquilo que acidental e externo. A frmula simples, mas nada mais difcil na prtica. O zelo de distinguir, em Graciliano Ramos, tem carter sobretudo poltico e ideolgico. Com outra nfase, filosfica ou metafsica, Riobaldo expe perplexidades semelhantes:

Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careo de que o bom seja bom e o rim rum, que dum lado esteja o prto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero todos os pastos demarcados… Como que posso com ste mundo? A vida ingrata no macio de si: mas transtraz a esperana mesmo do meio do fel do desespro. Ao que, ste mundo muito misturado.

Ou, mais adiante: “A fantasia, minha agora, nesta conversa o senhor me atalhe. Se no, o senhor me diga: prto prto? branco branco? Ou: quando que a velhice comea, surgindo de dentro da mocidade” (Rosa, 1967, p.169 e 188).7

No nos enganemos, porm: o convvio, com tudo que ele implica, a partilha do po, da esteira de dormir, do sofrimento comum, do destino comum, fabrica companheiros, camaradas, mas no dissolve as diferenas. Graciliano estava bem ciente: por isso Vidas secas narrado em terceira pessoa.

Do conto ao romance

Quando escreveu o conto “Baleia”, Graciliano Ramos apontou, numa carta sua mulher, D. Helosa Ramos, dificuldades que enfrentou na tarefa e explicitou algumas intenes:

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troo difcil como voc v: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Ser que h mesmo alma em cachorro? No me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de pres. Exatamente o que todos ns desejamos. A diferena que eu quero que eles apaream antes do sono, e padre Z Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos pres. a quarta histria feita aqui na penso. Nenhuma delas tem movimento, h indivduos parados. Tento saber o que eles tm por dentro. Quando se trata de bpedes, nem por isso, embora certos bpedes sejam ocos; mas estudar o interior duma cachorra realmente uma dificuldade quase to grande como sondar o esprito dum literato alagoano. Referindo-me a animais de dois ps, jogo com as mos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora diferente. O mundo exterior revela-se a minha Baleia por intermdio do olfato, e eu sou um bicho de pssimo faro. (Ramos, 1980, p.194-5)

provvel que o autor do conto no alcanasse com preciso, naquela altura, o modo como seriam armados seus antecedentes, no futuro romance, e quais os desdobramentos e implicaes contidos no primeiro ncleo dramtico. Do mesmo modo ns, leitores lineares de Vidas secas, no sabemos desde o primeiro captulo que a cachorra, ali presente, “aquela que deve morrer” no nono conto-captulo do livro.

O romance foi composto e publicado parceladamente, assim como, sabemos hoje, tudo quanto Graciliano Ramos produziu, depois de 1937. Os volumes que se chamariam Vidas secas (1938), A terra dos meninos pelados (1940), Histrias de Alexandre (1944), Infncia (1945), Insnia (1947), Memrias do crcere (1953), chegaram ao pblico medida que foram redigidas, sob forma de narrativas autnomas, por via de jornal ou revista (cf. Lima; Reis, 1992).

No se deve concluir, no entanto, que a obra um aglomerado arbitrrio de contos. Pode perceber-se um arranjo intencional e at simtrico dos captulos: em nmero de treze, os das extremidades narram duas secas; o stimo, em posio central, no por acaso, chama-se “Inverno”. H mesmo quem sustente que a simetria completa; o romance giraria em torno de um eixo, em que, dois a dois, equidistantes, os captulos conservariam uma afinidade temtica; se quisermos imaginar em vez de eixo, um centro, teramos sete crculos concntricos.8

A economia e articulao, porm, no exige, nem de fato apresenta, simetria to perfeita. Tendo a crer que “Inverno” e “Festa”, stimo e oitavo captulos, no miolo da obra, encerram os momentos de menor tenso dramtica da narrativa. Podemos ento agrupar os demais captulos por afinidade temtica e em relativa simetria: “Mudana”, o primeiro captulo, articula-se com “Fuga”, o ltimo; “Fabiano”, o segundo, com “O mundo coberto de penas”, penltimo; “Cadeia”, o terceiro com o antepenltimo, “O soldado amarelo”; o quarto, “Sinha Vitria”, liga-se a “Contas”, dcimo, e, por fim, os captulos “O menino mais novo” e “O menino mais velho”, quinto e sexto articulam-se com “Baleia”, o nono.

Coisas de no

A partir de uma situao de carncia extrema, o romance movimenta uma famlia sertaneja, tangida pela seca Fabiano, sinha Vitria,9 o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia. Famintos e sedentos, transportam exguos pertences, em “Mudana”; acompanha-se as vicissitudes desse grupo de viventes durante um instvel perodo sedentrio, at novo xodo, em “Fuga”.

Em carta a Joo Cond, junho de 1944, declara:

Fiz o livrinho sem paisagens, sem dilogos. E sem amor. Nisso, pelo menos, ele teve alguma originalidade. Ausncia de tabarus bem falantes, queimadas, cheias e poentes vermelhos, namoros de caboclos. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estmago, no tm tempo de abraar-se. At a cachorra uma criatura decente, porque na vizinhana no existem gals caninos. (apud Ramos, 1987, p.129)

Aparentemente modesto, limita-se a reivindicar para seu “livrinho” “alguma originalidade”. A insistncia nas negativas, manifesta nas palavras “sem” (trs vezes repetida), “ausncia”, “no” (repetida duas vezes), oculta trs polmicas: contra certa tradio de retrica inflada na literatura brasileira, contra aquele regionalismo de exterioridade, de paisagem, e contra a maneira convencional de expor a voz das camadas populares, simptica mas estereotipada. Exibe-se a um exerccio atento de leitura, que resulta em excluso e escolha; a nfase nas negaes encobre, no entanto, a busca positiva de outra tradio narrativa, mais sbria e enxuta.

A retrica est a servio da inteno expressiva: o romance trabalhar o tecido das necessidades e das carncias. “As pessoas adultas, preocupadas com o estmago, no tm tempo de abraar-se”. A hierarquia entre “fome” e “amor” “estmago” e “abrao”, na frase de Graciliano Ramos , bem possivelmente, oculta outra polmica, de modo que convm retomar adiante essa dicotomia.

Os simples

O episdio de Baleia inscreve-se nessa mesma lgica de trabalhar com os mnimos e os nfimos, “coisas de no: / fome, sede, privao”; “coisas de no, / ocas, leves” (Melo Neto, 1975, p.210-11). A escolha da personagem, um animal, uma cachorra, e da situao dramtica, a morte, tangencia os extremos limites da simplicidade e da aniquilao. Michelet (1965, p.199) sugere, em Le peuple, uma espcie de hierarquia dos simples: abaixo das camadas populares, viriam as crianas e, por fim, os animais:

Por mais apressado que esteja, neste exame dos simples, dos humildes filhos do instinto, o corao me detm e me obriga a dizer uma palavra a respeito dos simples por excelncia, dos mais inocentes, dos mais infelizes talvez, quero dizer, dos animais.

As primeiras trs pginas do captulo narram a recente doena da cadela, aparentemente hidrfoba e as tentativas de cura (Fabiano “amarrara-lhe no pescoo um rosrio de sabugos de milho queimados” (p.103)10); lembram-lhe o comportamento solidrio, quase humano; relatam a difcil deciso de Fabiano de sacrificar o animal doente, e a resistncia que todos tentam opor a ela.

O caso que, no grupo dos “simples” que se move em Vidas secas, no to marcada a distino, a hierarquia entre seus membros, sobretudo entre a cadela e as crianas: “Ela [Baleia] era como uma pessoa da famlia: brincavam juntos os trs, para bem dizer no se diferenavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaava cobrir o chiqueiro das cabras” (Ramos, 1953a, p.103-4).11 Como as crianas, ela recebe as descargas do mau humor de Fabiano e de Sinha Vitria, em forma de pontaps (p.48, 70, 71). A narrativa da execuo sbria e comovente:

Ao chegar s catingueiras, [Fabiano] modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcanou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se ps a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitria pegou-se Virgem Maria e os meninos rolaram na cama chorando alto. Fabiano recolheu-se. (p.105)

As quatro pginas finais narram a agonia e a morte de Baleia. possvel distinguir com bastante clareza trs camadas de linguagem: a primeira a que registra a “viso puramente objetiva” os movimentos da cachorra, vistos externamente; a segunda, a dos acontecimentos “refletidos naquele esprito torturado”; a terceira, a que exprime o ponto de vista, acompanha com distncia crtica aquele reflexo interno. um procedimento que, guardadas as diferenas, o narrador conserva no romance inteiro, para todas as demais personagens.

Vejamos mais de perto como opera essa tcnica: os seis primeiros pargrafos dessa segunda parte narram a progressiva perda dos movimentos, at a imobilidade completa do animal, cosido terra: de humus deriva o adjetivo humilis, humilde. Ao mesmo tempo, ficamos conhecendo o medo, a lembrana de prazeres passados, que passam pelo esprito de Baleia, lembrana que parece inoportuna, inadequada, por misturar-se sem contraste com a desgraa presente. A justaposio daquela lembrana e essa realidade, contudo, a marca, discreta e implcita, da distncia do narrador. Essa distncia pode alargar-se e explicitar-se:

Uma sede horrvel queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e no as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a viso. Ps-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente no latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptveis. (p.105-6)

A frase inicial, referindo sede e garganta queimando, parece um registro objetivo e at banal, mas no : o narrador no fala de sinais externos e perceptveis, mas de sensaes internas do animal. A segunda, adivinha a inteno da cachorra, “procurou ver as pernas”; depois, registra-lhe a percepo bloqueada, “no as distinguiu”; por fim, chega aos limites da conscincia canina, atribuindo, solidrio com ela, a viso embaada a um nevoeiro. Observe-se que o narrador se vale de uma metfora corrente para designar a vista turva. Aqui, no entanto, preciso admitir uma tenso entre o sentido literal e o metafrico: conscincia animal no metafrica, que resulta em metfora, quando transposta em linguagem humana. Baleia no hesita: o nevoeiro e, depois, a noite, esto fora dela.

“Ps-se a latir e desejou morder Fabiano”: os dois membros desse perodo coordenado expressam a subjetividade de Baleia, apesar da aparncia de registro objetivo do primeiro. Isso se esclarece na frase seguinte, onde a posio distanciada do narrador marca-se, com nitidez, no advrbio “realmente”: entre a percepo ou o desejo subjetivos de Baleia, de “latir”, e a realidade, “uivava baixinho”, percebida pela conscincia externa, do narrador, cava-se um intervalo. “Uivava baixinho” o nico registro de atitude exteriorizada, nesse trecho.

A narrativa acompanha o sucessivo desaparecimento da vista, do olfato, do paladar, da audio e do tato de Baleia, nessa ordem. Ela conserva, no entanto, at o fim, fiapos de “memria”: medo, impossibilidade de revolta, peso dos deveres aprendidos, compensaes do convvio humano.

No ltimo pargrafo, depois dessa perda dos sentidos, acompanhamos o mergulho do bichinho no sono da morte, precedido de um devaneio esperanoso: mais uma vez, se marca o contraste entre fantasia subjetiva e realidade, registrada pelo narrador.

Ter ficado claro, espero, que o ponto de vista equilibra-se tenso entre identificao e distanciamento. O distanciamento, no entanto, no suprime a afetividade (Bosi, 1988).12 Nesse captulo, alis, ela se manifesta com discrio, e delicadeza quase franciscana: refiro-me aos diminutivos aplicados cachorra que, distribudos ao longo do captulo, poderiam tornar-se quase invisveis: “coitadinha” (p.104), “criaturinha” e “cabecinha” (p.109).

Entre lobo e co

Baleia um animal de companhia e de trabalho. No incio do primeiro captulo do livro, vmo-la ao lado do menino mais velho, proximidade voluntria, que antecipa a preferncia e a afinidade mais tarde confirmadas. assim que, quando Fabiano passa a carregar o menino desmaiado: “Ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo. Arqueada, as costelas mostra, corria ofegando, a lngua fora da boca. E de quando em quando se detinha, esperando as pessoas, que se retardavam” (p.11).

Em “O menino mais velho”, este, castigado por sinha Vitria, vai sentar-se longe de casa, acompanhado de Baleia: “Todos o abandonavam, a cadelinha era o nico vivente que lhe mostrava simpatia” (p.69). A palavra “simpatia” carrega aqui seu sentido etimolgico mais forte, de sentir ou sofrer junto, o que uma forma particular, afetiva, do sentimento de solidariedade.

A solidariedade talvez seja o valor essencial dessa comunidade de viventes, consciente ou no. Por solidariedade, Baleia deixa de devorar sozinha o pre que havia caado, repartindo-o com os retirantes (p.14); o mesmo sentimento que impede Fabiano de entrar no cangao, sada individual, revolta sem consequncias. “Cadeia” termina com a conquista ainda nebulosa da conscincia de Fabiano: poderia entrar num bando de cangaceiros e matar, no o soldado amarelo, um infeliz, pau mandado, mas os “donos dele”: “Mas havia a mulher, havia os meninos, havia a cachorrinha” (p.43).

Acima do desejo de vingana, vem a solidariedade que abraa famlia e cachorrinha. uma limitao, mas tambm instintiva sabedoria de perceber que no pode haver sada individual contra a opresso. Vista de outro ngulo, a solidariedade confina com a simbiose. O menino mais velho tem um lampejo de percepo disso, quando recenseia seu conhecimento do mundo:

Alm havia uma serra distante e azulada, um monte que a cachorra visitava, caando pres, veredas quase imperceptveis na catinga, moitas e capes de mato, impenetrveis bancos de macambira e a fervilhava uma populao de pedras vivas e plantas que procediam como gente. Esses mundos viviam em paz, s vezes desapareciam as fronteiras, habitantes dos dois lados entendiam-se perfeitamente e auxiliavam-se. (p.69-70)

Vida e solidariedade: simbiose. Importante notar que, desde o ttulo, temos a palavra “vida”, significativamente no plural. O adjetivo “secas” torna esse um dos ttulos mais prolixos de Graciliano Ramos: vidas, no entanto secas; secas, no entanto vidas.13 Os trs mundos, mineral, vegetal e animal, compem um conjunto nico, solidrio ecmeno, casa (oiks) que de todos. De todos os “viventes”, outra palavra reveladora: a forma participial, verbal ou deverbal do substantivo, veicula um componente dinmico: viver , antes de tudo, atividade, trabalho.

Ficou dito que Baleia tambm um animal de trabalho: ela que conduz as cabras ao bebedouro; preocupa-se com os animais soltos na noite particular de sua agonia, povoada de suuaranas (p.108); foi amestrada para farejar a criao que se extravia, ao comando do vaqueiro Fabiano:

[Fabiano] Bateu palmas:

Ec! ec!

A cachorra Baleia saiu correndo entre os alastrados e quips, farejando a novilha raposa. Depois de alguns minutos voltou desanimada, triste, o rabo murcho. Fabiano consolou-a, afagou-a. Queria apenas dar um ensinamento aos meninos. Era bom eles saberem que deviam proceder assim. (p.24-5)

Homem e bicho confinam: a comunicao entre Fabiano e Baleia estabelece-se mediante palmas e aboio, vocalizao que no chega a ser linguagem plenamente articulada. Essa voz, no entanto, eficiente como instrumento de trabalho: vale como linguagem. A limitao cultural e lingustica do vaqueiro d a medida do que se requer dele: trabalho mecnico e submisso. Nessa passagem e ao longo do captulo inteiro, ressurge um complexo problema recorrente em toda a obra de Graciliano Ramos: o da educao. Com frequncia, cruzam-se, em sua obra, as ideias de educao e domesticao. Sejam trs exemplos. O primeiro, de Caets, uma fala de Miranda Nazar a Evaristo Barroca:

[…] Quando o nosso matuto tem um filho opilado ou raqutico, manda domestic-lo a palmatria e a murro. O animal aprende cartilha e fica sendo consultor l no stio, torna-se mandrio, fala difcil, l o Lunrio Perptuo e o Carlos Magno, noite, na esteira, para a famlia reunida em torno da candeia. Qual o resultado? A primeira garatuja que o malandro tenta uma carta falsa em nome do pai, pedindo dinheiro ao proprietrio. (Ramos, 1953, p.90-1)

A afirmao no parece metafrica: Miranda pretende, ao contrrio, designar as coisas pelo nome correto. Na opinio dele, erraria quem acreditasse que a escola, naquelas condies, fornecesse mais que adestramento. No captulo 9, do primeiro volume de Memrias do crcere, topamos uma variante: “[…] as populaes da roa distanciavam-se enormemente do litoral e animalizavam-se na obedincia ao coronel e a seu vigrio, as duas autoridades incontrastveis” (Ramos, 1953a, v.I, p.71).

“Animalizavam-se na obedincia” diz a mesma coisa, com outra formulao. Terceiro exemplo, explcito, pode encontrar-se numa crnica, “Habitao”, publicada na revista Cultura poltica, em agosto de 1941, posteriormente reproduzida em Viventes das Alagoas: “Uma habitao horrvel, como vem. Contudo viveu ali, sem se queixar, uma famlia decente, religiosa e pastoril, domesticada no regime patriarcal” (Ramos, s. d., p.45).

A escolha desses termos no deve ser encarada como casual: expressam ponto de vista sedimentado acerca do problema. A educao popular, sustenta com razo, no se prope a favorecer o desenvolvimento intelectual das pessoas, mas a inculcar novos hbitos, com vistas apenas a desenvolver aptido para os servios requeridos delas.14 Exatamente como na domesticao, uma vez conseguidos esses efeitos mnimos, at mediante castigo, se se julgar necessrio, o processo intencionalmente interrompido. A influncia da domesticao no psiquismo do animal, explica um estudioso, compreende duas fases:

Durante a primeira [fase], o Homem coloca os animais nas novas condies e solicita deles, conscientemente ou no, reaes inteligentes, diversas das reaes instintivas. Depois, tendo escolhido as que lhe so teis, fixa-as graas ao treinamento, eliminando assim a inteligncia que se tornou intil e at mesmo nociva, em razo dos gestos parasitrios que ela determina. (Dechambre, 1971, p.80)

Aplicada, no romance, para definir a condio do vaqueiro, “bruto” outra palavra que expressa bem essa fuso homem-bicho. Sua “brutalidade” (p.41) interessa a seus patres, pois uma verdadeira educao seria, no limite, libertadora. Os exemplos ao alcance de Fabiano, no entanto, no lhe permitem avaliao clara: intui o poder da instruo, quando pensa no saber livresco de seu Toms da bolandeira. Mas esse fornece tambm o contra-argumento, uma vez que, diante da desgraa da seca, resta indefeso. Percebe, ao mesmo tempo, que, mesmo com menos cincia, tem mais poder o patro, proprietrio da terra, do gado, dos instrumentos de trabalho. No importa que esteja correta a aritmtica de sinha Vitria, no momento do acerto de contas: ao dono da terra pertence arbitrar sobre o certo e o errado. Ao vaqueiro resta o recurso de tirar fora da fraqueza, declarando-a abertamente, como faz diante do patro (“Era bruto, no fora ensinado”, p.114), ou diante do fiscal da prefeitura, que lhe quer cobrar imposto pela venda de carne de porco (“no compreendia nada, era bruto”, p.116). Pascal afirma que “todas as fraquezas muito aparentes so foras” (Pascal, Penses, f.578, apud Janklvitch, 1987, p.87). O contrrio tambm pode ser verdade: no desfecho do episdio do soldado amarelo, a atitude de suposta subservincia a mais sbia: chama-se conteno. A fora de Fabiano consiste em dominar o primeiro impulso, instintivo e apaixonado, que incitava a uma vingana de curto alcance. Trata-se de resposta de homem consciente e no de animal domesticado. Nunca simples definir a fronteira entre fraqueza e fora. “Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! No se inutilizava, no valia a pena inutilizar-se. Guardava a sua fora.” (p.129).

A interao homem-animal ou mais amplamente homem-natureza pode ser significativa, uma vez que se entrelaa com as relaes que os homens mantm entre si.15 Assim, quando se examina o lugar que Baleia ocupa na famlia de Fabiano, pode-se compreender a contraditria condio do homem pobre, naquele contexto. Com efeito, ele vive constrangido pela natureza e pela sociedade, mas, nos limites acanhados a que a necessidade o encantoa, pelo menos no seu espao domstico, procura construir seu ideal de convivncia. Difcil, para ele, discernir, no patrimnio da tradio, o que pode ou deve ser conservado. Mas no se trata de um problema terico, abstrato. “A fome tambm professora”, diz Carolina Maria de Jesus.

Naquele universo j criado, no princpio era a vida, isto , os viventes. por isso, talvez, que parecem to terrveis os sacrifcios, primeiro, o do papagaio,16 depois o de Baleia. Em contrapartida, esclarecedor o modo como ela desempenha os papis de animal de companhia e de trabalho: a sua escola de solidariedade e de cooperao, essenciais na conservao da vida.

certo que, naquelas condies e ainda nas atuais, “O trabalho a melhor e a pior das coisas” conforme escreve Alain (1949, p.146), “a melhor, se livre; a pior, se servil”. Mas lcito esperar que, num mundo futuro, construdo pelo trabalhador para todos os homens, o trabalho possa livrar-se dessa marca de servido.

A Baleia cabe, entre outras tarefas, conduzir as cabras ao bebedouro e vigi-las para que no se desgarrem, expondo-se s suuaranas, como ficou dito. Edmond Dechambre (1971, p.45) explica que o “sentimento da relao entre os seres e as coisas […] est na origem da noo de propriedade”. Esse seria, segundo ele, o ponto de partida para desenvolver-se no co uma de suas mais antigas funes, a de sentinela. Baleia zela pela vida dos animais de criao e pela vida das crianas. Diferente dela Tubaro, guarda da propriedade de Paulo Honrio, em S. Bernardo. Compatvel com seu papel de capanga o nome ameaador que o dono lhe atribui (Ramos, 1953c, p.35). Recorde-se um poema, “Na tenda do operrio”, do hoje desconhecido Mariano de Oliveira, assim resumido por Machado de Assis (1986, p.827):

O poeta ia passando e viu aberta uma porta, uma casa de operrio; era de noite,

A noite, a sombra funda, o ermo grande e mudo;

Tudo dentro era negro e negro em torno tudo;

pareceu-lhe que l dentro da casa houvera algum atentado, e ento sentou-se porta, espera que voltasse o dono. O dono volta; um operrio, o poeta adverte-o do descuido que cometera: ao que o operrio responde que ningum lhe iria roubar o que no tem. O poeta despede-se, segue, pra a distncia, e parece-lhe ento que efetivamente se detivera sem necessidade, porque ali velava uma sentinela firme:

O anjo da misria a vigiar a porta.

 

De te fabula narratur

Em confronto com a sociedade mais ampla, para compreender a prpria condio, Fabiano compara-se a um cachorro: “Era um desgraado, era como um cachorro, s recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos?” (p.177).

A rigor uma situao inferior do co. Pierre-Pascal Furth (1976, p.94), num ensaio sobre Jack London, informa que, no ingls norte-americano, “underdog designa o proletrio e o homem explorado”. Estamos bem distantes do ambiente solidrio da famlia. Na sociedade inclusiva vigora a regra da explorao, que reduz o trabalhador ao animal amestrado (“gorila domesticado”, conforme queria Taylor (Gramsci, 1978, p.375-413)). Essa reduo se traduz seja pela sntese metafrica da lngua inglesa, o “sub-co”, seja pela comparao e seu desenvolvimento, sugeridos pelo vaqueiro. O co fornece o espelho em que o trabalhador enxerga o prprio rosto.

Tambm por isso o sacrifcio de Baleia desnorteia a famlia, mais que o do papagaio. Sinha Vitria admite que “a deciso de Fabiano era necessria e justa”. Num momento de raiva, chega a injuriar mentalmente a cachorra: “Bicho nojento, babo” e considera “Inconvenincia deixar cachorro doido solto em casa” (p.104). Mas logo pressente a extraordinria responsabilidade daquela deciso e se questiona: “achava difcil Baleia endoidecer”, ao mesmo tempo que “lamentava que o marido no houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execuo era indispensvel” (p.104-5). A morte, de fato, irrevogvel e nenhuma certeza parece suficientemente slida para justific-la, muito menos uma presuno, ainda que bem fundada. A sombra dessa execuo vai acompanhar todos os passos da famlia.

O julgamento capital, escreve Albert Camus, rompe a nica solidariedade humana indiscutvel, a solidariedade contra a morte, e s pode ser legitimado por uma verdade ou um princpio que se coloque acima dos homens. (Camus, 1957, p.169)

As pessoas visadas pelas imagens animalescas so excludas da condio humana e, por conseguinte, da comunidade dos homens: a pena de morte fica, portanto, justificada. A metfora origina-se muito provavelmente de uma tradio oriental, que considera o co animal desprezvel. No Apocalipse, entre os excludos da nova Jerusalm, figuram em primeiro lugar os ces: “Fora os ces, os envenenadores, os impudicos, os homicidas, os idlatras, e todos aqueles que amam e praticam a mentira” (Apc, 22, 15).

A utilizao do recurso, porm, pode ser irnica, funcionando como denncia, o que me parece ser o caso de Graciliano Ramos. Entre os antecedentes, esto o “Colquio dos ces”, das Novelas exemplares (1613), de Cervantes, pardia das novelas picarescas, e uma passagem de Os caracteres (1688) de La Bruyre, relativa aos camponeses, que transcrevo:

Vem-se, dispersos pelo campo, certos animais ferozes, machos e fmeas, pretos, lvidos e totalmente queimados pelo sol, presos terra, que escavam e remexem com uma obstinao invencvel; tm como que uma voz articulada, e quando se erguem sobre os seus ps, apresentam uma face humana, e com efeito so homens. Retiram-se noite em covis, onde vivem de po preto, gua e razes; poupam aos outros homens o trabalho de semear, lavrar e colher para viver, e merecem, portanto, que no lhes falte este po que semearam. (La Bruyre apud Auerbach, 1971, p.321).17

Em 1934, Rubem Braga retoma La Bruyre, a propsito de um decreto do ento presidente Getulio Vargas que declarava “todos os animais existentes no pas […] tutelados do Estado”. Relata longamente “as barbaridades que sofrem os animais neste mundo”, para concluir:

interessante notar que, devido a certas semelhanas, algumas pessoas pensam que esses animais so tambm homens. engano. Eles, de fato, tm alguma parecena com os homens; mas no so homens, so operrios. (Braga, 1936, p.83-5)

“Cachorro doido”, alm da metfora animalesca, acrescenta a do “louco”, outro excludo da comunidade humana. Essa expresso ou alguma outra, sinnima, aplica-se correntemente para designar o transgressor, seja ele o criminoso comum, seja o criminoso poltico ou o opositor. O libelo de Andr Vichinski, acusador do estado sovitico, no incio dos processos de Moscou, termina assim: “Exijo que estes ces raivosos sejam todos fuzilados sem exceo”. A 11 de maro de 1938, proclama: “Todo o nosso pas, jovens e velhos, espera e reclama uma s coisa: que os traidores e espies que vendiam a nossa ptria ao inimigo sejam fuzilados como ces sarnosos” (Brou, 1966, p.52 e 15).

Exemplos de qualificaes semelhantes podem ser encontradas sem dificuldade: em 1936, douard Herriot diz de Hitler: “Esse co raivoso vai acabar soltando-se da corrente”. Stlin fala de “feras fascistas”. Hitler, por sua vez, em 1938 refere-se a Neville Chamberlain como “o cachorro mais ignbil que ja tinha encontrado”; fala tambm de “ces bolchevistas” (Silveira; Moraes Neto, 1989, p.45, 46, 254 e 304).

Atua aqui, talvez, aquela “razo de estado”, a propsito da qual assim se pronuncia um co do “Colquio dos ces” de Cervantes: “cuando con ella se cumple, se ha de descumplir con otras razones muchas” (Saavedra, 1990, p.317).

Tempos futuros

“O importante escrever duas pginas no condicional sem que ningum perceba” (R. Ramos, 1987, p.13). Essa frase dita por Graciliano Ramos a seu filho, Ricardo, pode orientar com proveito a leitura de Vidas secas. Esse modo verbal rasga, no interior do registro banal e imediato das situaes, a dimenso da perspectiva. Com efeito, o sentido bsico do condicional de abertura para o futuro. Tomemos como exemplo o pargrafo final de “Baleia”:

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de pres. E lamberia as mos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianas se espojariam com ela, rolariam com ela num ptio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de pres, gordos, enormes. (p.109)

O leitor e o narrador sabem que no haver futuro para Baleia, que no se realizaro os sonhos de felicidade, de plenitude e de fartura: do sono da morte no se desperta. Do ponto de vista literal, esto elididas da frase uma anttese, que o contexto esclarece, e o enunciado da condio, “se…”. Trata-se de uma hiptese irreal, fundada em condies inexequveis, esperana v.

Outras formas de condicional formulam-se em “Cadeia”. Primeiro caso:

[…] sem aqueles cambes pesados [a famlia] no envergaria o espinhao no, sairia dali como ona e faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria um tiro de p de pau no soldado amarelo. No. O soldado amarelo era um infeliz que nem merecia um tabefe com as costas da mo. Mataria os donos dele. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo. No ficaria um para semente. (p.43)

Tampouco essas hipteses se realizaro, mas o obstculo no tem a mesma inelutabilidade: o impedimento deriva de uma opo consciente. Fica, no entanto, como possibilidade aberta: o caminho de quem j no tem o que perder.

Segundo caso:

Os meninos eram uns brutos como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patro invisvel, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo. (p.44)

O condicional precedido da orao temporal, introduzida por “quando”: a hiptese potencial. A experincia de geraes indicava o que se podia esperar, em condies “normais”: “Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a vero. Era sina. O pai vivera assim, o av tambm. E para trs no existia famlia” (p.117). Na cadeia, dificilmente poderia esperar outra coisa que no a provvel continuidade do ciclo: o condicional, neste caso, veicula o desespero.

Sinha Vitria representa outra qualidade de esperana: ela no sonha, ela deseja:

Venderia as galinhas e a marr, deixaria de comprar querosene. Intil consultar Fabiano, que sempre se entusiasmava, arrumava projetos. Esfriava logo e ela franzia a testa, espantada, certa de que o marido se satisfazia com a idia de possuir uma cama. Sinha Vitria desejava uma cama real, de couro e sucupira, igual de seu Toms da bolandeira. (p.54)

A cama uma aspirao bem prxima e bem concreta. No contexto, a cama conota tambm a ressurreio do desejo sexual de sinha Vitria:

Viera […] um comeo de prosperidade. Comiam, engordavam. No possuam nada: se se retirassem, levariam a roupa, a espingarda, o ba de folha e troos midos. Mas iam vivendo na graa de Deus, o patro confiava neles e eram quase felizes. S faltava uma cama. Era o que aperreava sinha Vitria. (p.53)

O desejo ressurge depois de satisfeitas as necessidades primordiais de alimentao. As grandes foras de preservao da vida so exatamente a fome e o amor, que garantem, uma, a conservao da existncia individual; outro, a continuidade da espcie. Se fosse preciso, no entanto, definir anterioridade, possvel que a fome devesse prevalecer: “sine Baccho et Cerere friget Venus“.18

A oposio entre o que se poderia chamar “idealismo” de Fabiano e o “realismo” de sinha Vitria manifesta-se tambm com evidncia, por ocasio da festa a que vo na cidade: Fabiano embriaga-se e dorme, assaltado por pesadelos, enquanto sinha Vitria, aliviada da necessidade de urinar, instala-se o mais comodamente possvel: “Ficou ali de ccoras, cachimbando, os olhos e os ouvidos muito abertos para no perder a festa” (p.97).

No captulo final, novo momento crtico do romance, em que a famlia se retira quando ameaados por mais uma seca, essas diferenas se reduzem. O casal se reaproxima, Fabiano e sinha Vitria amparam-se mutuamente contra os inimigos da vida: o cansao, a seca, a fome, os bichos carniceiros. E no centro da desgraa, em contraste e contra ela, constroem a esperana:

Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboando. Acomodar-se-iam num stio pequeno, o que parecia difcil a Fabiano, criado solto no mato. Cultivariam um pedao de terra. Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos freqentariam escolas, seriam diferentes deles. Sinha Vitria esquentava-se. Fabiano ria, tinha desejo de esfregar as mos agarradas boca do saco e coronha da espingarda de pederneira. (p.153-4)

O narrador anota, em seguida: “No sentia a espingarda, o saco, as pedras midas que lhe entravam nas alpercatas, o cheiro de carnias que empestavam o caminho”. O que no existe para a conscincia de Fabiano vem zelosamente recenseado pelo realista crtico, que acrescenta sem nfase: “As palavras de sinha Vitria encantavam-no” (p.154).

Esse “encantar” significa simultaneamente “maravilhar” e “enfeitiar”. O poder mgico do “canto”, das palavras, pode ser engano, iluso, destruio da conscincia, mas tambm estmulo para a luta. a mesma ambiguidade que afeta a literatura.

Todo o final do pargrafo e do romance prossegue nessa corda bamba, entre o discurso utpico, enunciado no condicional, e a conscincia crtica. O resultado aquela esperana esclarecida, a “docta spes”, de que fala Ernest Bloch, ou, na feliz sntese de Romain Rolland, transformada por Antonio Gramsci (1975, v.I, p.75; nota explicativa, v.IV, p.2510) em palavra de ordem: “pessimismo da inteligncia, otimismo da vontade”.

Notas

1 Eis uma declarao precisa do autor: “O que me interessa o homem, e homem daquela regio asprrima. Julgo que a primeira vez que esse sertanejo aparece em literatura. Os romancistas do Nordeste tm pintado geralmente o homem do brejo. o sertanejo que aparece na obra de Jos Amrico e Jos Lins. Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do serto, observar a reao desse esprito bronco ante o mundo exterior, isto , a hostilidade do meio fsico e da injustia humana. Por pouco que o selvagem pense e os meus personagens so quase selvagens o que ele pensa merece anotao. Foi essa pesquisa psicolgica que procurei fazer, pesquisa que os escritores regionalistas no fazem nem mesmo podem fazer, porque comumente no conhecem o serto, no so familiares do ambiente que descrevem” (apud C. Ramos, 1979, p.125).

2 As prximas quatro citaes do mesmo livro tero apenas a indicao do nmero da pgina.

3 Eis o que escreve Otto Maria Carpeaux (1968) acerca de Richard Hoggart, filho de operrios, professor de literatura inglesa na Universidade de Birmingham: “Perante seus colegas de profisso, justificou sua ascenso em 1951, por um livro exaustivo sobre o poeta Auden”.

4 Entrevista a Renovao, n.13, maio-jun./1944 (Arquivo Graciliano Ramos, IEB-USP).

5 J.-P. Sartre (1976, p.85), num depoimento de 1975, lembra, a propsito de Les mots: “No creio que a histria de um homem esteja inscrita em sua infncia. Penso que h pocas muito importantes tambm em que as coisas se inserem: a adolescncia, a juventude, e mesmo a idade madura. O que vejo mais claro em minha vida, um corte que faz com que haja dois momentos quase completamente separados, a ponto de, estando no segundo, eu no me reconhecer mais muito bem no primeiro, isto , antes da guerra e depois”.

6 Leia-se este depoimento de um companheiro de priso: “Ele [G.R.] contou-me que tinha vontade de escrever um romance sobre os flagelados do Nordeste. Vira coisas pelos sertes dos Estados nordestinos de arrebentar o corao misria, sofrimento, fome, ‘vidas secas’… Massas humanas acuadas pela fome a assaltar fazendas, na marcha angustiosa em busca de po. Vira coisas… Um dia contaria tudo. Agora, por ltimo, via e vivia coisas negras. No era mais um observador estranho aos acontecimentos. Tomava parte neles era massa, era nmero… Vivia identificado, misturado com o povo, sentindo as suas dores, chorando as suas misrias, lutando – lutando sempre” (Cruz, 1938. p.9 Arquivo G.R. IEB-USP).

7 Conservo a forma de acentuar do autor.

8 Perdi a referncia desse estudo, de que s conheo as concluses gerais, de segunda mo.

9 Existe ou existia uma distino entre “sinha” e “sinh”, na dico nordestina, o segundo termo, cerimonioso, reservado camada dos proprietrios.

10 “Para no ficar hidrfobo, [o cachorro] deve ter nome de peixe. […] Para livr-lo da tosse, pe-se-lhe ao pescoo um rosrio feito com pedaos de sabugo de milho” (Cascudo, 1972, v.I, p.198).

11 As citaes seguintes sero feitas sempre por essa edio, mencionando-se apenas a pgina.

12 Referindo-se relao narrador-personagem em Vidas secas, escreve Bosi (1988, p.15): “[…] o que parece faltar na hora da empatia (por franco respeito s diferenas existenciais) resgata-se no acorde da simpatia intelectual” (Franco, 1939, p.37): “Graciliano Ramos adota uma outra forma de objetividade. o que podemos chamar a forma pattica”.

13 Note-se a diferena entre essa adjetivao e a de A terra dos meninos pelados: “pelados” descreve; “secas” interpreta.

14 Em “Batendo orelha!…”, Simes Lopes Neto (1961, p.237-40) constri, em curtos pargrafos alternados, as histrias de um cavalo e de um homem, do nascimento morte. Domesticao e educao tambm ali se confundem.

15 a hiptese de A. G. Haudricourt: “as diferentes atitudes que guiam o homem na sua relao com a natureza que ele manipula e domina podem corresponder a outros tantos modos de dominar e manipular os seus semelhantes” (apud Ugo Fabietti, 1989, p.220). Ver tambm Jacques Barrau (1990).

16 “Na beira do rio haviam comido o papagaio que no sabia falar. Necessidade” (p.42); “Na beira do rio matara-o por necessidade, para sustentar a famlia” (p.52), recordam Fabiano e sinha Vitria.

17 “Novela y coloquio que pas entre Cipin y Berganza, perros del hospital de la resurreccin, que est en la ciudad de Valladolid, fuera de la Puerta del Campo, a quin comnmente llaman los perros de Mahudes” [v.II, p.299-359]. La Bruyre (apud Auerbach, 1971, p.321).

18 A frmula de Terncio: “sem Baco e Ceres, Vnus esfria”, isto , sem o vinho e o po, o amor esfria (ver discusso do problema em Bloch, 1991, p.84 ss).

 

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Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da USP.

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  • S. Bernardo (1934)
  • Angstia (1936)
  • Angstia – edio especial 75 anos (2011)
  • Vidas Secas (1938)
  • Vidas Secas – edio especial 70 anos (2008)
  • Vidas Secas – em quadrinhos (2015)
  • Infncia (1945)
  • Insnia (1947)
  • Memrias do Crcere (1953)
  • Viagem (1954)
  • Linhas Tortas (1962)
  • Viventes das Alagoas (1962)
  • Garranchos (2012)
  • Cangaos (2014)
  • Conversas (2014)
  • A Terra dos Meninos Pelados (1939)
  • Histrias de Alexandre (1944)
  • Alexandre e Outros Heris (1962)
  • O Estribo de Prata (1984)
  • Minsk (2013)
  • Cartas (1980)
  • Cartas de Amor a Helosa (1992)
  • Dois Dedos (1945)
  • Histrias Incompletas (1946)
  • Brando entre o Mar e o Amor (1942)
  • Memrias de um Negro (1940) Booker T. Washington, traduo
  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937