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A ltima entrevista de Graciliano Ramos

Publicado em 07 d outubro d 2012

Jornal Opo
Por HOMERO SENNA, originalmente para a Revista do Globo, n 473, 18.dez.1996
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A ltima entrevista de Graciliano Ramos

Numa manh de dezembro de 1948, dez anos aps a publicao de Vidas Secas, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua ltima longa entrevista.

Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os comeos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (no Quebrngulo, como geralmente se diz), onde nasceu. Mas isso tudo est contado em Infncia. Valeria a pena repetir? E como eu dissesse que sim, resumiu: De minha cidade natal no guardo a menor lembrana, pois sa de l com um ano. Criei-me em Buque, zona de indstria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha av, meu pai se transferiu com a famlia. Em Buque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo esto contados no meu livro de memrias.

Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, l encontro este perfil psicolgico do velho Ramos, traado pelo filho: Tinha imaginao fraca e era bastante incrdulo. Aborrecia os ateus, mas s acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos.

De quem o romancista teria herdado, ento, o gosto pela literatura? Talvez do av paterno, cujo retrato desbotado costumava admirar no lbum que se guardava no ba, e de quem admite que tenha recebido em legado a vocao absurda para as coisas inteis. De sua me, o esprito infantil recolheu esta impresso: Uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, vrias bossas na cabea mal protegida por um cabelinho ralo, boca m, olhos maus que em momentos de clera se inflamavam com um brilho de loucura, ente difcil que na harmonia conjugal se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham a dureza de martelos.

De Buque, onde o romancista frequentou a primeira escola, experimentou os primeiros desnimos diante dos livros didticos do Baro de Macabas e viveu algumas das inesquecveis aventuras de sua meninice, a famlia mudou-se para Viosa, no a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas a aucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de lguas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, at uma nova paisagem, de vegetao densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, est contada numa das melhores pginas de Infncia.

De Viosa, Graciliano passou a Macei, onde frequentou um colgio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos ndios, no interior do Estado. Em Palmeira dos ndios chegaria a prefeito, e foi graas a dois relatrios que escreveu que se tornou conhecido. Mas no precipitemos os acontecimentos.

Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado como foca de reviso. No Correio da Manh e no O Sculo, de Brcio Filho, no passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em A Tarde, porm, um jornal surgido naquela poca para defender Pinheiro Machado, chegou a revisor efetivo. Morou em vrias penses, naquele Rio dos princpios do sculo, que tantos cronistas j tm descrito. Os antigos endereos ficaram-lhe na memria, e sem qualquer esforo o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19. Todos numa zona ento muito pouco recomendvel, porque bairros de meretrcio, de desordeiros e bomios.

Nessa sua primeira viagem Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem literria?
Nenhuma. Os escritores daquele tempo eram cidados que, nas livrarias e nos cafs, discutiam colocao de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides j haviam morrido, e os anos de 1914 e 1915, em que estive no Rio, assinalam, na literatura brasileira, uma poca cinzenta e andina, de que bem representativo um tipo como Osrio Duque Estrada, que ento pontificava.

Ficou aqui at quando?
At 1915. Depois de curta e nada sedutora permanncia na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos ndios, onde j havia deixado um caso sentimental e onde minha famlia estava toda sendo dizimada pela peste bubnica. Num s dia perdi dois irmos. Alarmado, e tambm desgostoso com a vida que levava, tratei de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos ndios. A mesma loja que fora de meu pai.

Nessa ocasio j tinha preocupaes literrias?
Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseudnimos.

Quer revelar alguns desses pseudnimos?
Voc besta.

Fazia versos?
Aprendi isso, para chegar prosa, que sempre achei muito difcil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ningum, pois nem as visitas recebidas por ocasio da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da Revoluo Russa, passei a assinar vrios jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catlogos, iam-me do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermdio do Mercure de France.

Ento, se procurava manter-se to bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, l de Palmeira dos ndios, o movimento modernista?
Claro que acompanhei. J no lhe disse que assinava jornais?

E que impresso lhe ficou do modernismo?
Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeao desonesta. Salvo rarssimas excees, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.

No exclui ningum dessa condenao?
J disse: salvo rarssimas excees. Est visto que excluo Bandeira, por exemplo, que alis no propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o Solau do Desamado como as Sextilhas de Frei Anto. Por dever de ofcio, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola h mais de trs anos, tive de reler toda a obra de um dos prceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis pginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glria literria? (Franze a testa, detm-se um instante, mas logo prossegue.) Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literrio do pas com a Academia, traaram linhas divisrias rgidas (mas arbitrrias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trs, condenaram, por ignorncia ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnao da literatura brasileira o que era um erro fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenao macia cometeram injustias tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organizao da antologia a que me referi, encontrei vrios contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: O Ratinho Tique-Taque, de Medeiros e Albuquerque; Tlburi de Praa, de Raul Pompia; S, de Domcio da Gama; Corao de Velho, de Mrio de Alencar; Os Brincos de Sara, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por a essas produes geralmente no aparecem, e de alguns dos autores citados so transcritos contos que no do a ideia exata do seu talento e do domnio que tinham do gnero. S posso atribuir isso, como j disse, desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos lderes modernistas, estes se achatam completamente.

Quer dizer que no se considera modernista?
Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos ndios, em pleno serto alagoano, vendendo chita no balco.

E como foi que chegou a prefeito da cidade?
Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 1930), e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.

Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas…
No era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no municpio de Palmeira dos ndios, um pedao de estrada e uma terraplenagem difcil.

Em que ano foi isso?
Em 1930.

O ano do relatrio…
Os relatrios so dois: h o de 1929 e o de 30.

Relatrios do prefeito ao governador do Estado, dando contas de sua administrao, no ?
Justo. Apenas, como a linguagem no era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava s coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcu medonho. O primeiro teve repercusso que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente.

E assim nasceu o escritor…
No. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. Caets, infelizmente, escapou e veio publicidade.

Numa edio Schmidt…
Exato. Por intermdio de Rmulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatrios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como no me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literrio, recusei-me. Alis, nessa ocasio j estava de mudana para Macei, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revoluo, quis demitir-me, mas no pude. E l fiquei at dezembro de 1931. No suportando os interventores militares que por l andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos ndios, onde, numa sacristia, fiz So Bernardo. Estava no captulo 19, captulo que escrevi j com febre, quando adoeci gravemente com uma psote e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impresses que tentei fixar em dois contos: Paulo e O Relgio do Hospital e no ltimo captulo de Angstia. No delrio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotrio. Estava convalescendo, em janeiro de 1933, quando tive notcia da minha nomeao para diretor da Instruo Pblica. No acreditei.

Qual o interventor que o nomeou?
O capito Afonso de Carvalho, hoje coronel. Foi disparate. Permaneci no cargo at 3 de maro de 1936. Em 1933 Schmidt lanara Caets, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do ms de maro de 1936, porm, sem qualquer explicao, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunicvel. Depois fui metido no poro do Manaus e vim para c. Tive dez ou doze transferncias de cadeia.

Qual o motivo da priso?
Sei l! Talvez ligaes com a Aliana Nacional Libertadora, ligaes que, no entanto, no existiam. De qualquer maneira, acho desnecessrio rememorar estas coisas, porque tudo aparecer nas Memrias da Priso, que estou compondo.

Foi assim, ento, que veio para o Rio?
Foi. Arrastado, preso.

Mas valeu a pena, no?
Sinceramente, no sei. Nunca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. Depois daquela experincia da mocidade, o Rio no me atraa. No entanto vim, no poro do Manaus, e aqui vivo.

(Estvamos, portanto, diante de um antipar. Os pars, na saborosa classificao de Jaime Ovale, so esses homenzinhos terrveis que vm do Norte para vencer na capital da Repblica; so habilssimos, audaciosos, dinmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glria literria, ou o domnio poltico. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lano a pergunta e a resposta no tarda.)

Est claro que existe um exrcito do Par. Na maioria dos casos, porm, os seus milicianos j chegam feitos do Norte. Aqui vm apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se tambm sou Par. Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi l e no aqui, onde a vida no nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro romance. De manh escrevo; tarde saio para as minhas ocupaes (inclusive para o papo na livraria); noite trabalho. Onde iria achar tempo para leituras? E se no tivesse lido um pouco no interior, onde os dias so interminveis, seria inteiramente analfabeto.

Quer dizer que acha prefervel, para o escritor, a vida na provncia?
No Nordeste no podemos falar em provincianismo, luxo dos Estados grandes: So Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. Ns, do Nordeste, temos de ser municipais ou nacionais. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela regio, acho prefervel o interior s capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos literrios, suas academiazinhas, seus institutos histricos, so sempre muito ruins. J no interior poder um homem entrar em contato ntimo com a terra e o povo. , por exemplo, de onde vem a fora de um Jos Lins do Rego, de uma Raquel de Queirs, de um Jorge Amado.

Sabe que apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?
Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. l que a lngua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regncia, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo no tenha dvida, v pelo caboclo, e no erra. Note que me refiro ao caboclo do serto. O do litoral vai-se estrangeirando.

Mas no me venha dizer que seu aprendizado da lngua se fez apenas com os caboclos de Buque e Palmeira dos ndios.
Claro que no. Muitas coisas no poderiam eles ensinar-me. Est visto que tive de chatear-me lendo gramticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.

Consta que voc, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, grande leitor de dicionrios.
Consta e verdade. Dicionrio, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionrios. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato.

Acha isso uma qualidade?
No sei. O que sei que no h talento que resista ignorncia da lngua.

Poderia, hoje, deixar de escrever?
Quem me dera poder deixar.

Sua obra de fico autobiogrfica?
No se lembra do que lhe disse a respeito do delrio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. S posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, porque no sou um s. Em determinadas condies, procederia como esta ou aquela das minhas personagens.

J se pode viver, no Brasil, da profisso de escritor?
No creio. A ltima edio de minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edio americana de Angstia, recebi 10 contos apenas. Tenho tambm trs livros traduzidos para o espanhol. Mas os negcios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como no tenho o hbito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.

Que outras atividades exerce?
Trabalho no Correio da Manh e sou inspetor de ensino secundrio no ginsio So Bento.

Gosta do emprego que tem?
-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licena.

E no Correio da Manh, qual o seu servio?
Corrijo a gramtica dos reprteres e noticiaristas.

Gosta de jornalismo?
No. Nem me considero jornalista.

Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde.
uma hora. E me levanto s sete.

Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manh.
Exato. At s onze, mais ou menos.

E para trabalhar, exige um bom ambiente ou no liga a isso?
Trabalho em qualquer parte. Angstia foi escrito em palcio, quando eu era diretor da Instruo Pblica de Alagoas. So Bernardo, em pssimas condies, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortvel sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar escritrio.

Gosta da casa onde mora?
Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia. Tenho at saudades da Colnia Correcional. Deixei l bons amigos.

(Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta.)

J fao muito em pagar as despesas. Alis, tenho horror a compras. E quando ouo o telefone, tranco-me.

Aos domingos, o que costuma fazer?
Em geral escrevo pela manh e tarde durmo.

(O autor de Vidas Secas no faz visitas, no vai a concertos nem a conferncias e no gosta de msica. Tem, entretanto, um velho hbito: vai diariamente Livraria Jos Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica l vrias horas, num banco que j quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.)

Muitas vezes vou l dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.

(Em virtude desse hbito, muita gente pensa que Graciliano d a vida por um papo. Ele, porm, desfaz-me essa impresso.)

Quase sempre converso forado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Tambm fato que l aparecem bons amigos, desses que a gente rev com prazer.

(Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe inmeros originais, para ler e dar opinio. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto prpria vocao. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.)

maada. Recebo dezenas de originais. So principiantes, geralmente dos Estados, que desejam, claro, alguns elogios. J me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piau e de Gois. Eu devia fazer como Jos Lins: afirmar, sem leitura, que tudo magnfico.

(Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opinio, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na prpria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, forosamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais moa que o irmo. Ambos tm vocao para as letras. Ricardo, jornalista, j tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contrrio, nos diga que nenhum deles lhe pede opinio, divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o portugus dos noticiaristas do Correio da Manh, e de ler originais que lhe chegam, s dezenas, de todo o pas, ter, em casa, de dar opinio sobre os trabalhos dos filhos.)

(Pergunto qual a sua impresso dos contos de Ricardo Ramos, e ele no se nega a opinar.)

Regulares. Tem jeito e poder fazer coisa que preste.

E Clara?
ainda criana. Tem 15 anos apenas e est concluindo o curso secundrio.

(Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, fao-lhe uma ltima pergunta: Acredita na permanncia de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa modstia, antes dando a impresso de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me.)

No vale nada; a rigor, at, j desapareceu.

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Nota: Entrevista publicada na Revista do Globo, edio n 473, em 18 de dezembro de 1996, e, posteriormente, no livro Repblica das Letras, de Homero Senna, editora Civilizao Brasileira.

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“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937