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Boitempo relana biografia de Graciliano

Publicado em 01 d outubro d 2012

O Velho Graa, Boitempo Editorial

O velho Graa
Uma biografia de Graciliano Ramos
Dnis de Moraes

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Reavaliada 120 anos depois de seu incio, em 27 de outubro de 1892, a extraordinria trajetria pessoal, literria, intelectual e poltica de Graciliano Ramos contada por seu melhor bigrafo ganha nova edio, ampliada e revisada, pela Boitempo Editorial. O velho Graa, de Dnis de Moraes, nos conduz pelos sessenta anos de histria de um dos maiores narradores da literatura brasileira, com todo o rigor da documentao e dos depoimentos pessoais daqueles que o cercavam. O livro chega aos leitores com acrscimos que acentuam o conhecimento pormenorizado da vida e da obra do escritor alagoano. Entre as novidades esto um bem-cuidado caderno iconogrfico, com imagens raras e at inditas, e a mais esclarecedora entrevista concedida pelo escritor, em 1944, nunca antes publicada em livro.

Publicado pela primeira vez no centenrio de Graciliano Ramos, o trabalho de Moraes foi recebido com grande entusiasmo pela crtica, por se tratar da primeira biografia de conjunto sobre o romancista, como classificou Carlos Nelson Coutinho no prefcio.

O estilo jornalstico do bigrafo se perfaz num rigoroso e amplo trabalho de pesquisa com texto ao mesmo tempo leve e erudito, escrito com sbria simplicidade, O velho Graa refaz a trajetria luminosa e sofrida de Graciliano. Tendo como objeto de estudo um escritor aferrado ao seu tempo, Moraes desenha o pano de fundo de cinco dcadas de grande efervescncia poltica e de transformaes aceleradas no processo modernizador do Brasil.

A garimpagem em arquivos pblicos e privados de Rio de Janeiro, So Paulo e Alagoas, assim como as dezenas de testemunhos de amigos, parentes, artistas, intelectuais e companheiros de gerao enriqueceram sobremaneira o trabalho. Com argcia de historiador e sensibilidade literria, Moraes traa a interligao entre as vrias personas de Graciliano Ramos: o menino traumatizado pelas surras na infncia; o jovem autodidata que lia Balzac, Zola e Marx em francs; o mtico comerciante da loja Sincera; o revolucionrio prefeito de Palmeira dos ndios; o zeloso diretor da Imprensa Oficial e da Instruo Pblica de Alagoas; o preso poltico no inferno da Ilha Grande; o escritor sufocado por apuros financeiros; o estilista da palavra na redao do Correio da Manh; o militante comunista aos esbarres com a burocracia partidria.

Sem cair na armadilha do biografismo, Moraes recompe a emergncia dessa complexa figura, reconstituindo no percurso dialtico de seus diversos momentos alguns dilemas fundamentais de nossa formao histrica. Temos um Graciliano sem retoques: duro, mas apaixonado; frio e spero na superfcie da fala e do gesto, mas ardente e sempre humano na fonte da vida pessoal, diz na capa o professor Alfredo Bosi, que tambm encontrou na biografia o cruzamento de itinerrios do homem capaz de refletir, como num jogo de espelhos, a somatria de vivncias acumuladas: a paixo pela palavra nele precedeu e acompanhou a opo poltica que, por sua vez, transcendeu (mas jamais renegou) a adeso partidria.

Para o autor, remontar o quebra-cabea de Graciliano assemelhou-se ao ofcio de arteso, j que os fragmentos do passado precisavam ser pacientemente reunidos e dispostos com a mxima coerncia possvel, a despeito da pluralidade de suas significaes. A necessidade de correlacionar peripcias, valores e sentimentos foi inspirada em uma passagem do prlogo de Memrias do crcere. O escritor consciente, assinala Graciliano, no deve esquivar-se dos zigue-zagues e tumultos prprios de uma existncia. Esforcei-me para mirar o objeto sem perder de vista suas interfaces e imbricaes, tratando de averiguar convices, dvidas, anseios, vicissitudes e triunfos a fim de estabelecer conexes com a esfera ficcional engendrada por ele. Nas tenses entre o homem, a atmosfera social e a criao literria recolhi pistas que me levassem s motivaes familiares, afetivas, estticas, ideolgicas e polticas presentes em sua interveno na realidade concreta, completa Moraes. O resultado uma histria de projees e influncias, de paradoxos e contrastes, mas, sobretudo, de coerncia na busca incessante do que essencial vida.

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Sobre O velho Graa

Um belo livro, uma biografia de classe.
Antonio Callado

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O livro de Dnis de Moraes est para Graciliano Ramos assim como o de Francisco de Assis Barbosa para Lima Barreto. um ponto de partida fundamental, com passagens e personagens que emocionam.
Otto Lara Resende

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Um livro bem pesquisado, bem pensado e bem escrito. uma obra-modelo.
Affonso Romano de SantAnna

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Revisitar sua vida e obra pelas mos de seu melhor bigrafo uma leitura imperdvel.
Wander Melo Miranda

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Trecho do livro

“Fico imaginando o que Graciliano acharia de ter sido biografado. Talvez fingisse desprezo por sua escolha. O que me leva a crer nisso? Uma declarao feita por ele, em novembro de 1937, em uma carta ao tradutor argentino Ral Navarro, que lhe pedira um currculo sumrio para anexar a um conto em vias de publicao em Buenos Aires.

Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado. Depois que redigi esses infames relatrios, os jornais e o governo resolveram no me deixar em paz. Houve uma srie de desastres: mudanas, intrigas, cargos pblicos, hospital, coisas piores e trs romances fabricados em situaes horrveis Caets, publicado em 1933, S. Bernardo, em 1934, e Angstia, em 1936. Evidentemente, isso no d para uma biografia. Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas mentiras, mas talvez seja melhor deix-las para romances.”

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Sobre o autor

Dnis de Moraes nasceu no Rio de Janeiro em 1954. doutor em Comunicao e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ps-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (Clacso), sediado em Buenos Aires. Atualmente, professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mdia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) e da Fundao Carlos Chagas Filho de Amparo Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). autor e organizador de mais de vinte livros, dos quais oito foram editados no exterior (Argentina, Espanha, Cuba e Mxico). Alm de O velho Graa, publicou duas biografias de intelectuais e artistas de esquerda: Vianinha, cmplice da paixo: uma biografia de Oduvaldo Vianna Filho (Rio de Janeiro, Record, 2000; So Paulo, Expresso Popular, no prelo) e O rebelde do trao: a vida de Henfil (Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1996). Ainda, com Francisco Viana, Prestes: lutas e autocrticas (Petrpolis, Vozes, 1982; Rio de Janeiro, Mauad, 1998), obra baseada no nico depoimento concedido pelo lder comunista Luiz Carlos Prestes sobre sua trajetria.

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Veja mais na categoria Publicaes

CONHEÇA A OBRA DE GRACILIANO RAMOS

  • Caets (1933)
  • Caets  edio especial 80 anos (2013)
  • S. Bernardo (1934)
  • Angstia (1936)
  • Angstia – edio especial 75 anos (2011)
  • Vidas Secas (1938)
  • Vidas Secas – edio especial 70 anos (2008)
  • Vidas Secas – em quadrinhos (2015)
  • Infncia (1945)
  • Insnia (1947)
  • Memrias do Crcere (1953)
  • Viagem (1954)
  • Linhas Tortas (1962)
  • Viventes das Alagoas (1962)
  • Garranchos (2012)
  • Cangaos (2014)
  • Conversas (2014)
  • A Terra dos Meninos Pelados (1939)
  • Histrias de Alexandre (1944)
  • Alexandre e Outros Heris (1962)
  • O Estribo de Prata (1984)
  • Minsk (2013)
  • Cartas (1980)
  • Cartas de Amor a Helosa (1992)
  • Dois Dedos (1945)
  • Histrias Incompletas (1946)
  • Brando entre o Mar e o Amor (1942)
  • Memrias de um Negro (1940) Booker T. Washington, traduo
  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

Queria endurecer o corao, eliminar o passado, fazer com ele o que fao quando emendo um perodo riscar, engrossar os riscos e transform-los em borres, suprimir todas as letras, no deixar vestgio de idias obliteradas.

Memrias do Crcere, cap. 5