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Faces de Graciliano Ramos

Publicado em 20 d outubro d 2012

2012: 120 anos de Graciliano

O Globo
Por GUILHERME FREITAS
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Coletnea de textos inditos em livro traz conto desconhecido de 1915 e artigos que mostram atividade literria e poltica do autor alagoano

Anunciado recentemente como o autor homenageado da edio de 2013 da Festa Literria Internacional de Paraty (Flip), Graciliano Ramos estar no centro de uma srie de celebraes nos prximos meses, por conta dos 120 anos de seus nascimento, que se completam no prximo sbado, dia 27. Reforando as comemoraes, chegam s livrarias uma obra com inditos e a reedio ampliada de uma biografia clssica do autor de Vidas secas e So Bernardo.

Publicados entre 1915 e 1952, os 81 textos reunidos em Garranchos: achados inditos de Graciliano Ramos (Record) podem ser lidos como uma espcie de guia para a trajetria do escritor. Dos primeiros artigos, em que, sob pseudnimos variados (X., Lcio Guedes, Ramos de Oliveira, J.C., G.R.), discute os problemas de Alagoas e alfineta desafetos em versinhos maldosos (Aquela carcaa ingente/ Tanta gordura juntou/ Que um dia, logicamente,/ Tinha de ser rebentou), at as intervenes do autor j consagrado na vida poltica e literria do pas, o livro mostra a consolidao da assinatura e do estilo de Graciliano.

Organizado pelo pesquisador da USP Thiago Mio Salla, Garranchos composto sobretudo de textos no ficcionais, como colaboraes para imprensa, ensaios breves, discursos e cartas. As excees so um conto que escreveu aos 21 anos mas nunca publicou, O ladro (leia trecho ao lado), e o primeiro ato de uma pea teatral inacabada.

um conjunto heterogneo de textos, mas a partir de alguns elementos podemos perceber transformaes. Ele s passa a assinar como Graciliano Ramos em 1931 e, quando observamos os textos dessa poca, percebe-se a evoluo de um estilo que vai se tornando mais seguro diz Salla, chamando ateno para o conto indito, que emprega tcnicas literrias que marcariam a obra de Graciliano, como a introspeco e a temtica social.

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Campanha contra o analfabetismo

Garranchos complementa as duas antologias de no fico de Graciliano publicadas depois de sua morte, em 1952, por cncer de pulmo: Linhas tortas e Viventes das Alagoas (ambas saram em 1962). Assim como elas, o novo livro ilumina aspectos decisivos da biografia e da obra do escritor.

O Graciliano poltico, por exemplo, se faz notar j na srie de crnicas semanais que publicou em 1921, aos 28 anos, em um jornal de Palmeira dos ndios, municpio do qual se tornaria prefeito no final daquela dcada. Em um dos primeiros textos, insiste no grave mal que ameaa derruir a moral do povo: o analfabetismo. E em mais de uma ocasio exige que o governo abra escolas no municpio e capacite os limitados professores locais, em nome dos infelizes pais de famlia que veem, dia a dia, a misria invadir-lhes o lar, onde no penetrou ainda, balsmica e divina, a fonte do bem humano: o livro!.

Outros textos fornecem dados relevantes (ou ao menos curiosos) para a compreenso do processo criativo de Graciliano. Na crnica Paulo Honrio, de 1946, o escritor recorda a construo do protagonista de So Bernardo (1934), seu segundo romance. A figura do fazendeiro agressivo e inescrupuloso, diz Graciliano, condensa a pesquisa que fez, ainda nos anos 1920, para um conto sobre um criminoso, resumo de certos proprietrios rijos existentes no Nordeste, que no chegou a publicar, insatisfeito com o dilogo chinfrim e a sintaxe disciplinada. Alm disso, colaboraram para a composio a carranca e fragmentos de velhas narraes de seu pai e a lngua, as imagens rurais dos irmos e cunhados, conta.

Entre os textos de Garranchos, cinco jamais haviam sido publicados: o conto O ladro e os ensaios A literatura de 30, Jorge Amado, O negro no Brasil e Revoluo Russa. Escrito pouco depois do lanamento de So Bernardo, A literatura de 30 se alinha a uma srie de exerccios crticos em que Graciliano, j um autor respeitado, comentava e defendia a produo de outros escritores nordestinos, ao mesmo tempo em que ironizava a percepo que se tinha deles no Sudeste: O Sr. Lins do Rego faz a maior parte dos seus livros em Macei, lugar terrvel, absolutamente imprprio a esse gnero de trabalho. E a Sra. Rachel de Queiroz produziu excelentes romances numa rede.

Em sua atividade crtica, Graciliano defendia uma literatura que se pautava pela representao dos dramas do interior do pas. Ele delineava um conflito entre a literatura do Nordeste, marcada por um realismo com inflexes polticas, e a do Sul, mais voltada para a psicologia diz Salla, ressaltando que, em sua prpria obra ficcional, Graciliano superava essa oposio, com um texto marcado ao mesmo tempo por profundidade psicolgica e preocupao social.

A atuao de Graciliano no Partido Comunista, ao qual se filiou em 1945, tambm aparece em uma srie de textos, entre os quais se destacam dois discursos na clula Teodoro Dreiser, formada apenas por escritores e batizada em homenagem ao autor americano socialista. Nos discursos, Graciliano rumina dvidas sobre como podem servir ao Partido os trabalhadores intelectuais, dividido entre o dever de difundir as causas comunistas e a necessidade de preservar a liberdade artstica.

Publicamente, Graciliano era militante, mas nunca se furtou a fazer crticas internas aos dogmas do partido. Ele era uma um voz dissonante, questionava o dirigismo cultural diz Salla, que prepara para 2013 um livro de entrevistas de Graciliano. Ele tinha essa fama de arredio, mas j consegui reunir cerca de 30 entrevistas importantes.

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CONHEÇA A OBRA DE GRACILIANO RAMOS

  • Caets (1933)
  • Caets  edio especial 80 anos (2013)
  • S. Bernardo (1934)
  • Angstia (1936)
  • Angstia – edio especial 75 anos (2011)
  • Vidas Secas (1938)
  • Vidas Secas – edio especial 70 anos (2008)
  • Vidas Secas – em quadrinhos (2015)
  • Infncia (1945)
  • Insnia (1947)
  • Memrias do Crcere (1953)
  • Viagem (1954)
  • Linhas Tortas (1962)
  • Viventes das Alagoas (1962)
  • Garranchos (2012)
  • Cangaos (2014)
  • Conversas (2014)
  • A Terra dos Meninos Pelados (1939)
  • Histrias de Alexandre (1944)
  • Alexandre e Outros Heris (1962)
  • O Estribo de Prata (1984)
  • Minsk (2013)
  • Cartas (1980)
  • Cartas de Amor a Helosa (1992)
  • Dois Dedos (1945)
  • Histrias Incompletas (1946)
  • Brando entre o Mar e o Amor (1942)
  • Memrias de um Negro (1940) Booker T. Washington, traduo
  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

“A palavra no foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso.
A palavra foi feita para dizer.”

em entrevista a Joel Silveira, 1948