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Graciliano Ramos, um escritor comunista

Publicado em 26 d outubro d 2012

2012: 120 anos de Graciliano O Velho Graa, Boitempo Editorial

Portal Vermelho
Por URARIANO MOTA
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Da velha edio que tenho comigo, de 1992, que retiro os trechos e reflexes que reno agora. A primeira delas que deveria haver no momento uma suspenso das notcias que so um alarido de baixa animalidade, que fazem passar as horas em um vazio sem fim, como as fotos da nudez da ltima celebridade ou o arremedo de justia dos astros do STF, porque neste ano, mais precisamente no sbado 27 de outubro, aniversrio de Graciliano Ramos. Diria Cames cesse tudo o que a musa antiga canta, mas em relao ao noticirio, que musa? Melhor, esse que musa? soaria aos ouvidos dos reprteres como um que msica?. E para evitar a musa que se confunde com msica, vamos ao primeiro trecho que destaco da biografia O Velho Graa, escrita por Dnis de Moraes:

“Na safra, aparecero A bagaceira, de Jos Amrico de Almeida; Menino de engenho, de Jos Lins do Rego; O pas do carnaval e Cacau, de Jorge Amado; Os corumbas, de Armando Fontes; Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre.

Em artigo no Dirio de Pernambuco, de 10 de maro de 1935, sob o ttulo O romance do Nordeste, (Graciliano Ramos) escreveu:

Era indispensvel que os nossos romances no fossem escritos no Rio, por pessoas bem-intencionadas, sem dvida, mas que nos desconheciam inteiramente. Hoje desapareceram os processo de pura criao literria. Em todos os livros do Nordeste, nota-se que os autores tiveram o cuidado de tornar a narrativa, no absolutamente verdadeira, mas verossmil. Ningum se afasta do ambiente, ningum confia demasiado na imaginao. (…) Esses escritores so polticos, so revolucionrios, mas no deram a ideias nomes de pessoas: os seus personagens mexem-se, pensam como ns, sentem como ns, preparam as suas safras de acar, bebem cachaa, matam gente e vo para a cadeia, passam fome nos quartos sujos duma hospedaria.

Notem o quanto impressionante como escritores to distintos, Jos Lins, Graciliano Ramos, Jorge Amado, sem comunicao entre si, em estados e cidades diferentes, escrevam romances como se estivessem em um s movimento literrio. Isso, que para os professores de cursinhos vestibulares, e at em certas ctedras universitrias, ganha feies de prato feito, mais que coincidncia. Esses homens inquietos no escreviam o que escreveram por mtodo ou influncia de escola esttica. O que os unifica o esprito do tempo, que no caso eram as ideias de esquerda, a influncia socialista, o movimento comunista no Brasil, que refletia o eco de 1917, at mesmo em Palmeira dos ndios, onde vivia Graciliano. E neste ponto, de passagem, cabe uma brevssima ponderao, que deixo para estudiosos mais capazes: pensa-se que a influncia do partido comunista se deu em suas estritas fileiras, ou, de outro modo, nos tenentes e movimentos de massa e de operrios. Nada mais inexato. A partir de 1930 a fora das ideias socialistas se alastrou no Brasil entre comunistas organizados, comunistas de simpatia (mas simpatia quase amor, diz um bloco do carnaval do Rio), socialistas, e, de modo geral, em artistas que refletiam o povo brasileiro como se manifestassem uma nova independncia. De certo modo, de certo modo, no, de todos os modos, o pensamento que avanou entre ns, da cincia literatura, recebeu a fecundao do dilogo com o mundo de esquerda. De passagem ainda, mas em outro lugar, deveria ser observada a influncia desses escritores nordestinos sobre a literatura dos africanos que se libertaram de Portugal.

No momento, chamo a ateno para o que me parece um engano, que por fora do hbito se tornou um gnero de texto. Penso em Vidas Secas, livro sobre o qual a pesquisa de Dnis de Moraes informa:

Cem dias depois de ter sido posto em liberdade, Graciliano iniciaria um novo projeto literrio. Escrevera um conto baseado no sacrifcio de um cachorro, que presenciara, quando criana, no Serto pernambucano… As opinies favorveis o incentivariam a prosseguir a histria, esboando o perfil dos donos de Baleia.

O processo de composio do romance o nico que escreveu na terceira pessoa seria, por razes de ordem financeira, dos mais originais da literatura brasileira. A conta da penso e as despesas duplicadas com a vinda da famlia para o Rio o obrigariam a escrever os captulos como se fossem contos. Era um artifcio para ganhar dinheiro, publicando-os isoladamente em jornais e revistas, medida que os produzia. s vezes, republicaria o mesmo conto, com ttulo alterado, em outros peridicos. Dos 13 captulos, oito sairiam nas pginas de O Cruzeiro, O Jornal, Dirio de Notcias, Folha de Minas e Lanterna Verde, alm de La Prensa, de Buenos Aires…

Um romance desmontvel, cujas peas podem ser destacadas para a leitura e seriadas de mais de uma maneira. Como telas de uma exposio que tm vida prpria, independente dos demais.

Mas Vidas Secas no um romance! E as razes para isso vm no s de ordem financeira, quero crer. Um romance exige ainda que a sua realizao seja rebelde a linhas de fronteira algo mais que a repetio de personagens em diferentes relatos. Se assim fosse, A Comdia Humana, de Balzac, seria um s livro. No romance h uma organicidade de pessoas, digo, personagens, que crescem e se diluem em um destino em bloco. E de tal modo que as suas partes autnomas, ainda que seccionadas e vendidas como contos, ganham pleno sentido no conjunto. O todo a iluminao do particular. O magnfico relato da cachorra Baleia, unido a pginas magistrais pelos personagens que o talento de Graciliano acrescentou, jamais teria unidade absoluta se pertencesse a um romance. Na verdade, Vidas Secas uma vitria do gnio do escritor sobre as condies difceis de tempo e lugar em que escreveu o livro, e o seu valor no cai nem um bilionsimo, quando se nota nele um exemplar conjunto de contos em vez de um romance. E aqui, sobre a genialidade do artista, em mais de uma pgina de sua biografia recebemos lies:

A qualidade essencial de quem escreve a clareza, dizer uma coisa que todos entendam da forma que voc quis. Para escritor que de ofcio autodidata, isso custa anos, porque no est na gramtica, nem em livro algum.

Muito Bom!!!! o comentrio mais ponderado que me ocorre. Para o escritor que de ofcio autodidata, isso custa anos, porque no est na gramtica, nem em livro algum, fala o mestre provado. Me acompanhem por favor: em que oficinas de literatura podem se formar escritores essenciais? Em que oficina de escritor se forma a vida? Em que oficinas, a seu modo laboratrios de bebs de proveta, se conseguir a clareza que s a malhao fora das academias de todo tipo e gnero d? Em que local se aprender a observao que o instinto e a mente e a experincia concebem?

Em Graciliano Ramos, se o compreendemos bem, h uma teoria da arte, h uma teoria da literatura, h uma lio de sabedoria que deveria ser luz para todo escritor digno do nome. Todos, novos e velhos, escritores livres ou escravos ladinos. Como neste passo, do dirio de Paulo Mercadante, citado em O Velho Graa:

Graciliano falou de sua experincia. Escrever um lento aprendizado, que se estende pela vida, alguma coia que exige concentrao e pacincia. Muita pacincia mesmo. No se trata apenas de saber a sintaxe, de dominar um grande vocabulrio, mas de ser fiel ideia e dom-la em termos de uma preciso formal. Por isso, a experincia essencial, s escapando dessa condio o poeta. Talvez com relao ao escritor haja uma conjugao, Graciliano concluiu, da pessoa como individualidade, do ponto de vista de uma psicologia determinada com o meio onde cresceu e viveu.

Entendam. O entusiasmo ponderado acima no significa que da sua escrita venha uma norma, uma lei que diga a um homem que deseje apenas (!) expressar o seu pensamento: – olha, fora deste caminho nenhuma salvao possvel. No isso. Na literatura s existe um regra: no existe regra. S existe uma maneira, de todas as maneiras. O reconhecimento da sua grandeza no implica a busca do caminho nico da escrita escorreita, limpa e enxuta do mestre. Pois como ficaria a gordura de Jos Lins? Em que plano assomaria o bolero em forma de letras de Gabriel Garca Mrquez? Ou os torneios vocabulares de Proust? E os delrios de matar de Gogol? No. Trata-se apenas de retirar da experincia curtida, no sentido de pele enrugada de muitos sis, de Graciliano aquilo que serve a gordos e magros, altos baixos, desbocados ou contidos. A saber: escrever um lento aprendizado, que se estende pela vida, alguma coia que exige concentrao e pacincia. Muita pacincia mesmo.

E aqui, sem sair do captulo da excelncia da sua escrita, e como nem tudo so flores, entramos em um terreno mais pedregoso. Entramos no embate poltico do mestre, dentro do partido e fora dele, no mesmo tempo, at como uma prova de que a vida partidria no uma estufa. A sociedade e a histria passam pelos partidos comunistas, onde quer que estejam. Refiro-me ao cume da obra de Graciliano Ramos, o Memrias do Crcere. Para mim, a literatura poltica no Brasil tem um pico, cujo nome Memrias do Crcere. At hoje, nada li melhor como retratos de homens comunistas no coletivo de um presdio. curioso como at nas universidades no veem as Memrias como o melhor livro de Graciliano. Dizem: no fico, e com isso desprezam para a lata de lixo uma prosa madura, grande, de denncia, porque no fico. Mas ela to boa ou melhor que a sua melhor fico. Da primeira edio que tenho, da Livraria Jos Olympio em 1953, com fac-smiles do manuscrito e retrato do autor no desenho de Portinari, digitei com pacincia h seis anos, para publicao no espanhol La Insignia, a pgina imortal que narra a deportao de Olga Prestes. Est aqui.

Pois bem, essa obra no se fez sem conflitos os mais srios, mais particularmente com Digenes de Arruda Cmara, o homem que seguia com rigor, digamos, excessivo a disciplina partidria. Diz o livro:

Arruda pedira para folhear os originais de Memrias do Crcere, aborrecendo-se, logo na primeira lauda, com a afirmao de que, no Estado Novo, nunca tivemos censura prvia em arte… No decorrer da reunio, cobrariam (Arruda, Astrojildo e Floriano Gonalves) novamente a Graciliano o seu distanciamento do realismo socialista e a falta de vigor revolucionrio de seus livros. Um dos presentes, em tom inflamado, diria que ele persistia num realismo crtico ultrapassado e citaria Jorge Amado como escritor empenhado em dar contedo participante a suas obras. Ao ouvir o nome de Jorge, Graciliano romperia o silncio:

– Admiro Jorge Amado, nada tenho contra ele, mas o que sei fazer o que est nos meus livros.

Conta o livro que em outra oportunidade, anos antes desse dia, Digenes, em uma reunio com escritores, entre os quais estavam Astrojildo Pereira, Dalcdio Jurandir, Osvaldo Peralva, e o prprio Graciliano, teria feito, segundo o bigrafo Dnis de Moraes, uma apologia literatura revolucionria, exigindo que os presentes se enquadrassem nos ditames zdanovistas. A certa altura, citaria como exemplo os poemas de Castro Alves, que a seu ver encaravam os problemas sociais numa perspectiva revolucionria. E o que era mais importante: com versos rimados .

E mais, em outro ponto da biografia:

Em conversas posteriores com Herclio Salles, ele enfatizaria a averso ao romance panfletrio.

– Nenhum livro do realismo socialista lhe agradou? perguntaria o jornalista.

– At o ltimo que li, nenhum. Eu acho aquele negcio de tal ordem que no aceitei ler mais nada.

– Qual a principal objeo que o senhor faz?

– Esse troo no literatura. A gente vai lendo aos trancos e barrancos as coisas que vm da Unio Sovitica, muito bem. De repente, o narrador diz: O camarada Stlin… Ora porra! Isto no meio de um romance?! Tomei horror.

– No seria possvel purificar o estilo do realismo socialista?

– No tem sentido. A literatura revolucionria em essncia, e no pelo estilo do panfleto.

No de se admirar, portanto, que no tolerasse as frmulas emanadas de Moscou. Ao tomar conhecimento do informe de Zdanov sobre literatura e arte, esculhambaria:

– Informe? Eu gosto muito da palavra, porque informe mesmo uma coisa informe.

A relao de Graciliano Ramos com o PCB, nos ltimos anos, conflituosa, aqui e ali em aberta crise. Mas se destaca nessa relao, por isso mesmo, uma expresso de grandeza do escritor, que no deixou a sua escolha pelo comunismo, mesmo em luta contra a estreiteza da direo na poca. Nessa biografia emerge um comunista velha maneira, maneira que julgamos clssica, modelar, diferente de comportamentos de algumas militncias que tudo se permitem, desde que para isso alcancem o poder. Olhem s como agia, e no que agia ele era, o comunista Graciliano Ramos:

Recusava assinar artigos (no Correio da Manh, onde trabalhava como revisor), alegando para os mais ntimos que no concordava com a linha editorial dos jornais burgueses. O mximo que admitia era colaborar com o suplemento literrio. Relutava em aceitar aproximao maior com os proprietrios do Correio da Manh, embora mantivesse uma relao cordial com Paulo Bittencourt (o patro). A ortodoxia poltica o levaria ao exagero de no comparecer ao jantar pelo aniversrio de Bittencourt. A Jos Cond, que passava a lista de adeses, afirmaria:

– No me sento mesa com patro. Todo patro filho da puta! O Paulo o que menos conheo, mas patro.

No dia seguinte, Bittencourt se queixaria:

– Mas, Graciliano, como que voc me faz uma coisa dessas?

– Paulo, eu o repeito, mas voc patro…

– Mas eu sou um patro diferente.

– No, Paulo. Todo patro para mim …

– …filho da puta. J sei que voc xingou minha me.

O comunista e o burgus acabariam rindo juntos.

Paulo Bittencourt gostava de provocar Graciliano por suas ideias socialistas. Quando o Correio da Manh recebeu novas mquinas, Paulo o alfinetaria:

– Imagine se vocs fizessem uma revoluo e vencessem. Todo esse parque grfico seria destrudo.

Graciliano o cortaria:

– S um burro ou um louco poderia pensar isto. Se fizssemos a revoluo e vencssemos, s ia acontecer uma coisa. Em vez de voc andar por a, viajando pela Europa, gastando dinheiro com mulheres, teria que ficar sentadinho no seu canto trabalhando como todos ns.

Esse livro, O Velho Graa, tem uma caracterstica at hoje pouco destacada. Em vez da pura leitura de uma biografia, desperta no leitor uma simpatia profunda pelo biografado. Nele Graciliano Ramos cresce como escritor em uma rara empatia, como um irmo mais que amigo, ou como um amigo mais que irmo. Enfim, como um camarada, fraterno, admirvel.

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“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937