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fev.13: Conversas com Joel Silveira (II)

Publicado em 01 d fevereiro d 2013

Aqui vai o texto de Graciliano Ramos, tal e qual me foi entregue e tal e qual foi publicado na Vamos Ler:

Nasci em 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, Alagoas, donde sa aos dois anos. Meu pai, Sebastio Ramos, negociante mido, casado com a filha de um criador de gado, ouviu os conselhos de minha av, comprou uma fazenda em Buque, Pernambuco, e levou para l os filhos, a mulher e os cacarecos. Ali a seca matou o gado e seu Sebastio abriu uma loja na vila, talvez em 95 ou 96. Da fazenda conservo a lembrana de Amaro Vaqueiro e de Jos Baa. Na vila conheci Andr Laerte, cabo Jos da Luz, Rosenda lavadeira, padre Jos Incio, Felipe Bencio, Teotnio Sabi e famlia, seu Batista, dona Marocas, minha professora e mulher de seu Antnio Justino, personagem que utilizei muitos anos depois.

Aprendi a carta de ABC em casa, agentando pancada. O primeiro livro, na escola, foi lido em uma semana, mas no segundo encrenquei: diversas viagens fazenda de um av interromperam o trabalho, e logo no comeo do volume antiptico, a histria besta dum Miguelzinho que recebia lies com os passarinhos fechou-me, por algum tempo, o caminho das letras. Meu av dormia numa cama de couro cru, e em redor da trempe de pedras, na cozinha, a preta Vitria mexia-se, preparando comida, acocorada. Dois currais, o chiqueiro das cabras, meninos e cachorros numerosos, soltos no ptio, cobras em quantidade. Nesse meio e na vila passei os meus primeiros anos. Depois seu Sebastio aprumou-se e em 99 foi vier em Viosa, Alagoas, onde tinha parentes. A entrei no terceiro livro e percorri vrias escolas, sem proveito. Como levava uma vida bastante chata, habituei-me a ler romances. Os indivduos que me conduziram a esse vcio foram o tabelio Jernimo Barreto e o agente do correio Mrio Venncio, grande admirador de Coelho Neto e tambm literato, autor dum conto que principiava assim: Jerusalm, a deicida, dormia sossegada luz plida das estrelas. Sobre as colinas pairava uma tnue neblina, que era como o hlito da grande cidade adormecida. Um conto bonito, que elogiei demais, embora intimamente preferisse o de Paulo de Kock e o de Jlio Verne. Desembestei para a literatura. No colgio de Macei, onde estive pouco tempo, fui um aluno medocre. Voltei para Viosa, fiz sonetos e conheci Paulo Honrio que em um dos meus livros aparece com outro nome. Aos dezoito anos fui com a minha gente morar em Palmeira dos ndios. Fiz algumas viagens a Buque, revi parentes do lado materno, todos em decadncia. Em comeo de 14, enjoado da loja de fazendas de meu pai, vim para o Rio, onde me empreguei como foca de reviso. Nunca passei disso.

Em fins de 1915, embrenhei-me de novo em Palmeira dos ndios. Fiz-me negociante, casei-me, ganhei algum dinheiro, que depois perdi, enviuvei, tornei a casar, enchi-me de filhos, fui eleito Prefeito e enviei dois relatrios ao Governador. Lendo um desses relatrios, Schmidt (Nota: Augusto Frederico Schmidt, o poeta e editor) imaginou que eu tinha algum romance indito e quis lan-lo. Realmente, o romance existia, um desastre. Foi arranjado em 1926 e apareceu em 1933. Em princpio de 1929 larguei a Prefeitura e dias depois fui convidado pra diretor da Imprensa Oficial. Demiti-me em 1931. No comeo de 1932 escrevi os primeiros captulos de So Bernardo, que terminei quando sa do hospital. As recordaes do hospital esto em dois contos publicados ultimamente, um em Buenos Aires, outro aqui. Em janeiro de 1933 nomearam-me diretor da Instruo Pblica de Alagoas disparate administrativo que nenhuma revoluo poderia justificar. Em maro de 1936, no dia em que me afastava desse cargo, entreguei datilgrafa as ltimas pginas de Angstia, que saiu em agosto do mesmo ano, se no estou enganado, e foi bem recebido, no pelo que vale, mas porque de algum modo me tornei conhecido, infelizmente.

Mudei-me para o Rio, ou antes, mudaram-me para o Rio, onde existo agora. Aqui fiz o meu ltimo livro, histria mesquinha um casal vagabundo, uma cachorra e dois meninos. Certamente no ficarei na cidade grande. Projetos no tenho. Estou no fim da vida, se que a isto se pode dar o nome de vida. Instruo quase nenhuma. Jos Lins do Rgo tem razo quando afirma que a minha cultura, moderada, foi obtida em almanaque.

IN: SILVEIRA, Joel. Na fogueira: memrias. Rio de Janeiro: Mauad, 1998, p.278-279.
Publicada originalmente na Revista Vamos Ler, incio de 1939

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CONHEÇA A OBRA DE GRACILIANO RAMOS

  • Caets (1933)
  • Caets  edio especial 80 anos (2013)
  • S. Bernardo (1934)
  • Angstia (1936)
  • Angstia – edio especial 75 anos (2011)
  • Vidas Secas (1938)
  • Vidas Secas – edio especial 70 anos (2008)
  • Vidas Secas – em quadrinhos (2015)
  • Infncia (1945)
  • Insnia (1947)
  • Memrias do Crcere (1953)
  • Viagem (1954)
  • Linhas Tortas (1962)
  • Viventes das Alagoas (1962)
  • Garranchos (2012)
  • Cangaos (2014)
  • Conversas (2014)
  • A Terra dos Meninos Pelados (1939)
  • Histrias de Alexandre (1944)
  • Alexandre e Outros Heris (1962)
  • O Estribo de Prata (1984)
  • Minsk (2013)
  • Cartas (1980)
  • Cartas de Amor a Helosa (1992)
  • Dois Dedos (1945)
  • Histrias Incompletas (1946)
  • Brando entre o Mar e o Amor (1942)
  • Memrias de um Negro (1940) Booker T. Washington, traduo
  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

Queria endurecer o corao, eliminar o passado, fazer com ele o que fao quando emendo um perodo riscar, engrossar os riscos e transform-los em borres, suprimir todas as letras, no deixar vestgio de idias obliteradas.

Memrias do Crcere, cap. 5