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 Graciliano Ramos

Artigos

Outras vidas, a mesma seca

Publicado em 02 d junho d 2013

Do jornal O Globo
Por ANDR MIRANDA, com fotos de CUSTDIO COIMBRA
Link original

 

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Veja tambm:
Novas vidas secas (infogrfico)
Vdeo: Outras vidas, a mesma seca

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Parte 1

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.

 

 

 

 

 

 

Procuro recordar-me dos veres sertanejos, que duram anos. Dificilmente poderia distinguir a realidade da fico. (Trecho de Angstia, de 1936)

 

No h muitas sombras nas estradas do interior de Alagoas. Mal h vegetao. Com os espinhosos mandacarus, que resistem seca, e as rvores sem folhas que esto por toda a parte, a paisagem um grande deserto.

O estado do gado tambm torna a viso mais rida. Sem comida e sem gua, bois e vacas emagrecem, muitos morrem. Os fazendeiros costumam amarrar os animais mais fracos a cercas ou caules de rvores para evitar que eles caiam. uma tentativa de adiar a morte, de evitar que o clima imponha sua fora. Aos poucos, os mugidos silenciam, as carcaas se acumulam, a vida se vai. Porm, entre os rios sem gua, os animais mortos estirados no solo e as plantas cinzentas, ressecadas, a imagem que mais chama ateno mesmo a da desolao humana. O homem no consegue viver sem os rios, sem os bois, sem a terra. S que ele permanece de p, continua a caminhar. O clima faz seu estrago, mas o tempo sertanejo parece no autorizar o homem a morrer.

J era assim quando Graciliano Ramos de Oliveira nasceu, em 27 de outubro de 1892. Ele escreveu, dcadas mais tarde, em Angstia, seu terceiro romance, publicado em 1936: O que lhe interessa na minha terra o sofrimento da multido, a tragdia peridica das secas. Procuro recordar-me dos veres sertanejos, que duram anos. A lembrana chega misturada com episdios agarrados aqui e ali, em romances. Dificilmente poderia distinguir a realidade da fico.

A realidade de Graciliano comeou em Quebrangulo, municpio do agreste alagoano prximo a Pernambuco. A fico veio depois. Quebrangulo teve, h um sculo, as finanas sustentadas pelas riquezas do Ciclo do Algodo, o que levou a cidade a contabilizar 30 mil habitantes. Hoje so apenas 12 mil, e uma economia baseada na pecuria de corte. No centro, suas casas bem conservadas e ruas tranquilas lembram o ambiente colonial, aconchegante, de algumas cidades histricas de Minas Gerais. Mas 50% da populao vive alheia ao movimento do centro, trabalhando na roa, em fazendas criadoras de gado ou na agricultura de subsistncia. Na teoria, por se situar no agreste, prximo Zona da Mata, Quebrangulo deveria sofrer menos com a estiagem do que as cidades do serto. A realidade, entretanto, vem desafiando a geografia: em todo o Nordeste, as reas de serto, agreste e at Zona da Mata esto sofrendo com os longos meses sem chuva.

Os primeiros indcios da seca atual apareceram no ano passado. Em geral, as chuvas da regio se concentram no inverno. quando, entre os meses de junho e setembro, prefeituras, governos e os prprios donos de terra erguem barragens e abrem audes para reter o mximo possvel de gua, um excedente que normalmente permite que se aguente a penria do restante do ano. Em 2012, porm, as chuvas foram fracas no inverno, insuficientes para preencher a necessidade de gua nas outras estaes. Tambm quase no houve o que os sertanejos chamam de trovoadas, chuvas de poucos dias, mas de muita fora, que costumam cair entre novembro e janeiro, e que so fundamentais para que se mantenha a produo at a chegada do inverno seguinte.

Com um inverno mais fraco e sem as trovoadas, mais de 90% dos rios do interior de Alagoas secaram. Poucos audes se mantiveram com gua, e o abastecimento das barragens passou a ser insuficiente para a necessidade da populao. A intensidade da seca fez com que Quebrangulo e outros 38 dos 102 municpios alagoanos viessem a ser reconhecidos em estado de emergncia pela Secretaria Nacional de Defesa Civil. Este ano, so mais de 1.300 cidades do Nordeste e do norte de Minas Gerais na mesma situao, afetando cerca de 10,4 milhes de pessoas.

No caso da cidade natal de Graciliano, a seca tem ainda um fator trgico, quase fantasioso. Em 18 de junho de 2010, durante uma tempestade, uma barragem estourou em Bom Conselho, municpio de Pernambuco, prximo dali. A gua correu pelos montes, at desembocar, por volta das 14h, em Quebrangulo. Como a chuva havia impedido que os servios de telefonia se mantivessem ativos, a cidade no pde ser avisada. Por sorte ningum morreu, mas algumas casas foram inundadas com gua a quase dois metros de altura. Uma ponte por onde passava a estrada de ferro inaugurada em 1912 despencou, e at hoje o trem que transportava mercadorias no foi reativado. Por causa das chuvas de 2010, os prejuzos em Quebrangulo passaram de R$ 4 milhes.

Hoje, a gua que quase destruiu a cidade o bem mais desejado por l.

A partir deste ano, com tudo o que estamos vivendo, as pessoas no vo ter mais como honrar seus compromissos afirma Manoel Tenrio (PSDB), prefeito de Quebrangulo desde janeiro. preciso que o governo federal faa mais para garantir o abastecimento de gua, com barragens e sistemas de adutora. E tambm importante que se financie a recuperao da economia. Hoje, recebemos carros-pipa e farelo (uma rao para o gado, feita base de milho e soja). Mas so aes paliativas.

Apesar da seca, a prefeitura de Quebrangulo tem planos para dias melhores de preferncia, aproveitando o apelo turstico que o nome do filho ilustre pode gerar para a cidade. Mas ele no lembrado muito alm de homenagens espordicas e comentrios feitos por moradores orgulhosos. Aos olhos dos visitantes, existe apenas uma placa na entrada do municpio, e nada mais, indicando que o escritor nasceu por l. O imvel que pertenceu famlia de Graciliano e que continua de p, bem ao lado direito da prefeitura, no tem referncia alguma sobre o passado. Sua fachada foi alterada, perdendo os detalhes coloniais para paredes lisas, pintadas com uma cor clara, entre o verde e o azul. A prefeitura j tentou compr-la, mas o atual proprietrio, o fazendeiro Sebastio Silveira Lima, recusou-se a vend-la.

Temos vontade de fazer algo com a casa, talvez um museu. E outra coisa em que j pensei foi convocar um plebiscito para alterar o nome da cidade, de Quebrangulo para Graciliano Ramos conta o prefeito. Acho que seria de grande valia para a nossa imagem.

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Parte 2

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.

 

 

 

 

 

Na planice avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
(trecho de “Vidas secas”, de 1938)

 

A grande obra da literatura brasileira a tratar do tema da seca foi publicada em 1938. O ttulo era direto e resumiu bem o sentimento de milhes de nordestinos. Vidas secas foi o quarto livro lanado por Graciliano Ramos depois de Caets (1933), So Bernardo (1934) e Angstia (1936) e, hoje, seu romance mais representativo, com 120 edies no Brasil e tradues para mais de 20 idiomas.

Inspirada em muitas das histrias que Graciliano acompanhou desde a infncia, a trama de Vidas secas mostra como uma famlia de retirantes guiada pelo pai Fabiano e acompanhada pela cachorra Baleia, dois dos personagens mais famosos da literatura nacional parte em busca de uma condio mais humana para a sobrevivncia. No h um trajeto definido no livro, mas as paisagens descritas pelo autor ainda esto presentes em vrios cantos do interior do Nordeste, no somente em seu estado natal.

Em 1895, a famlia de Graciliano deixou Alagoas para viver em Buque, cidade do serto de Pernambuco, prxima a Garanhuns, hoje com 52 mil habitantes. Porm, apesar do nmero maior de pessoas, na memria coletiva de Buque h ainda menos sobre o escritor do que em Quebrangulo. Apenas sua biblioteca municipal, inaugurada em maio de 2002, leva o nome de Graciliano Ramos. Em conversas com uma dezena de buiquenses, poucos sabem dizer quem exatamente foi o escritor. Mesmo um vaqueiro sentado numa calada a menos de dez passos da biblioteca afirma que nunca ouviu falar nele.

H alguns anos, havia, ao menos, uma placa numa casa que pertenceu aos pais de Graciliano, indicando aos visitantes quem foi o famoso morador. Um proprietrio recente, contudo, resolveu no s tirar a placa como reformar completamente o imvel antigo, transformando-o numa loja de confeco, igual a todas as outras. essa loja que funciona hoje na casa em que o escritor morou. Os vizinhos ainda se lembram que havia uma placa l h uma dcada, mas uma jovem vendedora da loja, perguntada sobre Graciliano, responde com carinha de esperta como quem fosse ganhar um prmio: No nossa biblioteca?

O mesmo tempo que fez com que Graciliano passasse a ser praticamente ignorado em Buque no privou a cidade das vidas secas que o autor descreveu no passado. Buque teve que decretar estado de emergncia para tentar combater os efeitos da estiagem. Sua situao to ruim ou talvez pior do que a dos municpios alagoanos: como a Barragem do Mulungu, a principal que abastece a cidade, secou quase completamente, seus moradores no recebem gua nos encanamentos das casas desde janeiro. At mesmo o hospital municipal vem dependendo de carros-pipa.

Para suprir a necessidade, uma nova categoria profissional proliferou em Buque: o vendedor de gua. Os donos de casas e fazendas que contam com poos artesianos perceberam a carncia e passaram a oferecer seu excedente para seus concidados. No de graa, claro. Mil litros de gua, se comprados diretamente na propriedade do dono do poo, custam cerca de R$ 10. J se comprados com os entregadores que percorrem diariamente a cidade, custam entre R$ 25 e R$ 30.

Assim, raro caminhar mais de cinco minutos por Buque sem ver algum carregando um balde de gua no carro, na moto, no cavalo, na cabea ou onde mais houver espao.

Gasto R$ 120 por ms com gua, numa casa em que moram apenas duas pessoas conta a tcnica de enfermagem Ieda Maria Sousa. Tenho que reaproveitar a gua o tempo todo. A que usamos para lavar roupa tambm usada para a descarga. E estamos sempre economizando. Mas o nordestino um cabra forte. A gente d um jeito.

O que todos se perguntam at quando possvel dar um jeito. Na zona rural de Buque, num terreno com duas casas geminadas, duas famlias, que renem um total de 17 pessoas, dividem 16 gales de gua diariamente. Gastam R$ 40 e cerca de trs horas para, todos os dias, sair de casa, ir at uma fazenda mais ou menos prxima, pegar a gua e voltar. Os filhos, inclusive os menores, tm que se revezar na tarefa de trazer, numa carroa puxada por cavalos, os gales cheios.

No d para ficar aqui, no. No ano passado, fui para So Paulo trabalhar na colheita de cana. Voltei em novembro, mas quero ir de novo para So Paulo diz Flvio Jos da Silva, rapaz de 22 anos que, quando est em Buque, depende de bicos para ter alguma fonte de renda.

O drama se estende ainda mais porque a gua no um bem necessrio apenas para a higiene e para matar a sede. O que qualquer sertanejo bem sabe, e Graciliano Ramos explorou em exausto em seus livros, que a natureza e o homem se misturam no campo. Mas, na seca, quem deveria viver unido acaba morrendo separado. Em vrios pontos do percurso entre Buque e Alagoas, o drama nordestino mostra uma de suas facetas mais duras: o gado morto, abandonado na beira da estrada, sem dono ou responsvel.

Para quem depende exclusivamente da agropecuria, perder um animal quase como enterrar um parente prximo. Os cemitrios de gado, que esto em todos os cantos, em todas as cidades afetadas pela seca, atraem urubus e exalam um cheiro difcil de se esquecer.

No estou nem comendo carne de boi porque a gente v tanto bicho morto na estrada que isso me d um enjoo muito grande afirma a feirante buiquense Josefa Correa dos Santos, de 50 anos. Por causa da seca, tudo o que eu vendo aqui na feira est muito caro. E, como est caro, eu mal consigo vender. um negcio muito ruim. a pior seca que eu j vi.

Em Buque, enquanto Josefa trabalha na feira, crianas correm em torno de um boi morto, dentro de uma fazenda, a menos de dez metros de uma estrada de terra. Pequeninas, elas passaram por entre a cerca de arame farpado com o intuito de atirar pedras nos urubus que comiam os restos do animal.

Para as crianas, trata-se de uma brincadeira. Para a cidade, um sinal da tragdia.

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Parte 3

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.

 

 

 

 

 

Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transaes comerciais de armas engatilhadas. (Paulo Honrio, protagonista de So Bernardo, de 1934)

 

Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, municpio de Viosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade So Bernardo, onde trabalhei, no eito, com salrio de cinco tostes, escreveu Graciliano Ramos em So Bernardo, o seu segundo romance. O livro conta a histria de Paulo Honrio, homem de origem humilde, empreendedor, que vai acumulando riquezas, numa tpica trama de ascenso social que, aos poucos, torna-se uma de derrocada pessoal.

A paisagem escolhida para ambientar a trama foi uma das mais agradveis pelas quais Graciliano passou, uma cidade na Zona da Mata alagoana que, por suas belezas naturais, ganhou o apelido de Princesa das Matas. Foi em 1899 que seus pais, Sebastio Ramos de Oliveira e Maria Amlia Ferro Ramos, deixaram Pernambuco e se mudaram para Viosa. A famlia viveu l poucos anos, tirando sua renda de uma loja de tecidos, localizada na praa principal da cidade. O imvel existe at hoje e conserva sua fachada histrica, mas abriga o arquivo da prefeitura sem placas ou referncias sobre Graciliano Ramos.

Atualmente com cerca de 26 mil habitantes, Viosa tem metade do tamanho de Buque, mas claramente mais bem preservada e desenvolvida. Lembra Quebrangulo pelos prdios histricos e ambiente acolhedor, porm maior, com um comrcio mais robusto. Alm disso, a cidade tem uma movimentao turstica regular, muito por conta de suas belezas naturais. nas redondezas de Viosa que fica a Serra Dois Irmos, com cachoeiras, trilhas e o local onde o lder negro alagoano Zumbi dos Palmares foi morto em 20 de novembro de 1695.

S que, com a seca, o volume de gua no incio do ano no foi suficiente para dar vazo s cachoeiras de Viosa. O municpio teve que decretar, em meados de abril, estado de emergncia. O panorama se tornou crtico quando o Rio Caamba secou, e a prefeitura precisou reativar uma pequena barragem, no utilizada havia 12 anos, para tentar acumular gua.

Minha gerao nunca havia visto uma seca assim afirma o escritor Audlio Honorato, autor do livro Viosa viva. Antigamente, as pessoas passeavam de canoa no Rio Paraba. Este ano, o rio se transformou em pedras. Eu lembro quando apareceram os primeiros carros-pipa por aqui, e muitos nem sabiam o que era carro-pipa.

Prximo a Viosa foram gravadas cenas do filme So Bernardo (1972), de Leon Hirszman, com roteiro baseado no livro de Graciliano. Manoel dos Passos Vilela, o V, hoje com 64 anos, foi figurante em So Bernardo. Seu papel era mnimo: sem dilogos, ele viveu um deputado estadual que aparecia todo vestido de branco numa estao de trem, ao lado do governador.

A participao de V no filme no lhe rendeu cach, mas a experincia j indicava seu futuro profissional. No o de ator, cuja carreira se resumiu a So Bernardo, e sim o de poltico. V foi vereador por cinco vezes e est no segundo mandato de vice-prefeito. O Vilela em seu sobrenome revela um parentesco com o antigo senador Teotnio Vilela (1917-1983) e com seu filho, Teotnio Vilela Filho, atualmente governador de Alagoas, ambos naturais de Viosa.

O apelido vem da juventude. Como era mais alto e aparentava ser mais velho do que os outros alunos, passaram a cham-lo de V. O ttulo tem tudo a ver com seu jeito tranquilo, bem-humorado, de quem gosta de contar histrias sobre o passado misturando realidade e fantasia. O prprio V admite que sua memria ruim.

Talvez por isso, para ajud-lo a se recordar, V tenha fundado h 15 anos o Centro de Tradies Populares Synfrnio dos Passos Vilela Museu do V. O Centro, que leva o nome de seu pai, fica numa casa que pertenceu a seu sogro e que abriga desde maquetes at bonecos do folclore viosense. Numa sala no final do corredor de entrada, a que V diz ser a mais visitada, h uma srie de fotos de pessoas que j morreram, numa seo batizada de Amigos do V.

Dentro do museu, V faz questo de procurar algum objeto que remeta a Graciliano Ramos. Tenta na estante de livros, mas no encontra suas obras. Depois pensa, anda por uma sala repleta de imagens religiosas, reafirma sua certeza de que h alguma referncia, vai at os fundos da casa e, bem no final, no final mesmo, retira um quadro encostado na parede para revelar, por trs, um tecido escuro no qual se v o rosto de Graciliano pintado.

Eu sabia que tinha brada V. O Graciliano foi uma grande influncia para todos da regio. Ele olhava para o futuro. Para ele, o futuro no era um carro. Era uma locomotiva. No era uma asa-delta. Era um avio. No era um barquinho. Era um transatlntico.

Foi em Viosa que Graciliano estreou no universo literrio, com a publicao do conto O pequeno pedinte no jornal O Dilculo, um peridico feito por alunos do Internato Alagoano, onde estudava. A data foi 24 de junho de 1904. Graciliano tinha 11 anos e escolheu para tema de seu conto um menino que passava os dias pedindo esmola pelas ruas.

Quantas noites no passara dormindo pelas caladas exposto ao frio e chuva, sem o abrigo do teto. Quantas vergonhas no passara quando, ao estender a pequenina mo, s recebia a indiferena e o motejo, escreveu Graciliano.

Parece ingnuo imaginar que, aos 11 anos, aquele menino j se preocupava com os problemas sociais do pas. Mas tambm seria injusto ignorar que, em praticamente toda a obra de Graciliano, questes como excluso foram exploradas. Tanto na obra literria, quanto na poltica. E foi em ambas que sua trajetria se encontrou com Palmeira dos ndios, cidade em que escreveu a maioria de seus livros, casou-se duas vezes, teve seis de seus oito filhos e foi eleito prefeito.

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Parte 4

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.

 

 

 

 

 

 

Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que fala aos berros e efetuei transaes comerciais de armas engatilhadas. (Paulo Honrio, protagonista de So Bernardo, de 1934)

Leva-se, de carro, cerca de meia hora de Viosa a Quebrangulo. E mais meia hora de Quebrangulo para Palmeira dos ndios. S que o tempo da modernidade no o tempo da seca. O gado, para sobreviver, no pode esperar muito por alimento e gua. Homens e mulheres, por mais calejados que estejam por anos e anos de seca, tambm no.

Alguns vo embora. Outros se rebelam, mas s vezes difcil escolher contra quem direcionar sua revolta. Os governos, para quem mora numa pequena casinha no meio do campo, a horas de distncia de algum centro urbano, parecem inalcanveis. Os vizinhos, por mais que sejam objeto de cime e intriga, principalmente quando aparecem com uma caixa dgua cheia sabe-se l como, em geral passam pelas mesmas dificuldades. E Deus? Deus, repetem todos, significa a salvao.

Logo em Paulo Jacinto, um municpio no caminho entre Viosa e Quebrangulo, de 7.500 habitantes, pode se ter uma ideia dos efeitos da seca. Numa sexta-feira, um carro-pipa leva gua para distribuir entre as casas, mas no h o suficiente para todas. Desde fevereiro, quando a seca se agravou, os motoristas dos carros passaram a alternar as residncias. Quem no recebe numa ocasio, tem sua oportunidade trs dias depois.

O que se segue, porm, to duro de descrever quanto de lembrar. As pessoas gritam. No por dinheiro, comida ou terra. Gritam por gua. Os moradores de Paulo Jacinto cercam o caminho e exigem que o motorista encha todos os baldes. Aposentada, com 56 anos, Marlene Lopes da Silva consegue encher dois. Ela prpria carrega um em cada mo, enfrenta uma fila, briga com o motorista e depois retorna para casa ao lado do marido, Miguel Antnio da Silva, de 90.

O motorista disse que Deus ia reclamar comigo porque eu peguei gua na segunda-feira e voltei hoje. Como ele pode dizer uma coisa dessa? afirma Marlene, entre a revolta e o choro.

Enquanto Marlene se lamenta, um grupo de moradores consegue puxar a mangueira do carro-pipa para dentro de uma casa, para encher uma caamba. Dois policiais chegam para tentar manter a ordem, mas h mais de duas dezenas de pessoas em torno do carro-pipa. Seguem reclamando, gritando, exigindo o direito gua. Ao se despedirem, dizem, um por um: Deus os leve.

A f no exclusiva dali, e Deus lembrado em muitas das respostas dos alagoanos. Nos municpios prximos a Palmeira dos ndios, cenas como a de Paulo Jacinto vo se repetindo, a qualquer hora. Pela estrada, pessoas carregam baldes. Nos leitos dos rios ou nos audes secos, os mais humildes tentam retirar o que for possvel. Cavam buracos no solo mido, rezando para que algum sinal de esperana escorra da terra.

H dois anos no chove direito. E agora piorou. A nica coisa que a gente pode fazer esperar que Deus mande alguma coisa afirma a dona de casa Maria Solange Soares, que mora com cinco filhos e o marido numa casinha de taipa na beira da rodovia BR-316, prximo ao municpio Estrela de Alagoas (17 mil habitantes), e recebe a ajuda do Bolsa Famlia.

Apesar de menos comuns do que na poca de Graciliano Ramos, as casas de taipa ainda so fceis de se avistar no interior do estado. Elas so feitas numa estrutura de galhos de rvore coberta por barro, e so mais conhecidas ao sul do pas como casas de pau-a-pique. So extremamente quentes e bem pequenas, sobretudo para famlias que s vezes passam de dez integrantes. Costumam ter imagens religiosas e fotos dos filhos nas paredes. A sala serve de quarto de dormir; o quarto de dormir serve de sala de jantar; o banheiro fica na parte de fora, geralmente atrs da cozinha. Na de Maria Solange, a telha do teto foi malfeita e deixou frestas por onde entram constantes fachos de luz.

No muito longe dali, num povoado isolado do municpio sertanejo de Santana do Ipanema (45,5 mil habitantes), mora Jos Maria Vieira da Silva, de 56 anos. Ele tem 9 filhos, mas apenas trs vivem em Alagoas. Quatro j desistiram de tentar a sorte na seca e foram para So Paulo. Outros dois, de 18 e 20 anos, estavam na casa de amigos, bebendo e festejando. Iriam embora, tambm para So Paulo, dali a dois dias.

Quando tem chuva, tem servio. Quando no tem, a o problema explica Jos Maria.

A histria de Jos Maria tem um qu de Brasil esquecido. Ele descendente quilombola e sempre viveu na zona rural. O terreno da casa em que vive h cerca de uma dcada veio por projetos de assentamento de reforma agrria, e ele ainda deve R$ 17 mil ao banco para quitar o valor da moradia.

Quando eu era moo, meu pai me tirou do estudo e me jogou para a enxada. Ento no sei ler. S sei assinar meu nome a pulso conta. Se eu pudesse, com certeza tambm iria para So Paulo. Aqui est muito ruim para sobreviver. Antes a gente at pescava, mas com o rio assim h dois anos, no d.

O Rio Ipanema passa bem em frente casa de Jos Maria, mas est completamente seco na regio. Descendo um barranco ngreme, possvel caminhar pelas pedras no que outrora foi o fundo do rio. O que marca a paisagem rida um jumento morto que foi jogado l por alguns moradores. Sem gua, o Ipanema acabou se tornando mais um cemitrio de gado.

So muitas as histrias dessas novas vidas secas presentes no interior de Alagoas, muitas delas comparveis trajetria da famlia de Fabiano, criao literria de Graciliano. Nenhum morador das pequenas casas daquela zona rural, porm, jamais havia ouvido falar no escritor.

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Parte 5

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.

 

 

 

 

 

Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovaes, no se dedicaram a nada. (Relatrio de Graciliano como prefeito de Palmeira dos ndios)

 

Graciliano deixou Viosa em 1905, para estudar em Macei. Ficou na capital alagoana por cinco anos, onde, ainda adolescente, passou a colaborar regularmente com jornais e revistas, publicando sonetos e assinando com pseudnimos como Feliciano de Olivena e Soeiro Lobato.

Exatamente no dia em que completou 18 anos, em 27 de outubro de 1910, ele se mudou para Palmeira dos ndios, municpio que seria a base para sua vida pblica, tanto de escritor quanto de poltico. Hoje, Palmeira dos ndios certamente a cidade mais lembrada quando se fala de Graciliano Ramos o que no significa que Palmeira dos ndios se lembre bem do autor.

Palmeira tem mais de 70 mil habitantes, e uma economia apoiada na pecuria leiteira. o terceiro maior municpio de Alagoas em populao. A cidade tem seis universidades e se orgulha de estar se tornando um polo educacional para o interior do estado. Por outro lado, o espao para a cultura vem diminuindo. Logo no incio de seu segundo mandato, iniciado em janeiro, o prefeito James Ribeiro (PSDB) fechou a Secretaria de Cultura, transferindo suas atribuies para a pasta da Educao.

Em Palmeira dos ndios, no se faz nada pela cultura, quanto mais para preservar o nome do meu pai diz, por telefone, a alagoana Luiza Ramos Amado, de 82 anos, nica dos oito filhos de Graciliano ainda viva, que hoje mora em Salvador. Em Macei tambm se faz pouqussimo. Se voc pensar na maior parte dos polticos que Alagoas tem hoje, d para compreender a razo.

Alm de um busto instalado na entrada da cidade boca pequena, muita gente diz que a imagem no se parece em nada com o escritor , a principal homenagem a ele em Palmeira dos ndios a Casa Museu Graciliano Ramos, fundada em 1973. Como o nome sugere, o local nada mais que a casa em que o autor morou, hoje adaptada para um museu. Ela abre diariamente, mas recebe apenas cerca de 30 visitantes por semana.

Para se compreender a baixa frequncia, basta visitar a Casa. O imvel bom, manteve o jeito antigo, com paredes grossas, salas espaosas e tetos altos. O grande problema ali a organizao do espao. A maioria dos objetos no tem identificao alguma. Numa sala, h uma rede, gravuras, utenslios de cozinha, algumas sandlias, um colete de couro velho e uma espingarda. Qual a relao entre eles? S perguntando para tentar entender.

Ainda assim, uma simples pergunta feita aos funcionrios que ficam no museu pela manh todos muitos simpticos e atenciosos fica sem resposta. Ningum sabia dizer em que cmodo Graciliano Ramos dormia.

O Graciliano nunca vai deixar de ser uma referncia alagoana, mas, no dia a dia, nossa visitao mais de gente de fora. Acho que o nome dele passou a ser to habitual para os moradores de Palmeira que se tornou menos atraente explica Marcos Omena, diretor da Casa Museu. Tnhamos uma proposta de fazer em 2012, na celebrao dos 120 anos de nascimento do Graciliano, uma programao com exibio de filmes, apresentao de peas e outras atividades para mobilizar a cidade. O oramento era de menos de R$ 30 mil. Mas no tivemos como execut-lo.

Fora da Casa, em conversas com os moradores de Palmeira dos ndios, tambm raro encontrar algum entusiasmo sobre a obra de Graciliano. Os assuntos que dominam hoje as rodas de conversas na cidade so um processo em curso de demarcao de terras indgenas (a regio serviu, sculos atrs, de aldeia da tribo Xucuru) e, claro, a seca.

A juventude daqui preguiosa para ler diz Ivan Barros, jornalista, promotor aposentado e escritor palmeirense, autor de Graciliano Ramos era assim (1984). Mas, em termos nacionais, o Graciliano tido como um cone.

J estabelecido em Palmeira como comerciante de tecidos, Graciliano concorreu ao cargo de prefeito em 1927, quando escrevia Caets, seu primeiro romance, passado na cidade e com direito a descries sobre sua rotina e relaes sociais. O livro narrado em primeira pessoa, sob o ponto de vista de Paulo Valrio, um homem que se apaixona pela mulher de seu patro, numa histria que levar a tragdias e arrependimentos.

Mas, antes de lanar Caets, Graciliano fez sucesso com outro tipo de publicao. Ele foi prefeito entre 1928 a 1930. No perodo, escreveu relatrios para o governo de Alagoas, prestando contas de sua gesto e fazendo um balano sobre o que conseguiu realizar em seu mandato. Eram textos que, alm de descrever gastos e dificuldades do municpio, traziam ironias e reflexes acerca do cargo.

Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovaes, no se dedicaram a nada, escreveu Graciliano. Houve lamrias e reclamaes por se haver mexido no cisco preciosamente guardado em fundos de quintais; lamrias, reclamaes e ameaas porque mandei matar algumas centenas de ces vagabundos; lamrias, reclamaes, ameaas, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praas, acrescentou.

Por sua qualidade, os relatrios circularam pelos meios intelectuais. O poeta e editor carioca Augusto Frederico Schmidt foi um dos que teve contato com os textos e procurou Graciliano. Resultado: Caets foi publicado em 1933, pela editora Schmidt, de propriedade de Augusto Frederico.

De certa forma, a carreira de prefeito de Graciliano ajudou a dar origem sua carreira literria.

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Parte 6

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.


 

 

 

 

 

Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo anos bons misturados com anos ruins. (Trecho de Vidas secas, de 1938)

Os admiradores de Graciliano Ramos adoram contar uma histria, um tanto folclrica, sobre uma norma decretada por ele quando prefeito. Com o objetivo de tentar diminuir a desordem na cidade, ele publicou uma lei para que fossem multados todos aqueles que deixassem animais solta nas ruas. At que, certo dia, o fiscal da prefeitura encontrou vacas de Sebastio Ramos de Oliveira, pai de Graciliano, em situao ilegal. E lhe tascou a multa.

Sebastio, ento, foi reclamar com o filho. Como assim voc vai me multar? Eu sou seu pai, disse. Impvido, apoiado na certeza da lisura pblica, Graciliano rebateu com uma frase que, verdade ou mentira, poderia servir de exemplo para a atual poltica brasileira: Prefeito no tem pai.

Muita gente gosta de falar que ele era uma pessoa carrancuda, mal-humorada. Mas minha av contava que ele no gostava era de conversa besta. No respondia perguntas imbecis e, por isso, parecia chato diz Jos Clvis Soares Leite, sobrinho-neto de Graciliano e atual chefe de gabinete da prefeitura de Palmeira dos ndios. S no tenho como mentir para voc: o Graciliano realmente no tem uma presena forte aqui na cidade. Existe um projeto pronto para fazer um grande centro de convenes que levaria seu nome, com museu e biblioteca. Mas at agora nada foi acertado.

Enquanto a prefeitura no se mexe para oficialmente aumentar a projeo do nome de Graciliano em Palmeira dos ndios, cabe a fs e parentes tentar manter sua memria viva. Alm de Jos Clvis, h algumas dezenas de sobrinhos e primos do autor vivendo hoje na cidade. Nenhum deles o conheceu pessoalmente, mas a maioria se diz orgulhosa da genealogia famosa.

Infelizmente Alagoas tem pouca memria sobre seus filhos diz o agrnomo Marcos Ramos, de 68 anos, sobrinho de Graciliano. Se voc for para Assar, no Cear, vai ver que a economia da cidade gira em torno do Patativa. Mas aqui, nem mesmo a Casa Museu do Graciliano bem conservada. Aquilo horrvel.

Aos 68 anos, Marcos Ramos tido como o parente mais prximo e mais atuante na preservao da memria de Graciliano em Palmeira dos ndios. Filho de Amlia, uma das irms do escritor, ele nasceu na cidade e , hoje, um fazendeiro respeitado. Na zona rural, os outros fazendeiros e tambm os pees o chamam de doutor Marcos.

Uma das propriedades da famlia de Marcos, hoje sob os cuidados de seu filho Thiago, a fazenda Traipu. Ela fica em Minador do Negro, municpio sertanejo vizinho a Palmeira, com 5,3 mil habitantes, e que se tornou parte da mitologia em torno de Graciliano Ramos por ter sido utilizada, no incio dos anos 1960, como locao para Vidas secas. O filme foi dirigido por Nelson Pereira dos Santos e um dos clssicos do cinema brasileiro, to importante quanto o livro.

Na poca do filme, a fazenda era do meu sogro conta Marcos. Hoje, ela continua do mesmo jeito, principalmente por causa dessa seca.

Palmeira dos ndios fica no limite do agreste alagoano, quase no serto, e tambm decretou estado de emergncia por conta da estiagem. Em situaes de seca, os fazendeiros costumam alimentar os animais com a palma, um tipo de cacto nutritivo, com poucos espinhos e resistente s adversidades climticas do Nordeste. Assim, para se precaver, comum que os fazendeiros reservem parte de seus terrenos para a plantao de palmas e, em alguns casos mais extremos, o cacto utilizado at mesmo na alimentao humana.

A seca de 2013, porm, tem sido to severa que nem mesmo a palma vem resistindo falta de gua: a planta no tem crescido suficientemente ou tem morrido. Por isso, h fazendeiros apelando para o uso do mandacaru tambm um cacto, mais resistente que a palma, porm geralmente espinhoso como rao. O mandacaru considerado um ltimo recurso para alimentar os animais, mas precisa ser utilizado com cuidado por causa dos espinhos, que devem ser arrancados ou queimados. um risco que os criadores de gado precisam correr.

De dois anos para c, nossa produo de leite diminuiu em 80% relata Thiago Costa, filho de Marcos Ramos. Teve gente que se suicidou porque perdeu todo o gado.

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Parte 7

Em meio pior estiagem das ltimas cinco dcadas, percorremos o interior de Alagoas e Pernambuco, visitando cidades ligadas trajetria do autor de Vidas secas, homenageado da Flip 2013. Lugares como Quebrangulo, terra natal do escritor, e Palmeira dos ndios, onde ele foi prefeito, mostram a persistncia de antigas mazelas e a resistncia de seus habitantes.

 

 

 

 

 

 

Dificilmente pintaramos um vero nordestino em que os ramos no estivessem pretos e as cacimbas vazias. (Trecho de Infncia, de 1945)

 

De acordo com o Ministrio da Cincia, Tecnologia e Inovao (MCTI), a seca de 2013 uma das piores dos ltimos 50 anos tanto do ponto de vista hdrico quanto por seu impacto social. A informao integrou o relatrio das Naes Unidas para o Brasil, publicado em abril.

Ainda segundo o MCTI, h registros de outras grandes secas em 1877, 1914, 1932, 1945, 1953, 1965, 1993 e 1998. A diferena para a deste ano, porm, est em sua durao: a estiagem vem desde 2012, e pouca gente estava preparada para passar tanto tempo sem gua.

No interior nordestino no existe um nico morador que consiga ficar alheio ao problema. Com Vidas secas, publicado em 1938, Graciliano ajudou a mostrar essa dura realidade ao resto do pas. Porm, j quando prefeito de Palmeira dos ndios, ele escreveu no relatrio de prestao de contas do exerccio de 1928: O municpio pobre e demasiado grande para a populao que tem, reduzida por causa das secas continuadas.

O tempo de Graciliano na seca no durou muito mais. Em 1930, ele renunciou ao mandato de prefeito de Palmeira, mudou-se para Macei e assumiu o cargo de diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Em 1933, foi nomeado diretor da Instruo Pblica de Alagoas, rgo que cuidava da educao do estado.

Depois, passou a vida entre Alagoas e Rio de Janeiro, numa bem sucedida carreira de escritor, publicando obras como livro infantojuvenil A terra dos meninos pelados (1939), at morrer, vtima de um cncer no pulmo, em 20 de maro de 1953. Uma de suas obras mais clebres, Memrias do crcere, um relato sobre o perodo em que ficou preso na Ilha Grande, no Rio, durante o Estado Novo de Getlio Vargas, seria lanada postumamente ainda naquele ano, poucos meses aps sua morte.

Mas o que talvez nem Graciliano imaginasse que as secas continuariam ocorrendo por muitos e muitos anos, e seus efeitos no teriam uma soluo definitiva. E que, apesar das poucas referncias a ele que existem hoje nas cidades onde morou, sua obra ainda est presente em muitos dos dramas de quem vive no serto.

Em Minador do Negro, prximo fazenda em que foram rodadas cenas de Vidas secas, por exemplo, funciona a Escola Municipal Antnio Sapucaia. O local isolado, no meio de uma estrada de terra sem muitas outras casas vista, mas serve de ponto de distribuio de gua para os vizinhos. Cerca de 50 famlias dependem dos carros-pipa que apareciam por l duas vezes por semana.

Numa conversa com Mauricelia Cavalcante, professora do ensino fundamental da escola, ela prpria, sem saber que se tratava de uma reportagem sobre o escritor, fez um pedido que misturava cinema com televiso, televiso com jornal e sonho com realidade.

J que vocs so da Globo, podiam fazer um novo Vidas secas por aqui. Para mostrar como esto as coisas hoje, iguais ao tempo de quando Graciliano era vivo diz a professora.

o tempo cujo ritmo distinto para Mauricelia, para Manoel Gardino, para Jos Maria, para Marlene Lopes e para todos os personagens das novas vidas secas nordestinas que responde pelas angstias e tambm pelas esperanas do povo. Ainda em Minador, o fazendeiro Ari Barros aprendeu que apenas ele, o tempo, pode curar suas feridas.

Ari tinha 80 cabeas de gado antes da seca. Hoje, restam oito. Alguns dos 72 animais mortos entre dezembro de 2012 e abril de 2013 foram colocados num leito de rio, seco, dentro de seu terreno, formando um desolador cemitrio sem lpides, com dezenas de vacas mortas espalhadas pelo solo. Ari diz no ter mais lgrimas para lamentar a seca. Diz ter morrido um pouco com cada animal que se foi. Diz que o estado de calamidade e que s lhe resta esperar por Deus.

Aos 36 anos, com uma filha de 3, ele j pensou em ir embora, mas no quer abandonar a fazenda que pertenceu a seu pai e seu av. Ari, ento, sugere cantar uma toada que ele prprio comps, e, posicionado em meio aos animais mortos, abre o corao:

, meu Deus, o que eu fao/ Vendo meu gado se acabando/ Sertanejo chorando/ Sem nenhuma remisso./ No existe mais rao,/ Agora lgrima e tristeza./ Chora toda natureza/ Quando h seca no serto.

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“A palavra no foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso.
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em entrevista a Joel Silveira, 1948