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jul.13: Cultura a servio do povo

Publicado em 01 d julho d 2013

Cultura a servio do povo (1)

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Camaradas:

No sei bem se o que lhes vou dizer nesta conversa ligeira combina com o ttulo dela, anunciado no jornal. Escapou-me a notcia, possvel que me afaste um pouco da matria comunicada aos leitores.

Bem. Para no estarmos com prlogos, entro no assunto e declaro que, na minha fraca opinio, antes de vermos no livro um veculo de cultura, devemos consider-lo simples mercadoria. Evidentemente ele no uma graa de Deus, como a luz do sol e a gua da fonte: encerra o esforo de numerosas pessoas, do trabalho complexo do autor rija labuta do impressor. Sem levarmos em conta as fases anteriores e posteriores a isso: a fabricao do papel, da tinta, das mquinas, dos cordis; a distribuio, a propaganda e at o que neste momento realizamos, pois, confessemos honestamente, exercemos aqui o ofcio de camels.

Esta minha declarao chocha retira ao livro, objeto pouco mais ou menos intil massa e apenas acessvel aos iniciados, o carter de coisa misteriosa a que desde a infncia nos habituamos. Criou-se uma espcie de tabu vantajoso classe dominante: a sabedoria dos compndios foi durante sculos e continua a ser meio de opresso. Sujeitos hbeis reuniram ideias safadas e adularam, sem nenhuma vergonha, os seus patres horrorosos. A imprensa sadia instituio velha, anterior aos tipgrafos, j usada pelos escribas do Egito.

Deixemos os escribas do Egito. Se meter-me em funduras, daqui a pouco estarei falando difcil, empregando a linguagem que desvia dos pensamentos arrumados na folha o homem da multido. Volto ao que afirmei no comeo: o livro mercadoria. As metralhadoras tambm so mercadorias, que, at hoje utilizadas contra o povo, iro resguard-lo. intuitivo, porm, que de nada serviro se ele no souber manej-las.

A verdade que nem todos os livros cantam loas aos tiranos. A desgraa dessa gente perceber que as suas armaduras racham, a sua fora se esvai, os seus defensores se transformam de repente em inimigos. A palavra escrita arma de dois gumes. A literatura velha arqueja e sucumbe; a literatura nova fere com vigor a reao desesperada. No nos ocupamos da primeira, est visto; deixaremos que se enterre, no silncio, na penumbra e no mofo, com algum latim resmungado pelos crticos da LEC.(2) A segunda a que nos traz a esta sala, encerra-se nos volumes aqui expostos. Precisamos conhec-la de perto. claro que nada ganharemos olhando, com respeito, esses volumes protegidos por uma vitrina. Indispensvel sabermos o que h dentro deles. Vimos numa capa o nome de Mximo Gorki e experimentamos o desejo de largar uns palpites sobre ele, atrapalhando tudo. Recuamos a tempo e na reunio da clula ouvimos, bastante chateados, referncias ao admirvel russo, num informe. Contudo, a recordao da vitrina permanece, garantimos que Mximo Gorki notvel. Temos de cor uma lista de personagens clebres, afirmamos a celebridade, mas seria difcil dizermos em que ela se baseia. Asseres que nos fizeram na escola, repetidas longamente, foram aceitas afinal. Em vo tentamos adivinhar como subiram certos figures das letras nacionais. Vi um tipo quase chorar lendo a notcia da morte de um literato conde.

Necessrio conhecermos a razo dos nossos entusiasmos, no nos comovermos toa. Vamos ver se a pgina impressa digna de admirao. Tratemos, pois, de adquiri-la: para ser vendida que se exibe alm do vidro. Terra de leitura escassa. Vemos filas para banha, acar, po, carne, o diabo, mas no conceberamos fila diante de uma livraria. Realmente ali no se vendem comestveis. Contudo bom um sujeito ler algumas vezes, ao menos para fingir importncia na presena do chefe ou da namorada.

Literatura ao alcance da massa? Muito bem. O livro est perto, mo, na vitrina. Foi redigido cuidadosamente: no interior dele no h cercas de arame farpado, evitaram-se atoleiros, rios cheios, pedras escorregadias e pinguelas, enfim qualquer inteligncia razovel pode transitar ali facilmente, por todos os lados. Agora esperemos que o homem do povo se mexa, d alguns passos at o balco da livraria, pea o volume. E pague, naturalmente, pois os cidados que mourejam naquilo no vivem no ter.

Rio, 28 de fevereiro de 1947

IN: RAMOS, Graciliano. Garranchos [organizao de Thiago Mio Salla]. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 293.

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Notas

1. Arquivo Graciliano Ramos, Manuscritos, Discursos, not. 12.22A. Ttulo atribudo pelo organizador. Palestra proferida por Graciliano no comit distrital Santos Dumont, rgo pertencente estrutura do PCB, no dia 1 de maro de 1947. Segundo o jornal Tribuna Popular, tal fala, intitulada “Cultura a servio do povo”, se deu no contexto da “Campanha do livro”, promovida pelo Partido, que pretendia, sobretudo, estimular a venda de obras das editoras de orientao comunista Vitria e Horizonte. Na oportunidade, o escritor alagoano foi homenageado pelo jornalista Astrojildo Pereira (GRANDE INTERESSE desperta a “Campanha do livro”. Tribuna Popular, Rio de Janeiro, 27 de fevereiro de 1947, p. 3).

2. Referncia Liga Eleitoral Catlica (LEC), uma associao civil de carter nacional criada em 1932, no Rio de Janeiro, por dom Sebastio Leme da Silveira Cintra, com o auxlio de Alceu Amoroso Lima. “Seu objetivo era mobilizar o eleitorado catlico para que este apoiasse os candidatos comprometidos com a doutrina social da Igreja nas eleies de 1933 para a Assembleia Nacional Constituinte e de 1934 para a Cmara Federal e as assembleias constituintes estaduais” (KORMIS, Mnica. LIGA ELEITORAL CATLICA (LEC). In: ABREU, Alzira Alves de et al [coords.]. Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro Ps-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010). Atuou ainda nos pleitos presidenciais de 1945 e de 1950, bem como nas eleies para a Assembleia Constituinte de 1946.

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“A palavra no foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso.
A palavra foi feita para dizer.”

em entrevista a Joel Silveira, 1948