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Mestre Graça não é piedade

Publicado em 20 de julho de 2013

Do jornal O Globo, Caderno Prosa
Por SILVIANO SANTIAGO
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O pensamento político em Graciliano Ramos é tão tosco, influente e múltiplo quanto as palavras, ferramenta de que se vale o escritor para dialogar consigo e com o leitor. Maneja a linguagem literária com vistas à expressão dos diferentes seres humanos, enigmáticos e complexos, que deseja dramatizar em texto impresso, cuja composição se enquadra num dos quatro gêneros em que se tornou mestre. Refiro-me ao romance, ao conto e às memórias, e também ao ensaio. Como andaime, suas frases lúcidas sustentam e mantêm de pé o trabalho criativo e divulgam o espírito batalhador e crítico.

A política não é decorrente de essência que entusiasma o estar no mundo do escritor cidadão e o supervisiona pelo lado de fora da vida. Não direciona e controla seus passos e sua mente aquém e além da língua portuguesa. A política é produto intrínseco à reflexão da imaginação criadora que deseja a perfeição e busca dar estilo ao produto artístico que fabrica em linguagem mínima e concreta, simples e direta, esclarecedora e convincente.

No encontro da escrita de Graciliano com a fala do brasileiro comum é que melhor se compreende suas opções estilísticas, de que é exemplo a que nos foi relatada pelo genro James Amado. Lembra ele certa ojeriza de Graciliano pelo cacoete modernista (ou oswaldiano) que se traduz pelo uso coloquial de “me dê”. Graciliano não encontrava base na realidade oral brasileira para tal forma e lhe opunha “dê cá”, que lhe parecia real e fluente. Não escreva “algo”, o mestre aconselha ao filho Ricardo Ramos, “é crime confesso de imprecisão”. Reticências? É melhor dizer que deixar em suspense. Exclamações? Ninguém é idiota para viver se espantando à toa.

Em Graciliano, a política é senhora de poucas palavras e mãe de muitos equívocos linguísticos que, lançados na folha de papel, devem ser imediatamente borrados e corrigidos pelo escritor atento e reflexivo. A política não pertence à família dos GPS, que querem direcionar a vida e a obra do cidadão. Ela é infatigável exercício das mãos e da caneta, unidas às evidências da criação literária, em que os defeitos/qualidades da vida cidadã e social, da vida histórica e econômica da nação, são postos à prova na folha de papel em branco.

Em “Memórias do cárcere”, lê-se este trecho revelador do fazer literário: “Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas”. Endurecido o coração, apaga-se o que deve ser apagado do passado como se borram os equívocos da expressão linguística. De tal forma e com tal intensidade são obliterados, que passado e expressões infelizes não ficam para falsificar na atualidade a marcha da História.

A utopia e os tempos verbais

O equívoco das pessoas de bom coração é o de acreditar que a preocupação com o som e o peso semântico das palavras no papel falsifica a sinceridade do escritor ou a verdade sobre os fatos. A prosa de Graciliano contradita o lugar-comum. Falsificadoras são as pessoas de bom coração. Repousam seu pensamento crítico numa verdade do passado, que se confunde com o que foi apreendido erroneamente e tantas vezes repetido. Um fato se torna verdadeiro no momento em que encontra um novo, justo e belo discurso ficcional ou poético, inventado a duras penas pelo artista.

“Máquina de comover”, disse Le Corbusier. João Cabral de Melo Neto repetiu a expressão à porta do seu livro “O engenheiro”. Lá a colhemos, juntamente com estes versos: “O lápis, o esquadro, o papel, / o desenho, o projeto, o número. / O engenheiro pensa o mundo justo, / mundo que nenhum véu encobre”.

Solares e óbvias, as ideias políticas que pensam o mundo justo se confundem com a correção da composição literária. Com a correção em todo e qualquer trabalho humano. Bem nomear pela linguagem é, pois, o primeiro passo político dado pelo princípio-esperança em direção à utopia.

Na sua época, Graciliano não poderia ter escrito o que estava na moda e o leitor desejava ler. Ele escreveu o que, em tempos de Jorge Amado, não desejávamos escrever e, em tempos de hip-hop e de blogs, não desejamos escrever. Ele não é brasileiro da gema, se me entendem. Não há possibilidade de ele escrever “tá” em lugar de “está”, “cê” em lugar de “você”. Erros de regência, concordância, nunca. Isso é o pior do atraso civilizacional. A escrita do romance “Vidas secas” — para ser literatura, no sentido em que a entendia Graciliano — teria de evitar todo e qualquer solecismo, todo fatal compromisso com a fala dos brasileiros desprivilegiados tal como representada pela mera reprodução fonética. Mestre Graça não é piedade. Mestre Graça é estilo. Estilo é política.

Dou-lhes um único e notável exemplo, tirado do romance “Angústia”. Luís da Silva lê pichado no muro o slogan “Proletários, uni-vos”, escrito sem a vírgula e sem o traço de união (aclaremos), e comenta: “Não dispenso as vírgulas e os traços. Quereriam fazer uma revolução sem vírgulas e sem traços? Numa revolução de tal ordem não haveria lugar para mim”. Outro autor brasileiro não usaria o futuro do pretérito (quereriam, haveria) para encontrar lugar na revolução; usaria o imperfeito (queriam, havia).

Sem o recurso ao futuro do pretérito não existe a noção esperançosa e concreta de utopia em “Vidas secas”. A utopia é menos um tema filosófico. Ela é tão rara quanto um tempo verbal marginalizado no presente, o futuro do pretérito, indispensável àqueles que querem pensar as asperezas e as alegrias da sua plena realização pelo homem na terra.

Nas profundezas da tragédia de “Vidas secas”, em contraste com a miséria do passado e com a emigração no presente, a utopia se escreve pelo futuro do pretérito: “A caatinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Os meninos gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a caatinga ficaria toda verde”.

Para que os deserdados possam pisar o mundo justo e sem véu do futuro é que se faz política em literatura.

É um equívoco apresentar a figura pública de Graciliano como um todo inalterável. Daí que o filho Ricardo Ramos, em “Retrato fragmentado”, tenha de se entregar a um primeiro trabalho de garimpagem na vastíssima e por vezes admirável bibliografia sobre o autor de “São Bernardo”. Reorganiza-a pela ênfase ou pelos excessos concedidos pela crítica a determinados detalhes problemáticos ou relativamente obscuros da personalidade do pai.

Graciliano — escreveu Ricardo — não é “personagem inteiriça, compacta, quase olímpica, sem a menor sombra de conflito ou dúvida”. Não é “criatura rude, sertanejo primitivo e pitoresco, o autodidata que certo dia simplesmente resolveu escrever”. Não é “um partidário, cego seguidor da regra política”. Não é tampouco o “intelectual cooptado”, que teve de se adaptar às regras ditatoriais do Estado Novo. Aceitar uma das quatro visões excessivas e excludentes como a principal determinante da personalidade de Graciliano “será aceitar o homem precisamente como negação da obra”, conclui o filho e biógrafo. Ao falar de política, não perpetuemos a negação da obra.


Silviano Santiago é escritor e crítico literário, autor do romance “Em liberdade” e de “Uma literatura nos trópicos”: ensaios sobre dependência cultural, entre outros livros. Recebeu esta semana o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, concedido pela Academia Brasileira de Letras

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em entrevista a Joel Silveira, 1948