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set.13: “Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra”

Publicado em 01 d setembro d 2013

Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra.

uma lembrana que, certamente, ser bem recebida pelo pblico, que, de ordinrio, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a idia fixa de muita gente. Com exceo, talvez, de um ou outro tsico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontap a uma bola de borracha, vai haver por a uma excitao, um furor dos demnios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um ms.

Pois qu! A cultura fsica coisa que est entre ns inteiramente descurada. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em lngua de preto, de cunho regional, mas por desgraa esto abandonados pela dbil mocidade de hoje. Alm da incua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanes sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianas, no temos nenhum exerccio. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de msculos lastimvel.

A parte de nosso organismo que mais se desenvolve a orelha, graas aos puxes maternos, mas no est provado que isto seja um desenvolvimento de utilidade. Para que serve ser a gente orelhuda? O burro tambm possui considerveis apndices auriculares, o que no impede que o considerem, injustamente, o mais estpido dos bichos.

Muito melhor ser dono de um brao capaz de rebentar um contendor, se ele fraco, ou de uma perna suficientemente gil para fugir, numa velocidade de lguas por minuto, se o inimigo forte.

Ora, no estado em que nos encontramos, no s no temos energia para atacar ningum, mas falta-nos at o vigor necessrio para recuar. O que comum conservar-se um pobre diabo num lamentvel estado de inrcia, a sofrer tormentos com resignao, coragem, se quiserem, mas coragem negativa, que muitas vezes no mais que inaptido para evitar o perigo.

Fisicamente falando, somos uma verdadeira misria. Moles, bambos, murchos, tristes – uma lstima! Plpebras cadas, beios cados, braos cados, um caimento generalizado que faz de ns um ser desengonado, bisonho, indolente, com ar de quem repete, desenxabido e encolhido, a frase pulha que se tornou popular: “Me deixa…”

Precisamos fortalecer a carne, que a inao tornou flcida, os nervos, que excitantes estragaram, os ossos que o mercrio escangalhou.

Consolidar o crebro bom, embora isto seja um rgo a que, de ordinrio, no temos necessidade de recorrer. Consolidar o muque timo.

Convencer um adversrio com argumentos de substncia no mau. Poder convenc-lo com um grosso punho cerrado diante do nariz, cabeludo e ameaador, magnfico.

O direito bonito. E s o que , segundo penso. Mas a fora til.

A paz de Santo Wilson, apstolo decadente e mrtir risonho, abriu falncia. Venceu a paz francesa, de mandbulas agressivas, e caninos mostra, pronta a estracinhar a terra germnica.

Se voltarmos a olhar para baixo, para o microcosmo social em que vivemos, o mesmo fenmeno. A razo est sempre ao lado de quem tem rijeza.

Ora, entre ns extremamente difcil encontrar um homem forte. Somos um povo derreado. Topamos a cada passo seres volumosos, mas raramente se nos depara uma criatura s, robusta. O que anda em redor de ns gente que tropea, gente que corcova, gente que arfa ao peso da barriga cheia de unto. andar um quilometro a p e ficar deitando a alma pela boca.

Para chegar ao soberbo resultado de transformar a banha em fibra, a vem o futebol.

Mas por que o futebol?

No seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo?

No que me repugne a introduo de coisas exticas entre ns. Mas gosto de indagar se elas sero assimilveis ou no.

No caso afirmativo, seja muito bem vinda a instituio alheia, fecundemo-la, arranjemos nela um filho hbrido que possa viver c em casa. De outro modo, resignemo-nos s broncas tradies dos sertanejos e dos matutos. Ora, parece-nos que o futebol no se adapta a estas boas paragens do cangao. roupa de emprstimo, que no nos serve.

Para que um costume intruso possa estabelecer-se definitivamente em um pas necessrio, no s que se harmonize com a ndole do povo que o vai receber, mas que o lugar a ocupar no esteja tomado por outro mais antigo, de cunho indgena. preciso, pois, que v preencher uma lacuna, como diz o chavo.

O do futebol no preenche coisa nenhuma, pois j temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma percia que deixaria o mais experimentado sportman britnico de queixo cado.

Os campees brasileiros no teriam feito a figura triste que fizeram em Anturpia se a bola figurasse nos programas das Olimpadas e estivessem a disput-la quatro sujeitos de pulso. Apenas um representante nosso conseguiu ali distinguir-se, no tiro de revlver, o que pouco lisonjeiro para a vaidade de um pas em que se fala tanto. Aqui seria muito mais fcil o indivduo salientar-se no tiro de espingarda umbiguda, emboscado atrs de um pau.

Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras?

O futebol no pega, tenham a certeza. No vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importncia. No confundamos.

As grandes cidades esto no litoral; isto aqui diferente, serto.

As cidades regurgitam de gente de outras raas ou que pretende ser de outras raas; ns somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda e galego.

Nas cidades os viciados elegantes absorvem o pio, a cocana, a morfina; por aqui h pessoas que ainda fumam liamba.

Nas cidades assiste-se, cochilando, representao de peas que poucos entendem, mas que todos aplaudem, ao sinal da claque; entre ns h criaturas que nunca viram um gringo.

Nas cidades h o maxixe, o tango, o foxtrote, o one-step e outras danas de nomes atrapalhados; ns ainda danamos o samba.

Estrangeirices no entram facilmente na terra do espinho. O futebol, o boxe, o turfe, nada pega.

Desenvolvam os msculos, rapazes, ganhem fora, desempenem a coluna vertebral. Mas no necessrio ir longe, em procura de esquisitices que tm nomes que vocs nem sabem pronunciar.

Reabilitem os esportes regionais que a esto abandonados: o porrete, o cachao, a queda de brao, a corrida a p, to til a um cidado que se dedica ao arriscado ofcio de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o camba-p, a rasteira.

A rasteira! Este, sim, o esporte nacional por excelncia!

Todos ns vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primria habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiana no crebro – e a rasteira nos salva. Na vida prtica, claro que aumenta a natural tendncia que possumos para nos utilizarmos eficientemente da canela. No comrcio, na indstria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavaes, a rasteira triunfa.

Cultivem a rasteira, amigos!

E se algum de vocs tiver vocao para a poltica, ento sim, a certeza plena de vencer com auxlio dela. a que ela culmina. No h poltico que a no pratique. Desde s. ex o senhor presidente da Repblica at o mais panudo e becio coronel da roa, desses que usam sapatos de trana, bochechas moles e espadago da Guarda Nacional, todos os salvadores da ptria tm a habilidade de arrastar o p no momento oportuno.

Muito til, sim senhor.

Dediquem-se rasteira, rapazes.

J. Calisto (pseudnimo de Graciliano Ramos)
In O ndio Palmeira dos ndios, AL, abril de 1921

IN: RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. 21 edio. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 110.

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  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

Queria endurecer o corao, eliminar o passado, fazer com ele o que fao quando emendo um perodo riscar, engrossar os riscos e transform-los em borres, suprimir todas as letras, no deixar vestgio de idias obliteradas.

Memrias do Crcere, cap. 5