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mar.14: “Contemplo o rosto de Graciliano Ramos, morto…”

Publicado em 01 d março d 2014

Graciliano

Augusto Frederico Schmidt

Contemplo o rosto de Graciliano Ramos, morto: parece-me sereno, tranquilo, adormecido como est no fundo de sua ausncia. Foi um revoltado, no um ressentido. Sabia que o mundo mau, que os homem devoram-se, e ao terminar sua carreira sobre a terra, no esperava encontrar mais nada.

Estendido no caixo, coberto de flores que paz todavia emana desse que fora homem de aparncia brusca, personagem desabusado, franco, duro! A mim no enganou, jamais, o jeito de Graciliano: sempre o julguei como realmente era honesto, incapaz de falsear, de mentir, de odiar gratuitamente quem quer que fosse. No era um sentimental, um terno ser de fcil emoo, de nervos flor da pele, de mesmo raras lgrimas. Longe disto, aprendera muito, tivera a experincia da luta, conhecera uma priso injusta e longa: vira o que o homem pode fazer com o homem inerme

Suas memrias contaro histrias implacveis. Quantas vezes, num banco ao fundo da Livraria Jos Olympio, no me descreveu Graciliano episdios que presenciara e sofrera, numa poca de m lembrana e em que no havia liberdade entre ns. Suas queixas pessoais diga-se, em abono da verdade no lhe punham na voz as cores do dio, nem insistia nelas; odiava muito mais o que praticaram contra outros seres, sua vista, sob o seu testemunho.

Cada qual com a sua experincia. A experincia de Graciliano Ramos f-lo um revoltado mas em toda parte h motivos de revolta; e creio mesmo, apesar dos pesares e do que viu o autor de Vidas secas, ainda existe no Brasil uma cordialidade que outros povos no conhecem mais.

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Esse morto sereno que meus olhos fixam celebrou as viagens dos prias dos homens fugindo inclemncia das prprias terras desoladas, dos filhos das paragens madrastas onde no h o socorro elementar da gua, onde o bicho humano debalde invoca o milagre dos cus impiedosos.

Foi um romancista de bandidos, de incompreendidos, de solitrios e desgraados, de gente infeliz e condenada a no inspirar piedade a ningum. Foi um forte, nunca um fantico; os que o conheceram sabem que seu pudor sempre o manteve a distncia do fanatismo, da beatitude. No serviu, como escritor, a partido ou credo nenhum, religioso nem poltico, seno por coincidncia. O que almejava era escrever bem, atender s regras do jogo literrio. No se orgulhava de nada, mas gostava que o consultassem sobre questes de sintaxe, sobre dificuldades da lngua e da arte.

Esse modesto revolucionrio era um escritor clssico, amante das leis do estilo e dos grandes modelos e exemplos

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Jamais vingou, entre Graciliano e eu, o menor equvoco, o mnimo juzo mau. Em vo tentaram intrigar-nos, mesmo em pblico. Graciliano resistia: sabia-me alvo de ressentimentos inconfessveis. Pouco se lhe dava, alis, o que eu pensasse quanto existncia de Deus ou sobre a necessidade e a maneira de defender o homem humano nesta trgica conjuntura: e de minha parte, o comunismo de Graciliano no me arrepiava parecia-me, ao contrrio bem integrado e compreensvel na revolta desse homem que a vida fizera desiludido de tudo. A adeso a um partido representava para ele o retorno a uma esperana de dias mais justos e melhores para a humanidade, mas em nada lhe solapava o senso de justia e o fato de algum ser branco ou vermelho no ajudava nem prejudicava o seu julgamento e a sua considerao.

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Da ltima visita que fiz a Graciliano, guardo lembrana marcante: falou-me de seu passeio Rssia, dos encontros e das surpresas que l encontrara, das paisagens avistadas Depois ficamos a rememorar episdios velhos, desde o nosso primeiro encontro, mal chegara ele ao Rio; generosamente, pela primeira vez, aludiu aos anos decorridos. Lembrou-se dos dois artigos que escrevi, em protesto contra a sua priso, numa hora em que quase todos se calavam, mesmo os profissionais da contumlia e do insulto.

Saberia ele estar condenado morte prxima? indagava-me eu, a cada instante vendo-o acender o cigarro incessantemente e ouvindo-o conversar. Nunca o encontrara to desempenado, to bom palestrador, to ameno, como nesse dia de domingo claro e festivo em que, j s vsperas do trmino de seus padecimentos, Graciliano fazia de conta que no sabia de nada, heroico em seu pudor Mas no lhe faltava o conhecimento exato de seu mal, e j as grandes dores o atormentavam: ia morrer. Mas morria no seu natural, sem quebrar a linha de sua natureza spera e intratvel que guardava, porm, o ouro fino do amor dissimulado e escondido, negado e renegado.

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Schmidt, Augusto Frederico. Graciliano. Correio da Manh, Rio de Janeiro, 22 mar. 1953, 1 Caderno, p. 2.

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“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937