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abr.14: Virgulino

Publicado em 01 d abril d 2014

H dias surgiu por a um telegrama a anunciar que o meu vizinho Virgulino Ferreira Lampio tinha encerrado a sua carreira, gasto pela tuberculose, deitado numa cama, no interior de Sergipe. Mas a notcia no se confirmou e a polcia do Nordeste continuar a perseguir o bandido, provavelmente o agarrar de surpresa e mostrar nos jornais a cabea dele separada do corpo. Seria de fato bem triste que a punio dum indivduo to nocivo fosse realizada por uma doena. Ficam, pois, sem efeito os ligeiros comentrios inoportunos e apressados, que ilustraram o canard.

No a primeira vez que Lampio tem morrido. E sempre que isto se d as notas com que se estira o acontecimento deturpam a figura do bruto e manifestam a ingnua certeza de que tudo vai melhorar no serto. O zarolho se romantiza, enfeita-se com algumas qualidades que se atribuam aos cangaceiros antigos, torna-se generoso, desmancha injustias, castiga ou recompensa, enfim aparece inteiramente modificado.

Esperamos e desejamos longos anos essa morte e ao termos conhecimento dela soltamos um suspiro de alvio a que se junta uma espcie de gratido. Teria sido melhor, sem dvida, que o malfeitor houvesse acabado nas unhas da polcia. No acabou assim, desgraadamente, mas de qualquer forma o Nordeste se livrou dum pesadelo.

Repousamos algum tempo nesse engano, at que Lampio ressurge e prossegue nas suas faanhas. Intil agredi-lo ou emprestar-lhe virtudes que ele no entende, ajud-lo, faz-lo combater os grandes, proteger os pequenos, casar donzelas comprometidas. Lampio no se corrigir por isso: permanecer mau de todo, insensvel s balas, ao clamor pblico e aos elogios, uma das raras coisas completas que existem neste pas.

Tudo aqui meio-termo, pouco mais ou menos, somos uma gente de transigncias, avanos e recuos. Hoje aqui, amanh ali depois de amanh nem sabemos onde haveremos de ficar, como haveremos de estar. Abastardamo-nos tanto que j nem compreendemos esse patife de carter e inadvertidamente lhe penduramos na alma sentimentos cavalheirescos que foram utilizados como atributos de outros malfeitores.

Deixemos isso, apresentemos o bandoleiro nordestino como realmente, uma besta-fera. H pouco mais de um ano, em condies bem desagradveis, travei conhecimento com um discpulo dele, um sujeito imensamente forte, alourado, vermelhao, de olho mau. Esse personagem me declarou que todas as vezes que praticava um homicdio abria a cartida da vtima e bebia um pouco de sangue. Anda por a espalhada a longa srie das barbaridades cometidas pelo terrvel salteador, mas essa confisso voluntria dum companheiro dele surpreendeu-me.

Isso prejudica bastante o velho culto do heri, do homem que lisonjeamos para que ele no nos faa mal.

Lampio se conservar ruim. E no morrer to cedo. A vida no Nordeste se tornou demasiado spera, em vo esperaremos o desaparecimento das monstruosidades resumidas nele.

Finaram-se os patriarcas sertanejos que vestiam algodo e couro cru, moravam em casas negras sem reboco, tinham necessidades reduzidas e soletravam mal. No ptio da fazenda uns cangaceiros bonaches preguiavam. E nos arredores grupos esquivos rondavam, escondendo-se dos volantes. De longe em longe um emissrio chegava propriedade e recebia do senhor uma contribuio mdica.

Tudo agora mudou. O serto povoou-se e continua pobre, o trabalho precrio e rudimentar, as secas fazem estragos imensos. Os bandos de criminosos, que no princpio do sculo se compunham de oito ou dez pessoas, cresceram e multiplicaram-se, j alguns chegaram a ter duzentos homens. A luta se agravou, as relaes entre fazendeiros e bandidos no poderiam ser hoje fceis e amveis como eram.

Jesuno Brilhante uma figura lendria e remota, o prprio Antnio Silvino envelheceu muito.

Resta-nos Lampio, que viver longos anos e provavelmente vai ficar pior. De quando em quando noticia-se a morte dele com espalhafato. Como se se noticiasse a morte da seca e da misria. Ingenuidade.

A Tarde, Rio de Janeiro, 27 jan. 1938

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IN: RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. Rio de Janeiro: Record, 2007, p.151-154.

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Queria endurecer o corao, eliminar o passado, fazer com ele o que fao quando emendo um perodo riscar, engrossar os riscos e transform-los em borres, suprimir todas as letras, no deixar vestgio de idias obliteradas.

Memrias do Crcere, cap. 5