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O cangaceiro e o escritor na terra do faz de conta

Publicado em 13 de abril de 2014

Do jornal Folha de S. Paulo, Caderno Ilustríssima
Por CASSIANO ELEK MACHADO (*)
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De quando Graciliano capturou Virgulino usando o poder da mente

Antologia que reúne escritos de Graciliano Ramos sobre cangaço atribui-lhe entrevista fictícia com Lampião. Publicado sem assinatura no semanário “Novidade” e inédito em livro, o texto traz marcas que o associam ao autor de “Vidas Secas”, colaborador do periódico, no qual pela primeira vez abandonou pseudônimos.

 

O sambinha não era tão popular quanto “Tico-tico no Fubá” ou “Com que Roupa?”, seus colegas no “hit parade” de 1931, mas traduzia uma verdadeira obsessão nacional daqueles anos. A voz de Castro Barbosa apregoava com garbo nas rádios: “Adeus, Amélia/ vou decidir minha sorte./ Eu vou pro Norte./ Vou pegá o Lampião”.

Não havia quem não quisesse “pegá” Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o bandoleiro mais famoso do Brasil. A muitos poderia faltar sede de vingança, mas a ninguém cairiam mal duas ricas recompensas oferecidas por sua captura: tanto o governo da Bahia quanto uma empresa, a perfumaria Lopes (do sabonete Dorly e pó de arroz Lady), pagavam 50 contos de réis, cada um, por sua cabeça.

Embora o pescoço do cangaceiro tenha chegado intacto ao final daquele ano, coube a uma pequena publicação de Maceió cumprir, à sua moda, o desígnio da canção. Em sua edição de 16 de maio de 1931, um semanário chamado “Novidade” pegou Lampião.

É verdade que a revista alagoana talvez não tenha satisfeito o apetite dos leitores fiéis, que provavelmente haviam visto uma semana antes um anúncio na página 2: “No próximo número: uma entrevista de Lampião à ‘Novidade'”.

A conversa seria efetivamente publicada: perguntas e respostas ao “herói legendário do sertão nordestino”. Mas o texto (reproduzido abaixo), esclarecia-se logo na abertura, era uma entrevista fictícia: feita por “via telepática”.

O bate-papo virtual poderia jazer só na memória de gerações de traças alagoanas, não fosse a suspeita de uma dupla de pesquisadores de São Paulo. Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla sustentam, em livro a sair no fim do mês, que a entrevista é criação de um dos maiores nomes da literatura brasileira: Graciliano Ramos (1892-1953).

O postulado constará do volume “Cangaços” [Record, R$ 34, 224 págs.], compilação de textos sobre o banditismo sertanejo publicados pelo autor alagoano entre 1931 e 1941, em veículos de seu estado natal ou do Rio de Janeiro, então capital do país. Organizado pela dupla de gracilianólogos paulistas, o livro é composto por 14 artigos de imprensa e por dois capítulos de “Vidas Secas”.

A inclusão no volume de fragmentos do romance mais celebrado do autor (lançado em 1938, está atualmente em sua 124ª edição) não é fortuita. Além de tratarem diretamente do cangaço, os capítulos dão cor a um dos sustentáculos do livro de Lebensztayn e Mio Salla: o livre trânsito entre Graciliano o articulista e o ficcionista.

Emblema disso é uma frase empregada em “Cadeia”, capítulo de “Vidas Secas”, que pode ser lido como um conto (não à toa, o cronista Rubem Braga definiria o livro, anos depois, como “romance desmontável”). Nele, Fabiano, o protagonista, afirma: “Apanhar do governo não é desfeita”.

No texto de apresentação e num alentado posfácio sobre Graciliano e o cangaço, os dois organizadores do livro mostram que o escritor já havia usado a frase, igual, em três crônicas sobre o tema, duas delas publicadas antes que o próprio Ramos sofresse vicissitudes nas mãos do governo -no fim do dia 3 de março de 1936 ele seria encarcerado, em meio ao cerco aos comunistas do governo Vargas, e só seria liberado em janeiro de 1937.

Mais do que incorrer no autoplágio, com o uso repetido da frase, Graciliano sublinhava seu “leitmotiv”: a resistência às injustiças sociais. É num texto sobre Lampião, seu primeiro artigo dedicado em especial ao rei do cangaço, que o slogan aparece a primeira vez.

“Lampião nasceu há muitos anos, em todos os Estados do Nordeste”, começa Ramos, que descreve o bandoleiro como “zarolho, corcunda, chamboqueiro, dá impressão má”. Ele relata as mazelas da juventude de Virgulino Ferreira. “As injustiças e os maus-tratos foram grandes, mas não desencaminharam Lampião. Ele é resignado, sabe que a vontade do coronel tem força de lei e pensa que apanhar do governo não é desfeita”, emenda o escritor, em texto para a mesma “Novidade” que publicaria a entrevista falsa com o cangaceiro.

FINA FLOR

A “Novidade” era o máximo. Feita nos fundos de uma livraria de Maceió, idealizada por dois jovens intelectuais da cidade, Valdemar Cavalcanti (1912-82) e Alberto Passos Guimarães (1908-93), a revista durou só seis meses, mas reuniu a fina flor intelectual da região. O romancista José Lins do Rego, o poeta Jorge de Lima, o futuro dicionarista Aurélio Buarque de Holanda e o antropólogo Manuel Diegues Jr. (pai do cineasta Cacá Diegues) foram alguns colaboradores regulares -de outras praças, viriam colaborações de figuras como o poeta Murilo Mendes.

Mas o grande feito, pouco sublinhado a respeito dessa publicação quase esquecida, foi o de ter sido, em mais de um sentido, o veículo de estreia de Graciliano Ramos.

Reeditada em 2012, a biografia mais conhecida do autor, “O Velho Graça”, de Dênis de Moraes [Boitempo, R$ 52, 360 págs.], aponta que, aos 11 anos, o alagoano já publicara seu primeiro texto, o conto “O Pequeno Pedinte”.

Mas, ao longo de décadas, a contar desta obra de engajamento mirim, publicada em “O Dilúnculo – Órgão do Internato Alagoano” em 1904, as dezenas de textos de sua lavra saíram sob pseudônimos. Eram assinadas por X, Lúcio Guedes, J. Calisto, Anastácio Anacleto ou Ramos de Oliveira.

Como aponta Thiago Mio Salla, em outro volume recente organizado por ele, que compila só textos do alagoano inéditos em livro, “Garranchos” [Record, R$ 52, 378 págs.], foi apenas a partir de 1931, em sua contribuição para “Novidade”, que o autor passou a assinar como Graciliano Ramos.

Ele tinha 38 anos, já havia sido prefeito de Palmeira dos Índios, ainda não havia publicado nenhuma obra de ficção. “Caetés”, seu primeiro romance, sairia só em 1933. Mas um dos capítulos desse livro, o de número 24, foi publicado em “Novidade” em junho de 1931, marcando oficialmente o começo do prosador.

Ieda Lebensztayn, 38, desbravou por quase sete anos a história da revista alagoana, tema de seu doutorado na USP. Como aponta em “Graciliano Ramos e a revista ‘Novidade’: contra o lugar-comum”, artigo publicado em “Estudos Avançados” (USP, nº 67, 2009), “se a ‘Novidade’ se deseja como reação crítica ao lugar-comum da violência, aos estereótipos, à retórica dos bacharéis e políticos e expõe como problema o papel do intelectual num mundo de barbárie, os textos de Graciliano nela publicados, anunciando a obra posterior, são sua melhor expressão”.

No exame da íntegra das 24 edições de “Novidade”, conteúdo recém-incorporado à Hemeroteca Digital Brasileira, da Biblioteca Nacional (hemerotecadigital.bn.br), nota-se que só três entrevistas foram publicadas pelo semanário. A quarta conversa editada pelo veículo, aquela com Lampião, foi a única entrevista fictícia, gênero no qual se sobressairia depois o dramaturgo Nelson Rodrigues.

BATE-PAPO

Fora da ficção, não era moleza entrevistar Lampião. Autoridade reconhecida no tema do cangaço desde os anos 1980, o historiador recifense Frederico Pernambucano de Mello, 66, conta apenas duas entrevistas confirmadas com o cangaceiro-mor.

A mais conhecida é uma dada em Juazeiro do Norte ao médico e jornalista Otacílio Macedo (jornal “O Ceará”, Fortaleza), feita em 1926, ano em que Lampião passou a ser conhecido em todo o Brasil.

A outra, sustenta ele, foi dada a Demóstenes Martins de Andrade e teria saído originalmente em “O Serrinhense”, de Serrinha (Bahia), e depois no “Diário de Notícias”, de Salvador. “Nela, Lampião chega a elogiar as pastilhas Valda.”

Há ainda um depoimento, dado a Benjamin Abrahão. Célebre por ter fotografado e filmado Lampião, o sírio-libanês radicado no Brasil foi tema do longa “Baile Perfumado”, dos cineastas Lírio Ferreira e Paulo Caldas (1996), e de livro de Pernambucano de Mello, “Benjamin Abrahão: Entre Anjos e Cangaceiros” [Escrituras, R$ 45, 352 págs.].

Graciliano, o “entrevistador” de Lampião, também não era dos mais entrevistáveis. Lebensztayn e Mio Salla estão concluindo uma pesquisa sobre os bate-papos feitos com o escritor alagoano. Eles serão publicados em livro, no segundo semestre, também pela Record, editora que concentra a obra do escritor desde o início dos anos 1970. Com nome provisório de “Falas”, o volume terá estimadas 22 entrevistas e deve sair à época de uma mostra audiovisual sobre o escritor prevista para o Museu da Imagem e do Som, de São Paulo.

Mio Salla, 34 (e desde os 19 estudando a obra do escritor), diz que não há registros de outras entrevistas ficcionais de Graciliano, como a de Lampião que atribuem a ele.

No entanto, o professor da Escola de Comunicações e Artes da USP diz que desde a primeira vez que bateu os olhos em “Lampião entrevistado por ‘Novidade'”, na Biblioteca Nacional, no Rio, em 2005, não teve dúvidas de que o texto era de Graciliano.

“São inúmeros elementos que indicam sua autoria. Desde uma ironia muito peculiar, uma pilhéria presente em textos publicados por ele em jornais, até o deboche do chamado ‘lampionismo literário'”, afirma.

Com linha semelhante de argumentação, um dos principais gracianólogos do Brasil, o professor Wander Melo Miranda, da Universidade Federal de Minas Gerais, concorda com a atribuição.
“Sua visão lúcida e bem-humorada -no caso da entrevista imaginária, da qual podem ter participado também Lins do Rego e Jorge de Lima- é uma ‘novidade’ para a época e até hoje. Sem estereótipos, sem a visão artificial de literatos e da ‘gente do asfalto’ sobre o assunto, Graciliano trata o ‘amável facínora’ como um astro pop ‘avant la lettre’, percebendo muito bem o que o mito popular revela e esconde: uma sociedade injusta, economicamente atrasada, submetida a desmandos de toda ordem e à aparição de heróis ou bandidos salvadores”, afirma, em depoimento à Folha.

SURPRESA

Em janeiro de 1938, Graciliano Ramos escreveu, em crônica também recolhida em “Cangaços”: “A polícia do Nordeste continuará a perseguir o bandido, provavelmente o agarrará de surpresa e mostrará nos jornais a cabeça dele separada do corpo”.

Seis meses depois, “pegaram” Lampião. Ele, sua mulher, a Maria Bonita, e outros nove cangaceiros do bando foram mortos e degolados -as 11 cabeças foram expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas, em Alagoas.

No artigo “Cabeças”, publicado dois meses depois, e também incluído em “Cangaços”, Graciliano Ramos sentenciou:

“Cortar cabeças nem sempre é barbaridade. Cortá-las no interior da África, e sem discurso, é barbaridade, naturalmente; mas na Europa, a machado e com discurso, não é barbaridade. O discurso nos aproxima da Alemanha. Claro que ainda precisamos andar um pouco para chegar lá, mas vamos progredindo, não somos bárbaros, graças a Deus”.

Lampião entrevistado por “Novidade”

Como o célebre cangaceiro, o herói legendário do sertão nordestino, encara certas coisas brasileiras: os direitos de propriedade, o progresso, a justiça, a família, o sertão, os coronéis, o cangaceirismo e a sua própria vida

Lampião é hoje uma das criaturas mais interessantes do Nordeste. Não apenas do Nordeste: do Brasil todo*. Vagamente conhecido há dez anos em alguns municípios sertanejos, pouco a pouco foi adquirindo um prestígio terrível e tornou-se famoso e temido em vários Estados. Cresceu extraordinariamente, entrou no folclore, na poesia e no romance. É um nome nacional. Ultimamente, com a projetada aventura do capitão Chevalier1, o célebre cafuzo está na ordem do dia. – Com o intuito de bem servir aos seus bons fregueses e amigos, como se diz na gíria de negociantes, ‘Novidade’ imaginou entrevistar Lampião. Para isso pediu o concurso de alguns oficiais de polícia, mas todos eles, por modéstia, recusaram a incumbência, alegando que não são repórteres. – Na impossibilidade de obtermos um encontro com o notável salteador, recorremos a um truque: um dos nossos redatores, antigo sócio de centros esotéricos, deitou-se, acendeu um cigarro, fechou os olhos e conseguiu, por via telepática, a seguinte entrevista.

Lampião recebeu-nos com o punhal na mão direita e o rifle na esquerda. Vestia roupa de mescla, calçava alpercatas, trazia cartucheira, chapéu de couro enfeitado, camisa aberta, rosário, retrato do padre Cícero na lapela. Ofereceu-nos uma pedra para descansar, sentou-se numa raiz de baraúna e perguntou:

– Que anda fazendo por esta zona?

– Aqui marombando, capitão, assuntando, tomando a maçaranduba do tempo. Eu sou representante de “Novidade”.

– “Novidade”? Pois eu não quero saber de novidades. Aqui ninguém conta novidades. Foi por causa das novidades que o Sabino2 levou o diabo. E não gosto de gente que assunta. O senhor é macaco ou bombeiro?

Sentimos um baque no peito.

– Deixe disso, capitão, não se afobe. “Novidade” é um jornal.

– Um jornal?

– Sim, senhor, um papel com letras para embromar os trouxas. Mas o nosso é um jornal sério, um jornal de bandidos. É por isso que estou aqui. Um jornal sisudo. Temos colaboradores entre as principais figuras do cangaço alagoano, temos correspondentes…

Lampião mostrou a dentuça e grunhiu:

– Uhn! Anda procurando um chefe.

– Ah! não! protestamos. Já temos. O lampionismo em literatura é diferente do seu. O que eu quero é entrevistá-lo, entende?

– Que quer dizer isso?

– É uma tapeação. O senhor larga umas lorotas, eu escrevo outras e no fim dá certo. É sempre assim. Às vezes, como agora, nem é preciso que a gente se encontre.

– Por quê?

– Por quê? Porque se eu fosse escrever o que o senhor diz não escrevia nada.

Lampião matutou, balançou a cabeça e concordou.

– Bom. Vamos começar. Pegue no lápis.

E começamos:

– Quais são as suas ideias a respeito da propriedade?

O amável facínora tirou da patrona um pedaço de fumo e entrou a picá-lo com o punhal.

– Eu, para falar com franqueza, acho que essa história de propriedade é besteira. Na era dos caboclos brabos, como o senhor deve saber, coisa que um sujeito agadanhava era dele. Depois vieram os padres e atrapalharam tudo, distribuindo terra para um, espelho para outro, volta de conta para outro… Fechou-se o tempo e houve um fuzuê da peste, que está nos livros. Mas meu padrinho padre Cícero não vai nisso. E eu também não vou. Isso por aqui é nosso: gado, cachaça, mulher, tudo. É de quem passar a mão, entende?

– Perfeitamente. E que me diz do progresso?

– De quê?

– Do progresso, da civilização. Roupas bonitas, sapatos, frascos de cheiro, conhaque, doutores, vitrolas…

Lampião fez um cigarro de palha de milho, tirou o binga, bateu o fuzil e pôs-se a fumar. Depois falou:

– Sapatos, como o senhor vê, não uso, mas o conhaque eu bebo. E gosto das vitrolas, são engraçadas. Quanto aos doutores, até hoje não me fizeram mal. Estudam nos papéis e falam muito. Creio que são uns inocentes. Enfim, não tenho queixa da civilização.

– Como considera a justiça?

– Aqui no sertão, quando um camarada tem raiva de outro, toca fogo nele. E vai um filho do defunto, agarra um mosquetão e uma rapadura, esconde-se por detrás dum pau, dorme na pontaria, espera 15 dias e queima o sobredito. É a justiça mais usada e não falha. Temos também a dos autos, demorada, mas que não é má, porque os promotores se enrascam sempre e os jurados são bons rapazes.

– Sua opinião sobre a família?

– De quem?

– De todo o mundo. A família em geral. A mulher, os meninos, a rede, o baú, o rancho, o papagaio, o saguim, a trempe, as panelas, isso tudo.

Lampião coçou o queixo e resmungou:

– Para dizer a verdade, nunca pensei nisso. E o senhor é danado de fuxiqueiro. Mulher, meninos… Eu sei lá! Quando um sujeito é miúdo, nunca deve dizer que os filhos que tem em casa são dele. E quanto a mulher, hoje a gente pega uma, larga amanhã, arranja outra, casa aqui, descasa acolá, e assim vamos indo. Isso de mulher é bichinho que não falta. E se um homem fosse se lembrar de todas com quem fez vida, estava arrumado.

– A sua vida assim agitada lhe dá grandes lucros, capitão?

– Lucros, lucros, não são lá grande coisa. Nem roubo hoje dá lucro. Não se tem mesmo o que roubar. Isso de dinheiro aqui, homem, uma bobagenzinha de nada. Nesse tempo parece o povo até nem aprecia ter dinheiro pra gastar tanto quanto se gasta com a vida de hoje. Agora o que eu não faço, nem pelo diabo, é deixar minha vida de agora pra ir trabalhar na enxada, que eu não sou…

Lampião estacou, passou o lenço pelo pescoço.

– Que calor danado!

E nós, aproveitando a deixa:

– E com todo esse calor, o senhor gosta mesmo do sertão?

– Gostar, eu gosto, moço. Isso de calor é coisa com que a gente se acostuma depressa. Um coronel noutro dia me disse que o povo da cidade acha isso ruim, porque é deserto e quente por demais. Cidadãos que nunca viram o sertão falam dele como se tivessem vivido nele uma porção de tempo. É isso que estraga essa terra, não é outra coisa não.

– E relativamente aos coronéis, que pensa o senhor?

– Homem, eles até não são ruins. Há realmente alguns metidos a bestas, mas também existem pessoas direitas. Tenho boas relações com um bando deles.

Estava finda a nossa missão. Despedimo-nos.

– Muito obrigado, capitão Virgulino. E adeus. Desejo-lhe muitas felicidades nos seus negócios.

Notas:
* Originalmente publicado, sem assinatura, no semanário “Novidade” (Maceió: Livraria Vilas-Boas, n. 6, p. 7, 16.mai.31), este artigo sairá em livro pela primeira vez na coletânea “Cangaços”, que reúne textos de Graciliano Ramos sobre o tema, que será lançado pela Record. A autoria é atribuída ao alagoano pelos organizadores da antologia, Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Para publicação na “Ilustríssima”, foram mantidas somente as notas com informações essenciais à compreensão dos fatos citados no texto.
1. Carlos Chevalier, oficial do Exército que utilizou armas, sistemas de rádio em comunicação com muitos policiais e até aviões para capturar Lampião.
2. Sabino Gomes, homem de confiança de Lampião, que, no bando, ocupava o posto de lugar-tenente. Foi morto em março de 1928, na fazenda de Antônio Piçarra, no Cariri cearense.

(*) CASSIANO ELEK MACHADO, 38, é editor da “Ilustríssima”.

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