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A caneta de Graciliano

Publicado em 18 de setembro de 2014

por EDMAR MONTEIRO FILHO

Em “A literatura em perigo”, Tzvetan Todorov expressa sua preocupação com os rumos tomados pelo ensino de literatura nos tempos atuais. Afirma que o leitor não profissional busca as obras literárias não para dominar um determinado método analítico ou conhecer a sociedade que permitiu seu surgimento, mas como forma de entretenimento – num padrão mínimo – ou para encontrar meios que permitam melhor compreender o mundo em que vive e, dessa forma, compreender melhor a si mesmo. Para o autor, o ensino literário atual dá as costas a esse pensamento, privilegiando as noções críticas, as teorias estruturais, os aspectos “internos”, ou seja, as relações dos elementos da obra entre si. Nesse prisma, afirma, “ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero, mas sobre as noções críticas, tradicionais ou modernas.” Assim, não há reflexão sobre aquilo que as obras nos dizem, mas sobre o que dizem os estudiosos e os críticos.

De fato, não se pode generalizar, a ponto de afirmar que “todo” o ensino acadêmico padece desse desacerto, mas basta conversar com muitos dos pós-graduandos de uma universidade como a UNICAMP, por exemplo, para perceber um discurso marcado pelo conhecimento versátil acerca de múltiplas teorias e um desconhecimento exemplar sobre a obra literária. Concordo com Todorov quando este afirma que não se pode pedir que o ensino da disciplina desapareça para fixar-se simplesmente no estudo das obras, mas que cada um deve encontrar espaço e dimensão próprias. Caso contrário, corremos o risco de sucumbir à representação vazia, que suscita enganos fundamentais de compreensão e interpretação em um campo no qual o estudo dos meios de acesso não pode substituir o sentido da obra, que é sua finalidade.

Essa espécie de inversão entre meios e fins remete a um episódio ocorrido na última semana no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, que abriga uma exposição em homenagem a Graciliano Ramos. Um dos espaços da mostra simula o ambiente de trabalho do escritor. Sobre uma mesa, estavam expostos diversos objetos, como um tinteiro e canetas, livros, documentos. O fato é que, um dia após a abertura da exposição ao público, a direção do museu informou o desaparecimento de uma das canetas. O objeto fora emprestado pela Casa Museu Graciliano Ramos, de Palmeira dos Índios, em Alagoas, onde o escritor foi prefeito e viveu boa parte de sua vida. O querido amigo João Tenório, diretor da Casa Museu, informou que a caneta não possui qualquer valor material e que sequer funciona. Apela para que o objeto seja devolvido.

Fico imaginando a motivação para uma atitude desse tipo. Mesmo para algum dos raros aficionados pelas canetas tinteiro, o exemplar furtado, pela modéstia, não teria qualquer interesse comercial. Talvez permaneça escondida em alguma gaveta, ou seja exibida como troféu de ousadia, privando os visitantes do MIS de conhecer um autêntico retrato da mesa de trabalho de um importante escritor e obrigando seus organizadores a cercar o ambiente da mostra com novos aparatos de segurança. Não creio que o furtador imagine que a caneta de Graciliano seja capaz de carregar consigo o seu talento, transformando o portador do objeto em um gênio das letras. É possível que seja obra de um fã extremado do autor. Mas ouso pensar que esses não seriam capazes de tal ato e que o ladrão sequer tenha lido algum dos livros nascidos da pena furtada.

O episódio me parece manter relação estreita com a questão do privilégio do ensino da teoria sobre o ensino da obra. As fotos do escritor, seu terno e outros objetos, ali estão expostos como meras ilustrações em torno daquilo que efetivamente tem valor: seus livros. Todorov afirma que a literatura nos enriquece a alma e abre ao infinito a possibilidade de interação com os outros, ressaltando que esses aspectos devem sempre ser levados em conta para a formação acadêmica. A caneta de Graciliano é um humilde símbolo da sua grandeza como artista. Quem pretende algum benefício a partir da sua posse comete um grave equívoco de interpretação, que o autor, com sua língua afiada, jamais perdoaria.

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  • A Peste (1950) Albert Camus, tradução

Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas.

Memórias do Cárcere, cap. 5