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Obra de Graciliano Ramos celebrada com exposio e livro

Publicado em 22 d setembro d 2014

Por GUILHERME SOBOTA
Para o jornal O Estado de S. Paulo
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Lanamento da obra ter presena de familiares do escritor

Em 18 de setembro de 1910, o Jornal de Alagoas publicou um inqurito com um jovem literato alagoano que assinava G. Ramos de Oliveira – ento com 17 anos, ele demonstra uma erudio impressionante ao listar impresses sobre O Guarani (que lera aos 10), afirmar que o realismo nu de Adolfo Caminha e a linguagem sarcstica de Ea de Queiroz o influenciaram e ter a capacidade de autoironia suficiente para dizer que seus primeiros textos, pequeninos contos, foram verdadeiras criancices.

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Essa a primeira das 25 entrevistas que Graciliano Ramos (1892-1953) concedeu a jornais e revistas durante sua vida, agora reunidas em Conversas (Record). O livro ainda traz respostas do escritor a enquetes e depoimentos, e ganha um lanamento de luxo: a exposio Conversas de Graciliano Ramos foi montada no MIS de So Paulo baseada no projeto de pesquisa de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla, com curadoria de Selma Caetano. A mostra fica aberta at o dia 9 de novembro e tem entrada gratuita – at ontem, a exposio ficou fechada para visitao por motivos de segurana. Nesta segunda-feira, ocorre no MIS o lanamento do livro, s 19h, com presena de familiares do escritor e dos organizadores – em um coquetel aberto ao pblico.

A exposio foi montada de modo a dar voz a Graciliano – da sua voz mesmo, no existe nenhum registro. As entrevistas ento so uma forma direta de ouvir o que o escritor tinha a dizer alm da sua produo ficcional. Foi legal mostrar como o Graciliano falava de tudo, contrariando uma imagem sisuda, diz a curadora Selma Caetano. Todas as frases estampadas nas paredes so do prprio Graciliano.

Selma viajou, junto com o fotgrafo Walter Craveiro, por cidades de Pernambuco e Alagoas que tm ligao com a vida do escritor. O intercmbio entre acervos do Arquivo Pblico de Alagoas, do Museu Casa Graciliano Ramos, do Projeto Portinari e do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP) possibilitou uma reunio particular de imagens sobre a vida do escritor, de acordo com a curadora.

H mais de dez anos pesquisando a obra de Graciliano, Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla foram alm do trabalho de compilao no livro: com intenso contato com fontes primrias, como jornais e documentos oficiais, eles apresentam aqui uma contribuio, tambm, para a histria da imprensa no Pas, ao pontuar o livro com uma profuso de notas de rodap que situam as entrevistas no contexto da publicao.

Um trao marcante apontado por Conversas, segundo os pesquisadores, que a construo das principais obras do escritor partiu de contos, de modo que os captulos se singularizam por sua fora dramtica, conciso e autonomia. Tal particularidade formal se deve concepo realista de Graciliano, que se empenhou por concentrao dramtica e estilstica, e sua necessidade financeira, que o levou a publicar contos/captulos, crnicas e artigos na imprensa, afirmam os pesquisadores, por e-mail.

O segundo volume de Conversas, ainda por concluir, reunir depoimentos de amigos e familiares, tambm publicados na imprensa – gente como Jos Lins do Rego, Jorge Amado, Rubem Braga -, assim como uma entrevista indita com Luiza Ramos Amado, filha de Graciliano.

Salla destaca um dos depoimentos dado pelo escritor revista Diretrizes, em 1942. Perguntado se poderia um nazista escrever um poema?, Graciliano responde: sim, devem fazer tambm poemas. Se no os fizessem, abandonariam completamente a espcie humana.

Ele atrela o conceito de humanidade possibilidade de criao artstica, conclui Salla.

Veja mais na categoria Eventos

CONHEÇA A OBRA DE GRACILIANO RAMOS

  • Caets (1933)
  • Caets  edio especial 80 anos (2013)
  • S. Bernardo (1934)
  • Angstia (1936)
  • Angstia – edio especial 75 anos (2011)
  • Vidas Secas (1938)
  • Vidas Secas – edio especial 70 anos (2008)
  • Vidas Secas – em quadrinhos (2015)
  • Infncia (1945)
  • Insnia (1947)
  • Memrias do Crcere (1953)
  • Viagem (1954)
  • Linhas Tortas (1962)
  • Viventes das Alagoas (1962)
  • Garranchos (2012)
  • Cangaos (2014)
  • Conversas (2014)
  • A Terra dos Meninos Pelados (1939)
  • Histrias de Alexandre (1944)
  • Alexandre e Outros Heris (1962)
  • O Estribo de Prata (1984)
  • Minsk (2013)
  • Cartas (1980)
  • Cartas de Amor a Helosa (1992)
  • Dois Dedos (1945)
  • Histrias Incompletas (1946)
  • Brando entre o Mar e o Amor (1942)
  • Memrias de um Negro (1940) Booker T. Washington, traduo
  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

“Aparea o filho da puta que disse que eu no sabia montar em burro bravo!”

Em bilhete enviado a Chico Cavalcanti, aceitando a candidatura a prefeito de Palmeira dos ndios – AL, 1927 (O Velho Graa, Dnis de Moraes, Boitempo, pg. 61)