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nov.14: Conversa sobre Vidas secas

Publicado em 01 d novembro d 2014

Conversa sobre Vidas secas [1]

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Uma palestra com Graciliano Ramos O sertanejo da zona rida O homem no seu habitat

Brito Broca[2]
A Gazeta,[3] 1938

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Rio, 14 Graciliano Ramos recebe-nos s nove horas da noite, em sua residncia, dos lados de Bento Lisboa.[4] Ns lhe havamos pedido uma entrevista sobre o seu ltimo livro, Vidas secas, que aparecer dentro de poucos dias em edio de Jos Olympio,[5] e o romancista de S. Bernardo, com a simplicidade de seu trato, se dispe a falar.[6] Estamos numa pequena sala de jantar, por onde entra, de vez em quando, uma leve virao, amenizando o mormao da noite carioca.

Graciliano tem uma certa dureza no olhar, dureza que logo se desfaz no sorriso de franqueza e simpatia com que o romancista entremeia, a todo momento, a palestra.

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Um mundo com cinco personagens

Vidas secas ser um romance?

Sim, um romance, mas um romance cujos captulos podem ser considerados destacadamente como contos, tal a maneira por que nele se desenvolvem e encontram o seu desfecho e uma determinada situao. Publiquei vrios captulos de Vidas secas, aqui e na Argentina, e todo mundo os considerou como narrativas independentes.[7] O livro tem, entretanto, uma unidade e o entrelaamento de todos esses captulos forma a tessitura perfeita de um romance.

Por que Vidas secas?

Acha o ttulo um tanto estranho, no? So as vidas dos sertanejos nordestinos, existncia miservel de trabalho, de luta, sob o guante da natureza implacvel e da injustia humana.

Qual o ambiente do romance?

O de uma cozinha de fazenda velha na zona rida do serto. Apenas cinco personagens evoluem no livro: um homem, uma mulher, dois meninos e uma cachorrinha. Com essa comparsaria limitadssima, criei o meu mundo. Alis, no se trata de um romance de ambiente, como geralmente costumam fazer os escritores nordestinos e os regionalistas em geral. Eles se preocupam apenas com a paisagem, a pintura do meio, colocando os personagens em situao muito convencional. No estudam, propriamente, a alma do sertanejo. Limitam-se a emprestar-lhe sentimentos e maneiras da gente da cidade, fazendo-os falar uma lngua que no absolutamente o linguajar desses seres broncos e primrios. O estudo da alma do sertanejo, do Norte ou do Sul, ainda est por fazer em nossa literatura regionalista. Quem ler os romances regionalistas brasileiros faz uma ideia muito diversa do que seja o homem do mato. A falsidade e o convencionalismo so berrantes. Quer que eu os acuse num detalhe apenas? O sertanejo nordestino aparece na literatura como um tagarela, fazendo imagens arrevesadas e desmesurando-se numa loquacidade extraordinria. Pois nada mais postio: o sertanejo daquelas bandas de pouqussimo falar. Sisudo e macambzio, ele vive quase sempre fechado consigo mesmo, sendo difcil arrancar-lhe uma prosa.

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Pesquisando a alma do primrio

O romance passa-se na zona rida do serto?

Sim, mas no me preocupo em pintar o meio. O que me interessa o homem, o homem daquela regio asprrima. Julgo que a primeira vez que esse sertanejo aparece na literatura. Os romancistas do Nordeste tm pintado geralmente o homem da zona do brejo. o sertanejo que aparece na obra de Jos Amrico[8] e Z Lins.[9] Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do serto, observar a reao desse esprito bronco ante o mundo exterior, isto , a hostilidade do mundo fsico e da injustia humana. Por pouco que o selvagem pense e os meus personagens so quase selvagens o que ele pensa merece anotao. Foi essa pesquisa psicolgica que procurei fazer, pesquisa que os escritores regionalistas no fazem e nem mesmo podem fazer, porque comumente no conhecem o serto, no so familiares do ambiente que descrevem.

E o senhor esteve muito tempo nessa regio?

Nasci na zona rida, numa velha fazenda, e ali passei quase toda a minha infncia, convivendo com o sertanejo. Fui depois para a cidade estudar e mais tarde diversas vezes visitei o meu recanto natal, bem como outras paragens do serto nordestino. Os meus personagens no so inventados. Eles vivem em minhas reminiscncias, com suas maneiras bruscas, seu rosto vincado pela misria e pelo sofrimento.

Quer dizer que o senhor aplicou o princpio que Jacques de Lacretelle[10] julga bsico para o romancista: inventar com o auxlio da memria?

Isso mesmo. Acho que ainda no descobrimos a alma do nosso primrio e que o regionalismo, contra o qual se tem erguido uma certa grita, ultimamente,[11] coisa que ainda est por fazer. Os sertanejos aparecem sempre transplantados para outro meio e nunca no seu habitat. O que procurei fazer foi mostrar o homem no seu ambiente, vivendo a sua vida e falando a sua lngua. um livro amargo, duro, rspido, mas verdadeiro, profundamente verdadeiro

E, nessa altura, Graciliano desvia a palestra para outro assunto, achando talvez, na sua modstia excessiva, que j falara demais sobre o seu livro. O calor da noite carioca continua cada vez mais abafado. E, na pequena sala onde nos encontramos, Graciliano, no seu falar simples e no seu rosto vincado, onde se v o sinal de uma vida que no tem sido de sorrisos e amenidades a spera vida do intelectual no Brasil bem o tipo do sertanejo do Nordeste, o homem da zona rida, o beduno do deserto brasileiro, mal-aclimatado neste recanto da terra carioca.

Do livro Conversas, de Graciliano Ramos. Organizao de Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla. Rio de Janeiro: Record, 2014, pp. 66-72.

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Notas:

[1] Broca, Brito. Vidas secas: Uma palestra com Graciliano Ramos O sertanejo da zona rida O homem no seu habitat, A Gazeta, Livros e Autores, So Paulo, 15 mar. 1938, p. 8.

[2] Brito Broca (Guaratinguet, So Paulo, 1903 Rio de Janeiro, 1961): Crtico literrio e historiador que, a partir de 1934, se tornou responsvel pela seo Livros & Autores, publicada pelo jornal A Gazeta, de So Paulo. autor de, entre outras obras, A vida literria no Brasil: 1900 (1956) e Machado de Assis e a poli?tica mais outros estudos (1983). Foi Brito Broca quem pediu a Graciliano um artigo para a seo Variedades da revista Publicaes Mdicas e lhe sugeriu o assunto: o resultado Alguns tipos sem importncia, de 1939 (Confiram-se: BROCA, Brito. Prefcio a Linhas tortas. 5. ed. So Paulo: Martins, 1972; Remate de Males, Publicao do Departamento de Teoria Literria do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, Campinas, v. 11: Brito Broca Vida literria e histria cultural, 1991).

[3] A Gazeta: dirio vespertino, fundado em 1906 por Adolfo Arajo, na rua Quinze de Novembro em So Paulo, com esprito republicano. Modernizou-se e teve xito a partir de 1918, sob o comando do jornalista Csper Lbero (Bragana Paulista, 1889 Rio de Janeiro, 1943), com a valorizao de temticas locais, regionais, culturais, esportivas e sociais, e a criao de suplementos inditos na imprensa brasileira, como A Gazeta Esportiva (que depois se tornou jornal) e A Gazetinha (de histrias em quadrinhos). Como se ops Revoluo de 1930, foi empastelada por getulistas. Em 1979, devido a uma crise financeira, passou a suplemento de A Gazeta Esportiva, que deixou de ser publicada em 1999 (GONALO JUNIOR. A guerra dos gibis: A formao do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-1964. So Paulo: Companhia das Letras, 2004, pp. 48-9; MARTINS, Ana Luiza. Revistas em revista: imprensa e prticas culturais em tempos de Repblica, So Paulo, 1890-1922. cit., p. 189).

[4] Trata-se da penso de d. Elvira, localizada na rua Correia Dutra, 164, quase na esquina da Bento Lisboa, Catete, Rio de Janeiro, na qual tambm morava Rubem Braga. Diz o cronista: Estive outro dia me lembrando dele [Graciliano] e da penso em que a gente morava, no Catete, no tempo em que ele estava escrevendo Vidas secas. A comida era simples e sadia, e geralmente abundante. [] A dona no acertava seu nome, e o chamava de Brasiliano; ele a princpio reclamava, depois se conformou, me explicando: Eu pago to pouco que ela pode me chamar como quiser. (RAMOS, Clara. Mestre Graciliano: confirmao humana de uma obra. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1979, p. 126).

[5] Jos Olympio (Batatais, So Paulo, 1902 Rio de Janeiro, RJ, 1990): Em 1936, lanou Angstia quando Graciliano ainda se encontrava encarcerado pelo governo getulista. Manteve-se como editor da obra do autor alagoano at o princpio dos 1960, quando os direitos autorais em torno de toda a produo do escritor foram adquiridos pela Livraria Martins Editora, de So Paulo. No Autorretrato de Graciliano Ramos aos 56 anos, recolhido nesta edio, Graciliano coloca Jos Olympio entre seus maiores amigos, ao lado do capito Lobo (um oficial conhecido na priso, em Pernambuco), de Cubano (preso comum que conhecera quando se encontrava na Colnia Correcional) e de Jos Lins do Rego.

[6] Em carta ao escritor Lcio Cardoso, datada de 17 de junho de 1938, Brito Broca explicita que, antes de publicar as entrevistas que ento vinha fazendo com diversos intelectuais brasileiros, apresentava-lhes o texto resultante da conversa, pedindo que emendassem possveis equvocos. Adotou tal procedimento nas palestras com Arthur Ramos, Jos Lins do Rego e Graciliano Ramos. Com Lcio Cardoso esse procedimento no teria sido levado a termo, o que gerou atritos entre entrevistador e entrevistado: este no se responsabilizava pelos mal-entendidos publicados, e aquele afirmava haver reproduzido fielmente tudo o que o romancista dissera (Cf. BROCA, Brito. Carta a Lcio Cardoso. Rio de Janeiro, 17 jun. 1938, Fundao Casa de Rui Barbosa, not. LC Cp 036).

[7] Entre maio de 1937 e abril de 1938, dos treze captulos de Vidas secas, dez foram publicados na imprensa carioca, antes que o livro viesse a pblico. Os textos, na ordem cronolgica de sua primeira veiculao em suporte jornalstico, so os seguintes: Baleia, O Jornal, Rio de Janeiro, 23 maio 1937; O mundo coberto de penas (trecho de romance a sair Vidas secas), Revista Acadmica, Rio de Janeiro, n. 32, nov. 1937, p. 3; Pedao de Romance (excerto do captulo Cadeia), Dirio de Notcias, Rio de Janeiro, 5 dez. 1937 (Cadeia, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 26 mar. 1938, Il. Borsoi, pp. 26 e 27); Mudana, O Jornal, Rio de Janeiro, 19 dez. 1937; Trecho de romance (parte do captulo Sinha Vitria), Anurio Brasileiro de Literatura, Rio de Janeiro, 1938; Travessura (do captulo O menino mais novo), Dirio de Notcias, Rio de Janeiro, 23 jan. 1938 (Copyright de I.B.R); Fabiano, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 29 jan. 1938, pp. 22 e 23; Sero (fragmento do captulo Inverno), Folha de Minas, Belo Horizonte, 16 mar. 1938 e Dirio de Notcias, Rio de Janeiro, 3 abr. 1938 (Do romance indito Baleia Copyright de I.B.R); Festa, Lanterna Verde, Rio de Janeiro, abr. 1938; Viagem (fragmento do captulo Fuga), Dirio de Notcias, Rio de Janeiro, 14 abr. 1938 (Do romance Vidas secas Copyright de I.B.R). Contos-captulos do romance desmontvel (como o chamou Rubem Braga no Discurso de um ausente em 1942) tambm foram publicados no jornal argentino La Prensa. Em carta a um de seus tradutores argentinos, Benjamn de Garay, Graciliano destaca: Fiz, como lhe prometi, umas histrias do Nordeste, com bichos e matutos: tentei mostrar o que se passa no interior desses animais. [Cartas inditas de Graciliano Ramos a seus tradutores argentinos Benjamn de Garay e Ral Navarro. Introduo, ensaios e notas de Pedro Moacir Maia. Salvador: Edufba, 2008, p. 59].

[8] Jos Amrico de Almeida (1887, Areia, Paraba 1980, Joo Pessoa): Autor de A bagaceira (1928) e de Coiteiros (1935), entre outras obras, foi ministro da Viao e Obras Pblicas nos dois governos de Vargas e pr-candidato s eleies presidenciais de 1938, que no chegaram a acontecer em decorrncia do golpe de 1937 promovido por Getlio. Participou da roda de conversas da Livraria Jos Olympio e chegou a ser retratado na clebre crnica que Graciliano dedicou a essa casa editorial. H um ar de famlia naquela gente. Otvio Tarqunio deixa de ser ministro e Amando Fontes deixa de ser funcionrio grado. Vemos ali o reprter e vamos o candidato a presidente da Repblica, porque Jos Amrico aparecia algumas vezes. (RAMOS, Graciliano. A Livraria Jos Olympio. In: Linhas tortas. 21. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 170).

[9] De sua ntima relao com a zona do brejo, o autor de Menino de engenho (1932) extraa sua fora. O sr. Lins do Rego criou-se na bagaceira dum engenho, e julgo que nem sabe que bacharel. Conservou-se garoto de bagaceira, o que no lhe teria acontecido se morasse no Rio, frequentando teatros e metendo artigos nos jornais. (RAMOS, Graciliano. O romance do Nordeste. In: Garranchos. cit., p. 140).

[10] Jacques de Lacretelle (1888, Cormatin, Frana 1985, Paris): Escritor, membro da Academia Francesa, autor de Lcrivian public (1936), entre outros.

[11] Graciliano alude s crticas que o romance nordestino vinha recebendo, sobretudo da parte dos defensores da dita literatura intimista (escritores que deixavam de lado a representao de problemas sociais para privilegiar, no universo temtico dos grandes centros urbanos, dramas individuais das classes mais abastadas da populao). Destaque para o papel beligerante adotado pelo crtico e romancista catlico Octvio de Faria, autor do polmico Excesso de Norte. Nesse texto, vociferava que o movimento literrio nacional se deslocara gritantemente do Centro para o Norte, depois de um processo que mais se assemelhava a uma invaso, quase um delrio (FARIA, Octvio de. Excesso de Norte, Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, ano IV, n 10, julho de 1935, p. 263).

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