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 Graciliano Ramos
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Artigos

O gnio modesto

Publicado em 04 d novembro d 2014

Por Marcos Alvito
para o Jornal Rascunho
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Um ateu e comunista que considerava a Bblia um livro superior a toda literatura. Um autodidata que abandonou a escola sem concluir o ginasial por no acreditar nos professores e que se tornou diretor de Instruo Pblica. Um homem fechado, quase impenetrvel, que concedeu dezenas de entrevistas, isso quando no as criou do prprio punho, para evitar as distores. Um crtico feroz da literatura, que achava Machado de Assis um grande escritor, mas pssimo romancista devido ausncia de coragem para posicionar-se. Considerava o modernismo uma porta larga para todas as mediocridades. Mas ao mesmo tempo no se considerava escritor nem jornalista, no mximo tendo admitido ser um romancista de quinta categoria. Um homem que foi preso sem motivo, passou por mais de dez cadeias, onde foi espancado, torturado e teve a sua sade abalada para sempre, mas que dizia no ter acontecido nada de admirvel na sua vida, que definia como meio tola. Algum que no momento de maior glria e reconhecimento quase unnime como maior escritor do Brasil dizia no ter escrito nada que prestasse. Um pessimista ranzinza que adorava crianas e acreditava haver esperana para a humanidade. Um intelectual refinado, leitor em vrias lnguas, que considerava a fala do caboclo (do serto) um modelo e dizia que o escritor tinha que fazer que nem as lavadeiras de Alagoas, torcer e torcer at deixar as palavras secas. Um homem de quem muita gente queria e se dizia amigo, chegando a ser homenageado em um jantar em Copacabana por setenta intelectuais por ocasio dos seus cinquenta anos. Mas que afirmava preferir morar na priso, se l houvesse gua corrente para lavar as mos, a viver na cidade grande, onde no havia paz para ler e escrever. Em duas palavras: Graciliano Ramos, tambm conhecido como Velho Graa.

este retrato, rico e contraditrio, fascinante e profundo, repetitivo e revelador, que nos proporcionado por Conversas, um livro organizado com muita competncia por Thiago Mia Salla e Ieda Lebensztayn. Os organizadores esclarecem o contedo e o objetivo logo de sada: A ideia reunir falas de Graciliano Ramos, cujo cenrio em geral a Livraria Jos Olympio, ponto de convvio de diversos intelectuais nos anos 1930 e 1940.

Na verdade, o livro vai bem alm disso, pois h desde a primeira entrevista concedida pelo jovem Graciliano ainda em Alagoas at testemunhos concedidos por ele pouco antes de morrer, aos sessenta e um anos. A variedade dos documentos revela um trabalho extremamente paciente de pesquisa por parte dos organizadores, um corpus:

disperso em vrios peridicos e livros: respostas a entrevistas e a enquetes de imprensa, alm dos dilogos que compem causos, em que figuram o romancista e outros intelectuais conhecidos do pblico.

Diante de um escritor arredio e desconfiado, muitas vezes comparado a um sertanejo pelos jornalistas e literatos que buscavam pintar seu retrato, as estratgias foram variadas. Houve quem pedisse que o prprio Graciliano contasse a sua histria, o que ele fez mais de uma vez, com uma coerncia assustadora. Aos dezoito anos, em um inqurito promovido pelo Jornal de Alagoas, ele j se definia de forma marcante. Considerava um erro grave ter sido considerado um dos literatos alagoanos, pois achava que suas ideias tinham pouco valor e afirmava pouco conhecer de literatura. Mas era contundente ao explicitar sua preferncia pelo realismo:

Prefiro a escola que, rompendo a trama falsa do idealismo, descreve a vida tal qual , sem iluses nem mentiras.

Prevendo a polmica, tratava de se defender:

Dizem por a que os realistas s olham a parte m das coisas. () bom a gente acostumar-se logo com as misrias da vida. melhor que o indivduo, depois de mergulhado em pieguices romnticas, deparar com a verdade nua e crua.

Vinte e oito anos depois, j escritor consagrado, parecia repetir essa profisso de f anti-idealista quando afirma a Joel Silveira:

A palavra no foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.

Essa definio to austera encontrava companhia em hbitos ascticos, de trabalho disciplinado de autor que acordava todos os dias s trs da manh para poder ler e produzir em silncio, ele que odiava o telefone, a campainha e dizia nem mesmo gostar de msica ou entender patavinas de cinema. Vivia modestamente, complementando a renda dos seus artigos para jornais e revistas com um trabalho de inspetor de ensino do Colgio So Bento, mais uma das ironias da sua vida. Isso no era nada para quem j havia, na sua Alagoas natal, feito o elogio de Judas em um jornal publicado por um padre, em plena Quaresma.

Tinha horror s patotas literrias e s academias em geral. Mas isso no o impedia de passar as tardes em um banco desconfortvel bem no fundo da Livraria Jos Olympio, na rua do Ouvidor. Reclamava do assdio dos chatos e da mirade de jornalistas, sempre a importun-lo. Contudo o fazia, por gosto conversa com os amigos e muitos eram brindados com um humor to inesperado quanto custico. Certa vez teria dito que o comunismo no vingou no Brasil por um simples motivo, o desconhecimento da lngua ptria:

Pichavam nos muros o slogan de Marx: Trabalhadores do mundo, uni-vos. Mas quem pichava e quem lia no sabia o que era uni-vos.

O gingado dialtico do Velho Graa era admirvel. Por um lado, se percebia como um escritor engajado (embora evitasse esse tipo de classificao) e era um intelectual atuante politicamente. Fizera at mesmo o sacrifcio de concorrer a uma vaga de deputado pelo Partido Comunista durante seu breve perodo na legalidade. Mesmo em campanha, quando fora obrigado at a discursar, ironizava:

Prefiro a cadeia. Na Cmara eu tenho que falar, discutir e possivelmente dizer tolice. Na cadeia, estou descansado e tranquilo.

Era realista, para variar, quando admitia que o escritor no Brasil no mximo conseguia alcanar a pequena burguesia e que o que vigora mesmo o folhetim, que a massa vai aceitando como entorpecente. Colocado diante do paradoxo de que escrever bem significava no ter pblico, devolve o problema intacto ao reprter com certo humor:

Voc no vai querer dizer com isso que o escritor passe a escrever mal Ou vai?

Dizia no gostar do que escrevia. Considerava Caets de uma droga completa e lamentava a sua publicao. So Bernardo, visto por muitos crticos como uma obra-prima, mereceu do seu autor o seguinte comentrio:

menos ruim do que Caets, mas no chega a ser um romance.

Apesar do desgosto aparentemente sincero com a sua obra, admitia quase que envergonhado: continuarei a rabiscar romances e contos. O motivo? Confessa a um dos seus entrevistadores:

S encontro mesmo satisfao verdadeira em escrever.

Parecia buscar a coerncia acima de tudo, talvez por ter experimentado uma vida de contradies. Quase no aprende a ler, talvez porque quisessem apressar o aprendizado com surras constantes. Mas logo se apaixona pelos livros em meio a uma infncia solitria e penosa. Comea a escrever aos dez anos mas s v seu primeiro livro publicado a contragosto, como vimos aos quarenta anos. Passara a juventude, em suas prprias palavras, feito um cigano, vagando entre Alagoas, Pernambuco e Rio de Janeiro, onde tentou a vida literria sem sucesso. Voltou para Alagoas e viveu a vida pacata de comerciante de panos, tornou-se prefeito, diretor de Instruo Pblica e acabou sendo preso sem acusao formal, motivo pelo qual vem parar novamente no Rio de Janeiro. A passou a viver e acabou por se tornar um escritor reconhecido por crticos e pela opinio pblica.

Reafirmava sempre seu horror aos fascistas, mas perguntado se os nazistas seriam capazes de escrever um poema, responde com generosidade crtica:

Sim, devem fazer tambm poemas. Se no os fizessem, abandonariam completamente a espcie humana.

No foram poucas as tentativas de sintetizar Graciliano Ramos, o homem. O crtico Brito Broca ressaltava a simplicidade de seu trato e a dureza no olhar, embora admitisse que esta logo se desfazia em um sorriso de franqueza e simpatia. Joel Silveira, que o entrevistou pelo menos nove vezes, falava em jeito spero e cru, ressaltando que s vezes Graciliano gostava de puxar conversa e saltar de um assunto a outro, mas em outros momentos ficava ensimesmado, curtindo sozinho sua acidez. Assim descrevia seu amigo Graciliano:

Apresenta uma fisionomia cansada, fisionomia de algum que j viveu bastante. Seus cabelos so grisalhos e profundas rugas sulcam sua face, face ensolarada de verdadeiro sertanejo. Os olhos que logo impressionam. No so olhos comuns. So olhos vivos e alertas, sombreados por duas olheiras esmaecidas. Olhos fundos que penetram, que indagam, que s vezes substituem a voz. Os gestos desse homem so lentos. A conversa macia. O riso curto, quase sem expresso. () E o pensamento distante, muito distante, um pensamento perdido que parece flutuar em outra esfera, em momentos inexplicveis de sentir.

O fato que, apesar da sua casmurrice e de seu mau humor estratgico, ou talvez por causa disso, Graciliano cativava os que iam conversar com ele. Francisco de Assis Barbosa registrou sua estranha e admirvel personalidade. Osrio Nunes via nele um esprito em busca de horizontes, investigador e penetrante. Ruy Fac tambm tentou decifrar a esfinge:

Homem fechado, pensando muito e falando pouco () guarda toda a sua energia comunicativa para extern-la atravs de seus romances e de seus contos. () Geralmente, chamam a este tipo de intelectual de escritor torturado.

O prprio Graciliano, instado a definir-se, no fazia concesses:

Odeio esportes. No gosto de praias. Detesto viagens. Sou um animal sedentrio; nasci para ostra: caramujo.

Perguntado acerca da permanncia de sua obra, responde impiedosamente:

No vale nada, a rigor, at, j desapareceu.

O Velho Graa que me perdoe, mas desta vez ele estava redondamente enganado.

__________
Marcos Alvito antroplogo e professor da Universidade Federal Fluminense. Autor de sete livros, sendo os dois mais recentes Histrias do samba: de Joo da Baiana a Zeca Pagodinho e A rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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CONHEÇA A OBRA DE GRACILIANO RAMOS

  • Caets (1933)
  • Caets  edio especial 80 anos (2013)
  • S. Bernardo (1934)
  • Angstia (1936)
  • Angstia – edio especial 75 anos (2011)
  • Vidas Secas (1938)
  • Vidas Secas – edio especial 70 anos (2008)
  • Vidas Secas – em quadrinhos (2015)
  • Infncia (1945)
  • Insnia (1947)
  • Memrias do Crcere (1953)
  • Viagem (1954)
  • Linhas Tortas (1962)
  • Viventes das Alagoas (1962)
  • Garranchos (2012)
  • Cangaos (2014)
  • Conversas (2014)
  • A Terra dos Meninos Pelados (1939)
  • Histrias de Alexandre (1944)
  • Alexandre e Outros Heris (1962)
  • O Estribo de Prata (1984)
  • Minsk (2013)
  • Cartas (1980)
  • Cartas de Amor a Helosa (1992)
  • Dois Dedos (1945)
  • Histrias Incompletas (1946)
  • Brando entre o Mar e o Amor (1942)
  • Memrias de um Negro (1940) Booker T. Washington, traduo
  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937