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fev.15: Carnaval 1910

Publicado em 01 d fevereiro d 2015

Eram trs dias bem desagradveis. Sujeitos precavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto no os livraria de pesares: se se distraam, inundavam-nos jatos dgua suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelas, atentos aos moleques armados de bisnagas enormes de bambu. Alm desses inimigos, havia os indivduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarco, ocre, tintas de todas as cores, com que se pintavam os transeuntes.

Um doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, referia-se aos selvagens, aos tupinambs. Ningum lhe dava importncia e a zanga esfriava. Bem, agora, molhado, no valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na funo, tornar-se tambm selvagem, vingar-se, provocar outras indignaes e arrastar para a folia os amigos cautelosos.

Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo interessante. Alguns viam perfeitamente que estavam fazendo maluqueira, e desregravam-se com moderao, quase a pedir desculpas encabuladas cidadezinha pacata. Homens graves, pais de famlia, tisnados, bebendo, aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam a sisudez necessria.

Cadeiras nas caladas. Meninas srias e bicudas reprovando os excessos, sacudindo com espanto e enjo as cabeas, onde se arrumavam papelotes. No se contaminavam, estavam livres da pintura, dos banhos, de atracaes perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da procisso. Rapazes ousados atiravam nelas esguichos dgua-de-cheiro e eram mal recebidos. Muxoxos. Que assanhamento! Nada de confiana. Brincadeira com moa findava na igreja ou rendia pancada. Os desejos no se escondiam sob nuvens de confete, no se amarravam com serpentinas, no se excitavam com ter.

Ainda se desconhecia o automvel. A gente escassa pezunhava nas barrocas do calamento ruim, equilibrava-se nas pedras pontudas.

As negras se haviam tingido com papel vermelho molhado. E andavam tesas para no desmanchar os enfeites do pixaim, branco de fiapos.

De longe em longe desfilavam parafusos, tipos envoltos em numerosas anguas que se iam encurtando. As de cima, perto do pescoo, eram camisas de crianas. Esses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora, pacholas, cobertos de renda engomada.

Papangus vagabundos enrolavam-se em sacos de estopa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mos caladas em meias.

Bobos de mscaras horrveis se esforavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso:

Voc me conhece?

Se no conseguiam disfarar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados.

O ndio, de penacho e tanga, era personagem obrigatria e silenciosa.

Passava o cordo, levantando poeira, causando entusiasmo. Um frevo decente em redor da porta-bandeira. Repetiam-se cantigas de dez anos sem nenhuma alterao, muito bem ensaiadas. As figuras marchavam na disciplina; o homem da maromba conduzia o bando, importante; papai velho exibia vaidoso a cabeleira de algodo e as longas barbas de espanador; o morcego, na frente, fazia piruetas, agitando as asas de guarda-chuva.

Mascarados solitrios produziam hilaridade com pilhrias antigas e ditos grosseiros, inconvenientes. Outros, reunidos, formavam as crticas, motivo de receios e alarmas. Aluses a notveis acontecimentos do lugar, comentrios a fatos melindrosos e particulares, mexericos tolos, sem graa nenhuma. Criavam-se inimigos. E s vezes se liquidavam contas velhas.

Um cidado espiava o morcego e o parafuso, de longe. Dois ou trs embuados musculosos entravam-lhe em casa, batiam-no a cacete. Berros, splicas, sangue, apitos, sumiam-se na festa. Ningum sabia donde vinham as pauladas e era bom evitar opinies. No ano seguinte as crticas seriam menos ofensivas.

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Cultura Poltica, ano I, n 1, Rio de Janeiro, mar. 1941

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Queria endurecer o corao, eliminar o passado, fazer com ele o que fao quando emendo um perodo riscar, engrossar os riscos e transform-los em borres, suprimir todas as letras, no deixar vestgio de idias obliteradas.

Memrias do Crcere, cap. 5