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 Graciliano Ramos
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Blog / Um texto por ms

mar.15: Uma viagem a bonde

Publicado em 01 d Março d 2015

Na grande cidade, plana, montanhosa, rica, miservel, cheia de hiatos, horrores e belezas, o viajante da provncia, chegado h pouco num vaporzinho ronceiro, coleciona surpresas e contradies. O morro pitoresco visto de longe, verde e pedregoso, coberto de tbua e lata, parece baixar-se de repente, alargar-se na plancie. uma elevao quase imperceptvel, sem verdura nem pedra, mas l fervilha uma sociedade como a das grandes alturas, das ladeiras ngremes e ziguezagueantes. A favela desceu; torcem-se becos na areia, labirinto complicadssimo. As rvores do Jardim Botnico erguem-se na vizinhana. As casas prximas cresceram e tornaram-se palacetes, o arranha-cu baixa a cabea e espia, constrangido, a vermina que lhe formiga os ps. Rolam nibus e meia dzia de passos. E ali, na tbua dura e na lata enferrujada, Aurora se contempla num pedao de espelho, seu Oscar arranca tristezas do pinho, os meninos de seu Oscar pegam vasilhas e vo mendigar gua nos corredores.

O viajante estira o pescoo, desvia-se do jornal, larga Churchill e Hitler, faz reflexes ponderosas, receita mentalmente remdios enrgicos e paliativos, logo esquecidos. Saiu do hotel pela manh e, atordoado por estranhos rumores, gritos de choferes e buzinar de automveis, incorporou-se na multido e foi estudar topografia. Como na terra dele se diz que todo o caminho d na venda, achou desnecessrio munir-se de carta: entrou num veculo e rodou para o sul.

Apeou-se em Copacabana, onde viu numerosas criaturas de roupas escassas banhando-se ou lagarteando, estateladas. Afastou-se, repeliu severamente aquela nudez e aquela mistura, foi descansar nos bancos da praa, ver as palmeiras, o coreto. Voltou a examinar os banhistas, dobrou esquinas, circulou na praia e nas vias interiores, admirou a altura dos prdios, o tamanho dos elevadores e os cartazes dos cinemas. Desnorteado, meteu-se num bonde e distraiu-se algum tempo olhando as placas das ruas compridas. Saltou no fim de Ipanema, tomou outro bonde e, atrado por uma espaventosa manchete, ps os culos e comeou a ler disfaradamente, com o rabo do olho, o jornal dum companheiro de banco. Entreteve-se atentando na favela.

Agora repousa a vista numa longa fileira de bangals tranqilos, decentes, meio ocultos em vegetais educados nos limites impostos pela tesoura do jardineiro, plantas desambiciosas, chinfrins e burocrticas. Algumas crianas patinam moderadamente na calada; com certeza mame, l dentro, manipula os vestidos das pequenas; papai chateia-se na repartio. Ordem. Parece que as coisas vo direito. No h motivo para desgosto. O nosso passageiro esfrega as mos. Por que esse barulho todo na Europa, essa fria, essa doidice? De fato h pessoas exigentes, milhes de pessoas exigentes e mal intencionadas.

Rua Voluntrios da Ptria, bonito nome. No morava aqui o Oswaldo Cruz? , morava. Que baguna, pai do cu! Tempo esquisito! Berros no Congresso, artigos medonhos, fuzu, gente morrendo por causa da vacina. Hoje no h disso, graas a Deus. A imprensa razovel, somos todos razoveis, e os discursos, no rdio, perderam a eficcia.

Parada no Pavilho Mourisco, cinco minutos junto fonte vazia e suja. Nova mudana de veculo.

Bem. Isto por aqui deve ser Botafogo, no? Leituras antigas auxiliam o provinciano. Antigas e recentes. Botafogo, sem dvida. Que da placa? Vive ali uma das personagens do sr. Gilberto Amado. Onde ficaro as palmeiras? O homem conhece a boa literatura. Instituto Juruena. Naquele jardim o sujeito do pra-quedas se esborrachou. Caram na vizinhana pedaos do aeroplano onde viajava o ministro de Cuba. Escangalharam-se dois avies e uns dez indivduos entregaram a alma a Deus, mas s nos lembramos do dr. Cat. O resto sumiu-se, como os pra-quedistas metralhados e os marinheiros que afundam.

Marqus de Abrantes. Quem ter sido o marqus de Abrantes? O passageiro ignora muitos patronos das vias pblicas, o que no o inibe de respeit-los.

Numa praa mida, com folhas de papel na mo, Jos de Alencar est sentado em posio ridcula. Muito grande, Jos de Alencar. Necessrio melhorar-lhe a esttua. O Guarani, que poucos leram e todos admiram, h de tornar-se um livro fundamental, maior que Os Sertes. Falta uma esttua de Euclides da Cunha: cidado deste sculo, ainda no amadureceu convenientemente.

Rua Machado de Assis. Ah! Esse era enorme e continua a crescer. Superior, infinitamente superior a Ea de Queirs. Precisamos afirmar isto. Sem comparao no h grandeza. S Deus Deus e Maom o seu profeta.

L est o Catete. Sim senhor ali. Nos arredores, a casa de mveis do judeu, literatos padecendo no fundo de penses ordinrias, bodegas de frutas, as meninas de Rubem Braga, em chinelos, transitando na calada. Muito democrtico.

Pouco adiante, o relgio da Glria e o combate nos tempos pr-histricos, divulgados nas estampas que enfeitam peas de fazenda barata, no interior. Estamos chegando.

O Passeio Pblico encolheu-se e pedir demisso qualquer dia. O Monroe. Para qu? Chi! Quanto cinema! A Biblioteca Nacional e, defronte, o monumento de Floriano com diversos atavios, Y-juca-pyrama, O Caramuru e outras habilidades.

O viajante desce do carro e mergulha no aperto da Avenida, morrinhento, encharcado de suor. Depois dar uma volta por Engenho de Dentro ou pelo Mier. Mas isto provncia. Por enquanto precisa recolher-se, deitar-se.

25 de maio de 1941

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IN: RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. Rio de Janeiro: Record, 2013, p.356-360.

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  • A Peste (1950) Albert Camus, traduo

“Os dados biogrficos que no posso arranjar, porque no tenho biografia. Nunca fui literato, at pouco tempo vivia na roa e negociava. Por infelicidade, virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatrios que me desgraaram. Veja o senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidado.”

em carta a Ral Navarro, tradutor, nov.1937